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Prospecção Mineralógica de Fim de Semana

Gente de extrema finura teve o bom gosto de me ofertar meia dúzia de calhaus nos quais tropeçaram durante um passeio em fértil jazida. O passeio deu-se numa das 184.952 pedreiras de Estremoz, e conhecida é a fertilidade daquela terra em termos de metamórficos carbonatados, neste caso particular, mármore. E o que é que o mármore tem? Tem carbonato de cálcio, tem! E portanto tem calcites, tem! E foi isso mesmo que a supracitada gente de extrema finura me trouxe: meia dúzia de amostras de Calcite, das quais ali em cima se apresenta um espécime. Está um pouco erodida e sem brilho, porém é sem dúvida a mais fotogénica de todas. Não querendo ferir susceptibilidades, e longe de não me mostrar grato, tenho um conselho a dar a outra gente de extrema finura que tropece em jazidas deste género e queira surripiar à terra aquilo que ela dá de livre vontade: manuseie os calhaus com cuidado. Embrulhe-os para transporte, nem que seja em papel do Correio da Manhã, mas proteja-o e lave-o com cuidado. A calcite, por exemplo, tem dureza 3 em 10, o que significa que se a enfiar num saco sem proteger cada uma das peças o mais certo é chegar a casa com elas todas partidas em romboedros, ou no mínimo todas riscadas e com linhas de fractura. E é uma pena tirar da mochila um cristal que estava perfeito quando foi achado, mas já não está. Mais, quando um pedaço de rocha matriz estiver a atrapalhar, não precisa de invocar toda a força dos seus antepassados guerreiros para a partir: pancadas firmes e secas fazem o mesmo e poupam possíveis preciosidades escondidas na rocha. Se não tiver as calosidades nas mãos típicas de um trabalhador a sério, não se envergonhe e calce umas luvas, mas é muito importante que segure a pedra na mão e a pancada seja dada no sitio certo – da pedra, não da mão. É mais jeito que força, como diziam os antigos.

É que a Terra demora uns milhões de anos a fazer estas coisinhas todas bonitas e o caralho, mas é necessário só um bocadinho de brutidade humana para destruir aquilo. E digo isto com plena consciência do animal em que me transformo quando vou aos calhaus; lembrando-me também daquela vez em que destruí uma Celestite porque lhe dei banho em água; e da outra em fiz desaparecer 70% da cobertura de Libetenite de uma amostra encontrada. Por isso sei bem do que falo. Todo o cuidado é pouco, nestas merdas, e o que aqui aconselho é o mais básico que há mas no final de contas já é alguma coisa.

E mais uma vez, obrigado às gentes de extrema finura.

Porque domingo é dia de calhaus

Achei este exemplar de Wulfenite e Mimetite demasiado interessante para constar apenas da loja do Kevin Ward. Uma vez que não tenho os 485 dólares necessários – caramba, é praticamente oferecida – para a sua compra, e já que o aspecto aqui da tabanca está mais agradável, pensei em trazê-la para efeitos meramente decorativos. Mas sabe, caro leitor, é difícil jogar imagens de calhaus destes na sua cara sem um mínimo de explicações sobre o que está a ver. Portantos, aqui vai:

Ao contrário do que lhe possa parecer, não está a olhar para caramelos engenhosamente colados a líquenes mais férteis em algas do que em fungos, nem para uma estranha salada gourmet saída de um sonho molhado do Sá Pessoa, mas sim para cubos de Wulfenite, conhecido nalguns círculos mais restritos como molibdenato  – ou molibdato – de chumbo, muito bem acompanhados por glóbulos de Mimetite verdusca. Pronto, vê? Não se sente muito mais esclarecido? Pode clicar na imagem para ver melhor, claro.

Ele há joalheiros do caralho.

Prata nativa filamentosa. Encontrada na mina de Himmelsfürst ne Alemanha. Em querendo, é apanhar em 24.500 dólares americanos, ir à página do Kevin Ward e encomendá-la.

As Grandes Famílias: Granada

Hoje venho falar-vos de uma das maiores e mais espectaculares famílias de minerais: Granadas. A origem do seu bélico nome nada tem a ver com aqueles pequenos artefactos feitos para estraçalhar tudo o que tiver o azar de estar no seu raio de acção. A origem do seu nome tem, isso sim, a ver com a romã, que em latim se pronuncia Punica granatum e com a sua forma ligeiramente semelhante à família de ortossilicatos. Granadas há muitas, cada uma com o seu feitio e cor, mas os traços de família são comuns a todas e tornam-na numa das família de minerais mais importante. Um desses traços é a memória: todas as granadas se lembram onde, quando e como nasceram, sendo, portanto, de extrema importância para aquela estranha espécie  de humanos denominada por geólogos. Uma delas, a Knorringite – que nome, Céus -, chega ao ponto de ser uma espécie de chibo de diamantes: onde quer que seja vista é sinal de que há Diamantes nas redondezas. Mas não se ponha já a olhar para o chão. Há quem diga que a Knorringite é ainda mais rara que o melhor amigo das raparigas.

Além de uma família de historiadores e chibos, as Granadas também enfeitam como ninguém. São rijas o suficiente para poderem ser lapidadas e aguentar uma vida inteira de dedo em dedo ou de pescoço em pescoço; são lindas, quase todas elas, e muito mais comuns que os parentes Berilos e Corindos, que é o mesmo que dizer Esmeraldas, Rubis e Safiras.

Mesmo quando a feiura não lhes permite ganhar um lugar numa jóia, as Granadas também não ficam paradas. Devido à sua dureza depressa se desenvencilham como abrasivo em lixas ou em jactos de areia.

Mas vamos conhecer os principais rostos.

Andradite

As suas cores vão desde o vermelho, ao preto, passando ainda pelo verde, cuja variedade se chama Demantóide e é uma das Granadas mais valorizadas.

Almandina

Ou Carbúnculo. Não confundir com a doença infecto-contagiosa. Os seus espécimes mais límpidos substituem muitas vezes os caríssimos Rubis.

Grossulária

Roubou o nome ao latim para a planta groselheira. Pode ser verde, amarela, castanha-canela, e vermelha. Uma das suas melhores descendentes é a verdusca Tsavorite, descoberta nos anos 60 em Tsavo, Quénia.

Piropo

Não, não trabalha nas obras nem é um engatatão. Piropo vem do grego pyropo que significa olho-de-chamas. As suas cores variam entre o vermelho vivo e o preto, sem esquecer a muito apreciada transparência. Recentemente foi descoberta uma variedade proveniente de um acasalamento consanguíneo entre o Piropo e a Espessarite que muda de cor, um pouco como a Alexandrite, que já vos tinha apresentado. A principal diferença entre a Granada e a transformista Alexandrite é que a primeira varia de cor ao longo do dia e não só consoante o tipo de luz. Acorda verde ou azul acinzentado e ao fim da tarde tem tendência para ficar vermelha. À luz incandescente pode mesmo chegar ao púrpura.

Uvarovite

O nome não vem do facto de surgir quase sempre em cachos, mas sim do Conde Sergei Uvarov. É sempre verde-esmeralda e a maior mágoa dos joalheiros é a supracitada Granada ocorrer sempre em cristais demasiado pequenos para trabalhar. Assim, os artífices aproveitam a matriz do mineral e engastam-no em jóias mesmo assim.

Outros elementos da família Granada; alguns pouco comuns e outros cuja descrição não iria adicionar grande coisa ao que aqui já foi escrito:

Berzelite, Calderite, Escorlomite, Espessarite, Goldmanite, Henritermierite, Hibschite, Katoite, Kerimasite, Kimzeyite, Knorringite, Majorite, Mangaberzelite, Morimotoite, Palenzonauite, Toturite, Yafsoaite.

Atenção que estes nomes foram retirados de artigos em inglês, pelo que o seu nome em português pode ser ligeiramente diferente. Seja como for, de nomes esquisitos dificilmente passam. E olhe que ainda há mais Granadas: quase todas as variedades aqui referidas têm primos em segundo grau. Mas falar deles tornaria este artigo ainda mais extenso e secante do que já e. Nem sequer falei em composições químicas, veja lá.

Fotografias tiradas daqui.

As esmeraldas não nascem em anéis.

Nascem sim em bolsas hidrotermais, principalmente, onde as condições ideais de temperatura, pressão e sobressaturação se mantiveram tempo suficiente para que a solução em causa precipitasse e cristalizasse o berílio, o alumínio e o silício necessários e ainda que, durante os milhões de anos de construção, organizasse os elementos acima descritos de forma a criar uma esmeralda e não outro mineral qualquer. Como se vê, criar minerais não é tarefa nem fácil nem rápida. É um parto bastante difícil para a Terra, mas tão natural que o faz se sem dar por isso.

Este anel tem como prato principal uma esmeralda, os diamantes e a platina são o acompanhamento, manda-se para os 2.4 milhões de dólares (assobio de olhos arregalados). Já isto é uma esmeralda ainda cravada na sua matriz proveniente da Zâmbia. Tem 3 cm de comprimento – ou altura, neste caso – e um preço de mercado que ronda os 4.500 dólares.

No entanto. esta outra imagem aqui por baixo, representa uma água-marinha, parente próximo mas muito menos precioso da esmeralda. O cristal em questão tem 4 cm de altura por 3 de largura, e minúsculas estrias fazem surgir a ilusão de uma gasosa. É um prisma perfeito, com arestas tão definidas que até mete nojo.

Custa “apenas” 2.500 dólares. Subvalorizada?Talvez.

Diga-me o gemológico leitor, qual das três peças aqui descritas acha mais espectacular.

Desde épocas imemoriais que os seres humanos dão um valor desmesurado a este tipo de minerais – gemas -, trabalhando-os, melhorando-os (na óptica da maioria das pessoas) de forma a que se possam pavonear com eles ou ganhar dinheiro com isso. As esmeraldas não nascem em anéis, mas parece. Devido à sobrevalorização da joalharia as peças em “estado selvagem” como as apresentadas acima rareiam cada vez mais, enquanto os joalheiros compram toneladas de pedras a preços irrisórios e guardam-nas nos cofres durante anos para que o seu preço de mercado não desça escabrosamente. É prática corrente quer no mercado das esmeraldas, rubis, safiras e água-marinhas, mas principalmente no dos diamantes. Chama-se especulação e apesar de não ser ilegal, é, vá, feio.

Nota: tanto a esmeralda como a água-marinha em cristal encontram-se em colecções privadas e a salvo de qualquer esmeril e lima mais famintos.

Calhaus para ricos

As duas pessoas que seguem atentamente as minhas (poucas) dissertações sobre mineralogia sabem bem onde vou buscar as fotografias e alguma da inspiração: ao site de leilões Exceptional Minerals, de Kevin Ward. Apesar do seu aspecto gráfico se situar bem perto do de um bordel internáutico dos anos 80, acredito que tenha muito movimento, não só pelas constantes actualizações, mas também pelas peças mineralógicas que lá aparecem. Ora bem, hoje andei a vasculhar as salas de um novo leilão cujo título é Exceptional Rooms, onde supostamente estão representados os melhores especimens disponíveis. Foi, naturalmente, com algum espanto que tropecei nesta “maravilha”:

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Chama-se Rodocrosite, é tão tímida que raramente se encontra em qualquer lugar que seja, tem uma dureza de 3.5 a 4 na escala de Mohs e, apesar de possuir algum manganésio na sua estrutura, não serve para grande coisa, coitada. Este exemplar em particular nem sequer é muito bonito, quando comparado com coisas destas, e vem de uma mina parcialmente abandonada na cidade de Climax no Colorado. Diga-se de passagem que não é um local muito simpático para os manganésios, uma vez que os molibdénios têm em Climax uma das suas maiores colónias e toda a gente sabe o que acontece quando um invade o território do outro, todos vemos o telejornal, certo? Segundo o  próprio Kevin Ward “demorei doze anos a encontrar o Santo Graal das rodocrosites: uma peça grande, com cristais grandes, completos e com uma cor profunda“. Talvez seja essa a razão principal por que custa 95.000 dólares. Leu bem: noventa e cinco mil dólares. A raridade tem um preço e nunca é baixo. Além desta Rodocrosite milionária, só uma outra peça batia os 95 quilodólares: uma árvore de prata nativa norueguesa. Porém, esta sim, só de olhar para ela quase vale a pena pagar o que ela vale.

Mineralogia para Pessoas Normais – Lição #5

Reparo com extremo assombro que, algures nos esconsos arquivos deste blog, cometi uma das mais terríveis gaffes que se pode cometer em mineralogia: trocar um raríssimo fosfato de cobre por um mísero filossilicato de lítio. Pior que isso foi você, incompetente leitor, ter engolido a patranha como se de um refresco num dia como o de hoje se tratasse. Nunca, sob circunstância alguma, se pode confundir uma verdusca Libethenite por uma rosácea mica chamada Lepidolite. Nunca, nunca. Vinte chibatadas no lombo, por favor.

E já que estamos com a picareta na pedra aproveito para lhe atirar uma coisa impressionante à cara: micas há muitas, seu palerma. Quando lhe perguntarem qual é a composição do granito (uma perguntinha classificada como “de algibeira” desde a 4ª classe) você contra-interrogue perguntando qual a composição principal do granito: cálcio, magnésio, potássio, alumínio ou ferro. Claro que há mais possibilidades, mas vamos centrar-nos apenas em dois tipos de espécimes micáceos: os mais fáceis de encontrar em qualquer calçada e os que têm o nome mais estúpido. Assim, temos a Muscovite, de cor branca ou cinzenta, prenhe em alumínio e potássio (se bem que tem um primo chegado, de côr verde e empanturrado em crómio, que se chama Fuchsite, imagine). Temos a Biotite, muito parecida com a sua parente moscovita (hahaha), mas de côr preta e à base de ferro. São estas as duas variedades mais corriqueiras e também as duas únicas com um nome capaz de não suscitar o riso convulsivo. Agora vamos ver as micas que raramente são convidadas para as festas de família.

Já ouviu falar em Flogopite? Imagino que ela também não ouviu falar de si, mas para ir preparado para um possível encontro, elogie as suas nuances verde-escuras ou vermelho acastanhado, dependendo do caso, mas não se esqueça de lhe falar da excelente qualidade do seu magnésio. Fale-lhe também mal da sua prima em primeiro grau Biotite, as micas adoram cochichos.

Se por acaso alguma mica se lhe apresentar como Zinnwaldite, diga-lhe que não tem tempo para falar: a mistura de alumínio, ferro, lítio e potássio faz com que a dita mica seja capaz de dissertar sobre qualquer coisa durante dias a fio. Cuidado, sabe que um chato nunca perde o seu tempo: perde o dos outros.

Agora a cereja no topo do bolo micóide: Marguerite! Simpática, de tez pálida e falar suave, é a companhia perfeita para uma tarde oitocentista. Gaba-se de ser a mica que mais cálcio transporta no regaço e, apesar de saber que todas as suas primas a acham uma sonsa, não gosta muito de falar delas. Prefere o críquete, passeios a cavalo e chá. Às cinco.

Agora veja lá o que é um exemplar a sério de Muscovite. (as lâminas prateadas, os azulinhos são Água-marinha e os rosinhas são Apofilite e Fluorite)

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Todas as informações são facilmente confirmadas – e aumentadas – com uma breve visita à Mindat e à Wikipedia. Claro que a fotografia é de Kevin Ward.

Mineração para principiantes

Há anos – se é que alguma vez aconteceu a sério – que não ia a uma visita de prospecção mineralógica a um local. Através de tropeços consecutivos em nomes, locais, mapas e fotografias, cheguei por fim a colocar o martelo e um escopro improvisado dentro da mochila. Quando se chega a este ponto já não há nada a fazer. A excitação da caça ao tesouro faz rebolar a rocha em equilibrio precário em cima da colina e tenho de a seguir. Assim foi. O senhor Ricardo Pimentel providenciou-me as luzes, o Google deu uma ajuda, mas no fim foi o senhor Borrego que salvou o dia. Bem podia andar às voltas num mar de guindastes, blocos de mármore e crateras incomensuráveis, que nunca encontraria o pequeno lago de águas verdes que se vê do Google. Mais um obrigado ao expedito e muy simpático senhor Borrego de Bencatel. Enfim chegados ao local chegou também o frenesim mental que põe um gajo qual touro acabado de sair do curro, a olhar freneticamente para o chão, à procura de um brilho fátuo, de uma rocha deslocada, de algum sinal que me dissesse “rapaz, abre aí o saco, porque hoje vais levar pedras para casa”. Calma. Não é assim que se procuram minerais. A Terra criou-os com paciência e é com paciência que os tens de encontrar, disse para mim. Cigarro. As máquinas fotográficas das minhas duas colegas do estranho corpo expedicionário começaram a disparar. Abro a folha com o “mapa do tesouro”. Marco mentalmente os caminhos. Picarete na mão. Aí vamos nós.

Foi uma bela tarde. Relativamente poucos achados, mas para uma primeira visita não foi mau de todo. Soube bem voltar há 15 anos atrás, quando era um miúdo enlameado, sempre metido em qualquer cabouco aberto para suportar um novo edifício. Soube bem sentir a terra nas mãos e os olhos quase saltar de tanto procurar pelos brilhos e cores da moda (o verde do cobre, o vermelho dos óxidos e o cinzento dos liditos). Lepidolites (cristais muito pequenos, mas em grandes aglomerados), Malaquite e Pseudomalaquite. Desengane-se se pensar que a Pseudomalaquite é uma versão de linha branca da Malaquite. A primeira é muito mais rara e muito mais engraçada ora veja lá se não tenho razão:

Pseudomalaquite1SMALL

Pseudomalaquite

Malaquite2SMALL

Malaquite

Obviamente as fotografias não estão grande cartucho. Primeiro porque foram tiradas na minha secretária; depois porque as peças nem estão lavadas como manda a cartilha museológica; e ainda depois porque não tenho uma lupa binocular a que possa acoplar a Nikon, ou uma lente decente para estas coisas. Outra coisa que pode não estar grande cartucho são os nomes. Para ter 100% de certeza no que estou a dizer precisava de um pequeno laboratório apetrechado pelo menos com alguns ácidos e uma lamparina. Não tenho nada disso, portanto tomemos estes nomes como certos. Ainda guardo a hipótese de a Pseudomalaquite ser na realidade Brocantite, mas dizem-me para apostar na primeira, e eu assim faço. Quando tiver um laboratório então tiro as teimas.

Ah, claro, faltava uma pequena explicação sobre, pelo menos, estes dois calhaus. A Malaquite é um carbonato de cobre, já a sua versão Pseudo é um fosfato. A primeira é a coisa mais normal em minas de cobre, a segunda já não se dá com toda a gente. Não servem para grande coisa, a menos que o caro leitor seja um pintor renascentista, no que diz respeito à Malaquite; ou um fanático por verde, no caso da Pseudomalaquite. Seja um ou seja outro, posso sempre levá-lo na próxima visita à Mina Miguel Vacas em Vila Viçosa. Traga água e lanche para quatro.

Mineralogia para Pessoas Normais – Lição #4

Cada vez que aqui se tenta partilhar algum conhecimento, por pouco que seja, de mineralogia, o curioso leitor depara-se sempre com fotografias de espécimes de tirar o fôlego: cristais brilhantes, de formas perfeitas e cores dignas de um stand IKEA. Pensará, porventura, que os processos geológicos, na sua infinita sabedoria, são os melhores ourives que alguma vez existiram. Bem, lá pacientes são, e, diga-se, fazem obras realmente maravilhosas. Mas nem sempre assim é. Por vezes parece que decidem juntar as aparas que sobram de magníficas jóias e aproveitá-las, construindo algo não tão espectacular assim, mas que, como todas as pessoas feias, é filha de Deus. É o que se passa, por exemplo, com um mineral que tem como fórmula química (Fe,Mg,Zn)2Al9(Si,Al)4O22OH2. Vê o que eu digo? Assim de repente, e sem nos perdermos demasiado nos terríveis meandros da nomenclatura química, conseguimos vislumbrar ferro, magnésio, zinco, alumínio, silício, mais alumínio, oxigénio e um hidróxidozito. Para ser um champô topo de gama falta-lhe talvez o óleo de jojoba. Ora agora falta-lhe dar um nome e uma imagem, para ficar a conhecer o Quasimodo da geologia. O nome é Estaurolite (HAHAHAHA), que provém do grego – qual deles nunca saberei, mas decerto que conseguia juntar duas palavras – stauros (cruz) e lithos (pedra). Ora veja lá se os gregos, já naquela altura, não seriam os mestres do óbvio:

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Os cristais são prismáticos e costumam surgir em cruz – maclas, em geologuês - sendo apenas esses que valem a pena serem guardados. Não se lhe conhecem aplicações decentes: no meio de tantos elementos químicos não há nenhum que exista em quantidades aproveitáveis. Como qualquer grunho que se preze tem uma dureza digna desse nome, de 1 a 10 tem 7,5, não funde ao maçarico e só o ácido sulfúrico é capaz de fazer alguma mossa ao rapaz. Diz que ocorre muito raramente, apesar de ter ouvido boatos que davam conta de uma grande jazida perto do Porto. Pode ser conversa de pescador, mas a verdade é que os xistos metamórficos do norte do país são férteis em muitos minerais que costumam ocorrer ao lado na nossa Estaurolite.

E pronto, não há muito mais a dizer. Só não queria que ficasse com a ideia de que no mundo da mineralogia é tudo muito lindo e perfeito. Não. Até aqui há Brunos Alves, Ronnys e Manuelas Mouras Guedes. Até Josés Castelos Brancos aqui temos, lembra-se?

Desta vez a fotografia não é de Kevin Ward. Bem, até pode ser, mas roubei-a alarvemente da Minerals Rodrigues, tem uma página muito decente que, pelos vistos, é uma raridade neste meio.

Mineralogia para Pessoas Normais – Lição #3

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Gostou desta pequena mostra mineralógica? Calhaus lindíssimos, não são? E são todos da mesma raça, sabia? Calma, já os apresento. Vamos adensar o mistério. Não, não pode incrustar uma coisa destas num anel. Ora, porque a baixa dureza do material (4, numa escala de 0 a 10) faria com que se esfarelasse, qual pão bolorento, passados uns meses a passear no singelo dedo de uma donzela – imagine então como seria se o dono do anel fosse um virilíssimo servente de construção civil. Adiante. Se ainda não faz a mais pequena ideia do nome do nosso cúbico amigo vou dar-lhe mais uma pista: ocorre muito frequentemente em veios e jazidas de origem hidrotermal. Não chegou lá? Então lá vai mais uma: o seu principal componente é o pior rival dos dentistas. Ainda não? Pronto, então digo-lhe que a palavra “fluorescente” vem desse mesmo principal componente. Exacto. Agora só lhe falta juntar o sufixo mais famoso da mineralogia… Ora bolas, ainda não, lerdo leitor?! Pronto, então diga comigo, vá: Flu – o – ri – te! Viu? Não era assim tão difícil, pois não? É esse mesmo o nome do mineral de hoje: fluorite. Com cores que podem ir desde o verde pálido a violeta pujante, e companheiros de génese com nomes como galena, esfalerite, barite, quartzo e calcite, a fluorite tem um aspecto assombroso. Imagine o curioso leitor que há quem esfrangalhe peças como aquelas ali em cima para fazer pasta de dentes, medicamentos, esmalte, lentes para telescópios e microscópios e – pior que tudo, oh Deus – bombas atómicas! Cautela com esse menino flúor! Tapa-se com a capinha de protector do esmalte dos dentes, porém, quando ingerido (é bom referir que o flúor proveniente da fluorite é absorvido pelo organismo na sua totalidade) em doses ligeiramente mais elevadas do que as aceitáveis pode destruir por completo a dentição, a estrutura óssea e até trazer problemas neurológicos. A dose faz o veneno, já diziam os antigos.

Seja como for, a fluorite é ao mesmo tempo um dos minerais mais comuns na Terra e também um dos mais espectaculares. Nas fotografias estão representados apenas exemplares com cristais cúbicos, mas podem ser octaedros e outras formas excêntricas mas sempre intimamente ligadas ao sistema cúbico.

Ah, quase me esquecia. As fotografias são, obviamente, por conta de Kevin Ward. Já disse que ele tem um site horrível? Mas os calhaus, Senhor, os calhaus são de chorar!

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