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O Poço Tapado

Aquele poço aterrorizava-o desde que se lembra. Ficava dentro de casa, encostado à parede exterior da fachada principal que dava para a Rua do Poço Tapado. Estava sempre, e muito obviamente, tapado por uma pesada laje de granito negro e dele nunca saiu uma única pinga de água, pelo menos que soubesse. Não sabia, e não podia saber porque nunca lhe disseram, qual a razão para aquele poço estar tapado e se era o mesmo poço cuja particularidade havia dado o nome à rua; velha, muito velha a rua, uma das primeiras da vila talvez, quando o planeamento urbano ditava que se construíssem as casas bem perto umas das outras, organizadas em intricadas e tortuosas ramificações partindo de um único ponto: um castelo há muito decrépito. O poço estava agora tapado, mas em alguma altura havia de ter estado aberto, de entranhas ao sol, a dar água a quem precisasse, e talvez estivesse mesmo na rua antes de ser engolido pelas paredes da casa. Não sabia porque o tinham tapado, nem quem o havia feito, mas agradecera-lhe em silêncio muitas vezes há muitos anos atrás quando era ainda miúdo. Aquele pedaço redondo de granito negro encimado pela tal laje da mesma rocha metamórfica, simplesmente arrepiava-lhe o espinhaço de uma maneira que até fazia impressão. Lembra-se bem disso. Lembra-se de ir passar férias para aquela casa quando os avós ainda eram pessoas de saúde e de não conseguir estar perto do dito cujo sem sentir uma enorme vontade de fugir dali. E era o que fazia na maioria das vezes; das outras a presença do avô ou da avô por perto dava-lhe a segurança e a vergonha suficientes para não desatar a correr que nem um louco. Não se lembra todavia de ser repreendido por esse terror que agora achava um perfeito e completo disparate, mas lembra-se dos acidentes que aconteciam por vias do pânico: tropeções, despistes a alta velocidade, quedas aparatosas, jarros, copos, pratos partidos e uma certa vez até a própria cabeça. Que parvoíce, pensava agora rindo e abanando a cabeça. Porém, sem demasiado desdém. Aquele poço ainda exercia uma qualquer influência num nível muito abaixo da consciência; já não o aterrorizava, mas a sua presença impunha-lhe respeito e reverência. Trocara o puro terror pelo assolapado temor. Continuar a ler

O Aeronauta

O céu carregado de nuvens mais negras que o fundo do Universo tapavam qualquer claridade estelar. Um silêncio lúgubre apenas interrompido pelo marulhar de ondas fracas no recuar da maré. Havia uma tensão indescritível no ar. Não era tempestade nem calmaria, mas uma mistura estranha das duas. O Náufrago dormia profundamente o costumeiro sono sem sonhos. Preferia assim do que sonhar, como aconteceu durante mais tempo do que desejava, com aquele dia em que viu a sua Escuna desaparecer na linha do horizonte.

Subitamente um estranho e profundo guincho trouxe o Náufrago de volta à realidade. Teria ouvido o guincho dentro do reino escuro de um Morfeu no exílio ou seria mesmo um guincho real largado por alguma hedionda criatura? Ainda lhe pareceu ouvir um som abafado de queda não muito distante, mas não sabia se tinha sido antes ou depois do guincho. O limbo do sono era um local confuso para os sentidos. Devia ter sido um grito dele próprio, sim, talvez fosse isso. Conhecia aquela pequena ilha como a palma da própria mão e sabia que não havia nenhuma criatura entre as andorinhas-do-mar, gaivotas, caranguejos e insectos vários capaz de soltar tal grito. De manhã, quando o sol nascesse, tiraria a história a limpo. Tivesse isto acontecido há anos atrás, quando deu à costa nesta ilhota, quando ainda era o orgulhoso Capitão, e prontamente se levantaria, arranjaria algum tipo de arma, improvisaria iluminação e partiria em busca do terrível Monstro do Grito Hediondo. Por agora ficaria à escuta, mas queria adormecer mais que tudo. Enterrou-se ainda mais na areia que fazia de chão da sua cabana. No seu íntimo sabia que a partir de amanhã nada seria igual, mas sem perceber muito bem porquê. Temia o dia seguinte ao mesmo tempo que agradecia de antemão aos céus o abanão que a sua realidade talvez levaria.

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A Reeleição e o Presidente Honesto

O dia da eleição chegou. A população exultava; votar era giro. Como se não bastasse ser um domingo, o dia do pavoneio por excelência, ainda estava um radioso dia de sol. Era tudo brilho e glamour: a melhores peles sintéticas saíram finalmente do armário para fazer companhia às melhores gravatas, aos melhores lenços, aos melhores blazers, aos melhores chapéus e à melhor maquilhagem que o mercado oriental conseguia proporcionar. Cortesias diversas e exageradas eram distribuídas a quem nem sequer um olhar merecia numa terça-feira comum, Boa tarde, como está sôtor?, Muito bem, obrigado senhor engenheiro, e essa saúdinha como vai?, Mas que fabulosa écharpe, minha cara, está esplendorosa, já votou? Oh, mas é claro que sim, minha querida, desde os 18 anos que nem penso noutra coisa, sabe?

As atenções, claro está, viravam-se para o Presidente. Lentes de câmaras de filmar e de fotografar seguiam-no como apóstolos seguiam o Cristo, e uma boa fatia dos membros mais destacados da comunidade, a fatia dos que efectivamente podiam exercer o direito de voto, esperou horas a fio que o Presidente se abeirasse da assembleia de voto. Todos queriam cumprimentá-lo e desejar-lhe uma boa mais que provável reeleição. Nunca um país tinha visto um Presidente como aquele e ninguém queria deixar de o ver: inspirador, culto, sério, simpático e acima de tudo bem parecido. O melhor Presidente do Mundo, portanto.

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O Génio do Tecto

Aquilo saiu do tecto como se se tratasse de uma bolha enorme. Caiu no chão e depressa adquiriu uma distinta forma humanóide. Eu estava atónito, colado às costas da cadeira, boquiaberto. Aquilo dirigiu-se a mim pavoneando-se qual Travolta em miniatura. «Porquê essa cara de espanto? Não sabes quem eu sou?» perguntou-me. Não fui capaz de devolver qualquer resposta inteligível.

De um salto sentou-se na minha secretária e começou a enrolar um cigarro dos meus. Acendeu-o e finalmente consegui abandonar os monossílabos: «Não, não sei quem és, nem muito menos o que és. E não podes fumar aqui, desculpa». «Claro que não sabes. Nunca ouves o que te digo. Ou melhor, ouves mas não escutas. Tens um ouvido sensível mas uma cabeça muito dura. Mas passemos às apresentações: eu sou tu. Fecha a boca pá. Até parece que não estavas à espera disto. ‘Tás a ver o consciente e o subconsciente? Pois eu não sou uma coisa nem outra. Sou uma espécie de secretário que tem acesso às outras partes mas o meu trabalho não tem a ver com nenhuma das duas especificamente. Sou o que poderias chamar Gestor do Departamento Criativo. Sou eu que faço as tuas piadas soarem melhor, sou eu que crio a faísca de uma história: aquele momento em que tu pensas “caraças, isto dava uma coisa engraçada”, até sou eu que te obrigo a aprenderes mais sobre aquela treta das casas em 3D ou lá o que é. Sou sempre eu, sempre fui, e quando não me deixas intervir – parecendo que não só tu me podes dar autorização para entrar em cena – sai-te tudo mal. Por isso é que estou aqui», claro que apesar da minha advertência continuava a fumar e a atirar a cinza para o chão. Acendeu outro cigarro e continuou sustendo o fumo «‘Tou aqui porque tu és um burro que dás dó. Não é para me gabar, mas entre os gajos da minha espécie sou dos mais porreiros que se consegue arranjar, mas tens que me ajudar, pá. Se não sabes falar comigo e ao mesmo tempo não me ouves estamos lixados. Eu porque desperdicei um turno sem criar nada decente e tu porque desperdiçaste um bom Génio, percebes?»

«Acho que sim», respondi, «É isso que tu és, um génio? Pensava que concediam desejos e não que… Que faziam o que dizes que fazes» Riu-se a bom rir. «E não é a mesma coisa, meu paspalho? Se o teu desejo é escrever histórias eu ajudo-te, trago-te ideias, mostro-te caminhos, digo-te se fica melhor assim ou assado. Se quisesses vender carros ou fazer bolos fazia exactamente o mesmo: ajudava-te. Claro que também tenho os meus dia ‘não’, mas regra geral compenso com os dias ‘sim’, só tens de conseguir falar comigo, perceber como funciona esta coisa toda, e eu não te posso explicar isso porque faz parte do teu processo de construção», «Mas se estás aqui a falar comigo é porque alguma coisa hei-de perceber sobre comunicação com Génios, não?», disse-lhe eu, convicto de ter apanhado a criatura em contra-pé. «Eu não digo?» continuou, indignado, «És burro como o raio que te parta! Eu não estou aqui porque tu queres que eu esteja, ou porque percebes alguma coisa de falar com Génios. Eu estou aqui para te puxar as orelhas porque eu quero.  Eu estou aqui porque quebrei todas as regras para te dizer que tens que te esforçar mais, que nenhum dos dois conseguirá nada sozinho, porque a bem da verdade acredito em ti. Mas não é só isso, ainda há mais. Tu achas que sabes como tudo funciona. Olhas muito para o infinito mas não o vês! Dizes que gostas muito do fantástico e não sei quê mas enquanto o tratares como fantástico não verás a realidade que existe nele. Tu mesmo o disseste no outro dia sem perceber a dimensão das tuas próprias palavras: “o que é a realidade se não a coisa mais subjectiva do mundo?”»

O quarto cigarro apagou-se e começou a ser sugado para cima, de volta ao buraco que deixou no tecto. «Bom, ‘tou no ir. Já te disse o que tinha a dizer. Ou te orientas ou ‘tás lixado. ‘Tamos lixados, vá. E vê se percebes que não estou a falar de boémia e mulheres, estou a falar da coisa mais importante do universo: nós!» e como se um aspirador industrial o sugasse, ele lá foi, o meu Génio, ou seja lá o que for que me cravou quatro cigarros e me deixou o escritório que nem um salão de bilhar do século XIX.

Olghoi-Khorkhoi, o Temível Verme

Não sabe qual é o seu propósito no mundo. A bem da verdade nem sequer sabe o significado da palavra “propósito”. Sabe fazer o que sabe fazer e é muito pouco, mas a verdade é que o pouco que faz fá-lo como ninguém. Acorda de tempos em tempos, sem sequer perceber porquê, deambula pelo seu vasto domínio e enche a pança até cair no profundo sono sem sonhos, um sono que por vezes demora séculos, mas para ela, a verdadeira Senhora das Areias, sabe-lhe sempre a pouco. Acorda sempre a custo, sempre mais sonolenta do que queria; como agora. Estica o seu possante corpo alongando ao máximo do seu comprimento. Sente as vértebras a estalar, sente cada músculo ligado a cada tendão dando sinal de presença. No instante que antecede o total relaxamento muscular solta um rugido inominável que ninguém ouvirá: Olghoi-Khorkhoi em todo o seu esplendor. Tanta magnificência insuspeita debaixo daquelas areias! Soubessem os homens o que verdadeiramente se oculta debaixo da superfície e de tempos a tempos fariam romarias para apreciar o prodigioso acordar da besta. Depois sofreriam uma morte violenta, sem dúvida, mas o preço a pagar pelo vislumbre de tamanha grandeza nunca poderia ser baixo.

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O Sentido (reprise)

Pensou no nome dela durante dias a fio. Imaginou cada letra a ser desenhada lentamente, como se uma pena invisível e incomensurável fizesse nascer cada letra a partir do vazio, e tão devagar que poder-se-ia dizer que mundos infinitos eram criados a cada nova linha traçada. Pensou tanto tempo no nome dela que a própria palavra deixou de fazer sentido. Sentiu-se aliviado. Depois decidiu fazer o mesmo com outras palavras. Percorreu mentalmente todo o dicionário. Não satisfeito, passou para as palavras dos calões e dos vernáculos, para as línguas estrangeiras que conhecia e para algumas que desconhecia. Chamavam-lhe louco e ele sorria. Continuou, atarefadíssimo a sua cruzada. Abarcou, uma por uma, todas as palavras do Mundo e lentamente fez com que perdessem o sentido, o significado, a essência. Sem isso, as palavras tornaram-se nada mais que amontoados aleatórios de letras e sinais. Deixou para o fim o seu próprio nome. Depois disso esperava sentir-se feliz, limpo, purificado, purgado e divinalmente expiado. Poderia morrer em paz. Porém nada disso aconteceu e foi tomado por uma angústia pesada como o Universo. Faltava alguma coisa. Sim. Esquecera-se da palavra mais importante de todas. Esquecera-se da palavra que comanda a vida. Esquecera-se da Morte. E foi assim, já sem nome, sem memória, sem sentimentos, sem nada, que ao chegar à letra ‘e’ os seus olhos se fecharam e o seu coração lentamente desacelerou e parou. Assim mesmo, finalmente feliz, limpo, purificado, purgado e divinalmente expiado.

N. do A.: Este miniconto foi publicado pela primeira vez no dia 21 de Julho de 2008 no Egosciente primordial. Achei por bem, porque serve de alguma forma a carapuça, trazê-lo para aqui, para junto dos seus irmão mais novos.

O Pentagrama e a Queda de Khalant

Na igreja de S. Pedro, que coroa a elevação do castelo de Arraiolos, existe um estranho marco em pedra aparentada com granito ostentando um pentagrama em alto relevo. O modo como a dita pedra está colocada sugere a existência de um túmulo, coisa que não existe, segundo as pesquisas arqueológicas na área, e que não foram poucas. O porquê da existência de um símbolo pagão na parede de um templo cristão foi algo que sempre me intrigou. Procurei durante muito tempo uma explicação para a existência de tal objecto e nunca obtive qualquer pista satisfatória. Gente douta no assunto limitava-se a encolher os ombros e a discorrer sobre os diversos povoados que ali tinham existido, sobre o templo romano que a cristã igreja fora outrora, mas nada concreto, nada factual sobre o estranho marco.

Aconteceu que tropecei quase literalmente em algo que, além de explicar a existência do enigmático pentagrama, me abriu as portas para um mundo de verdadeiro assombro. Acreditando, claro, que o livro que tenho entre mãos seja de facto um relato de acontecimentos reais e não algo saído de uma laboriosa imaginação. Em favor do realismo do livro abona a referência ao já citado símbolo, bem como uma série de outros factos, localizações e datas que me serviram de guia no desvendar deste mistério. O livro chama-se O Fim dos Tempos e a Aurora do Homem e supostamente é uma colectânea de vários registos de épocas há muito desaparecidas da memória da Humanidade. Será quase escusado dizer que encontrei esse livro num alfarrabista, uma edição de 1852, editada e revista por um individuo chamado Thomas M. Gebber.

Não é demais ressalvar o possível carácter fantasioso do que irá ler daqui para frente. Relembro que tirei todas as informações e demais citações transcritas de um livro bem real; todavia não posso de forma alguma assegurar que o que está escrito no dito livro tenha realmente acontecido. E, mesmo correndo o risco de passar por tolinho de rua, penso que a natureza peculiar dos relatos faz com que mereçam ver a luz do dia, pois não acredito que a chama da imaginação tenha sumido totalmente do espírito dos homens.

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A Rapariga do Cabelo Estranho

A menina apertou as mãos contra o peito e não conteve um esboço de sorriso que ninguém viu. A mãe, assustada, escondeu-a atrás das costas, consciente da inutilidade daquele acto. Já se ouviam os passos sincronizados, uma tenebrosa marcha vinda da penumbrenta álea de velhos eucaliptos plantados por alguém já caído no oblívio. A turba aproximava-se furiosa. Vinham pela menina e sabe Deus o que lhe fariam aquelas gentes rudes e ígnaras do campo.

Mãe e filha tinham ido viver para aquela quinta decrépita quase no fim do mundo civilizado à procura de alguma privacidade, para passarem ambas despercebidas, para não acontecer precisamente o que estava a acontecer agora. Algo tinha corrido incrivelmente mal. Aparentemente não havia nada errado com aquela pequena criatura que a progenitora protegia. Era bonita, como qualquer criança de 5 anos cuja genealogia havia sido generosa em beleza. O primeiro arrepio vinha quando se lhe olhava bem nos olhos. Uns olhos verde-mar plenos de meiguice escondiam no seu âmago uma inteligência profunda, tão profunda como as raízes daqueles eucaliptos, uma inteligência que não podia ser quantificada nem descrita. Porém, o verdadeiro susto vinha quando tirava o lenço que lhe cobria a cabeça durante o dia. O seu cabelo, curto mas feminino, liso e sedoso, era branco como a neve. Tinha nascido assim e assim tinha ficado sempre, por mais mézinhas e receitas que fossem usadas para lhe ocultar tamanha deformidade. Todavia não era só o aspecto exótico da criança. Circulavam também inúmeros boatos sobre acontecimentos estranhos nas imediações da quinta, luzes, gritos, dizia-se até que tinham visto a pequena a desmembrar uma ovelha que havia aparecido morta. Soube-se depois que andava uma alcateia faminta nas redondezas mas nem isso apagou as suspeitas de que se passava algo muito estranho com aquela menina.

Tudo se precipitou numa solarenga manhã de Janeiro. A menina tinha ido brincar junto de um pequeno lago congelado perto da sua quinta com o cão Julião, o seu maior amigo. O que verdadeiramente aconteceu no lago é um mistério, mas deu-se que a menina chegou a casa completamente encharcada e com o Julião, também ele encharcado em água gelada, morto ao colo. Nesse mesmo momento um grupo de rapazes entrou a correr na aldeia em pânico, aos gritos, balbuciando coisas como “ela matou o Jaime”. Daí até encontrarem o corpo congelado do Jaime e juntarem uma mole linchadora foi um instante.

E lá estava a mãe a proteger a sua cria de uma aldeia ansiosa por ver o sangue do seu sangue correr pela álea de eucaliptos. “Vai tudo correr bem, não saias daqui”, disse por entre soluços nervosos. “Claro que vai mãe, claro que vai” respondeu a pequena. A mãe não podia saber, mas a filha imaginou o primeiro homem da massa humana furibunda a explodir em chamas, os olhos a derreterem, os membros a desfazerem-se e a cair em cinzas incandescentes. Depois imaginou o mesmo para o segundo e para o terceiro. Depois imaginou uma onda de fogo que se levantava de uma lanterna e os engolia a todos. Imaginou eucaliptos a cair e a alimentar a fogueira. Sombras em agonia num mar de labaredas dançantes.

A mãe, petrificada, com as mãos afastando da cara o calor abrasador, não podia acreditar no que os seus olhos viam.

Do Outro Lado da Cortina – Um Testemunho

Podia jurar que dormitei apenas por uns segundos em frente ao computador. Durante esse tempo a minha alma decerto se tresmalhou, ou aconteceu outra coisa qualquer que ultrapassa grandemente a minha compreensão e mesmo a minha imaginação. Acordei, olhei para o monitor e o meu coração parou. Onde dantes estava um extenso texto sobre as propriedades piezoeléctricas do mineral quartzo estava agora outra coisa completamente diferente. Não sei o que verdadeiramente se passou, arrepiam-me até ao tutano a diversas possibilidades, mas não posso deixar de reproduzir o texto que escrevi enquanto não era eu.

* * *

Não me lembro de como aconteceu tal como nunca nos lembramos de como começa um sonho. De repente estamos ali, assim como eu estou aqui, nus perante o Universo. E estou mesmo aqui em pelota, ainda que ninguém me veja, oiça ou cheire. Apenas espírito e intelecto.

Agora tudo me parece mais vivo, os cheiros, os sons, as cores, as pessoas, o Mundo, tudo vibra de energia pulsante, vejo-o nitidamente. Uma coisa que em vida, seria apenas uma ideia, uma teoria, uma reflexão sobre a unicidade de todo o Universo, sobre como tudo é composto pelos mesmos blocos de construção, é agora um facto inegável. Mesmo para um vulgar mortal não será algo fora do alcance da sua compreensão, o facto de eu agora finalmente VER. Ora, se sou algo invisível é porque estou num estado energético fora do espectro da luz visível, e assim sendo todos os meus sentidos têm também acesso a espectros físicos e químicos que antes me estavam vedados. É uma teoria que desenvolvi quando percebi onde estava, já que deste lado não há nenhum Morgan Freeman para nos explicar como funciona isto. Porquê o Morgan Freeman? Não sei, talvez pelo seu ar professoral, talvez por parecer mais velho que o Mundo. Bem, dizia que não há nada nem ninguém que nos explique o funcionamento das coisas deste lado. É cada um por si.

Primeiro os sentidos ofuscam-nos e confundem-se – chegamos a saborear as cores e a ver o chilrear da passarada -, depois habituamos-nos a esse bombardeio caótico e subitamente tudo fica calmo e silencioso. O espírito adapta-se. Depois surgem algumas recordações desconexas de vidas passadas e de repente sabemos onde estamos e o que somos. O que fazemos daí para a frente depende de cada um. Uns não aceitam, outros revoltam-se; há os que tentam negociar um possível regresso junto de outros espíritos mais velhos e trapaceiros; ainda há os que passarão a eternidade a chorar o que perderam e depois há os que como eu aceitam o que lhes aconteceu como uma inevitabilidade. Lembro-me, ainda era eu uma criatura corpórea, do meu pragmatismo em relação à morte, Lembro-me de nunca conseguir chorar sinceramente em funerais, mesmo das pessoas mais próximas e lembro-me do que dizia ou pensava cada vez que alguém me morria: se nasceu, a morte seria apenas uma questão de tempo.

As cores que nunca tinha visto! Há cores que os vivos nem sonham que existem. Mas como podem eles saber como é uma cor que os seus olhos não podem ver? Nem sequer há palavras que lhes possam fazer justiça. Fosse eu Shakespeare, Hemingway, Pessoa ou Camões e decerto me veria à rasca se tentasse descrevê-las. Sendo apenas eu, nem sequer tento. E os sons? Sabiam que as almas humanas, mesmo as vivas, sobretudo as vivas, cantarolam enquanto se passeiam pelo Mundo? E não cantarolam só Mozart ou Beethoven, conhecidos bardos dos deuses, não senhor. Cantarolam aquilo que lhes remexe o fundo do seu poço reflectindo o estado de espírito do… bem, o estado de espírito do espírito. Podemos ver, se estivermos bem mortos claro, um executivo superiormente vestido, de olhar penetrante, cuja alma assobia uma conhecida música popular no meu tempo de vivo, plena de brejeirice e mau gosto. Ou um filósofo, um homem de alto gabarito intelectual, todo aperaltado diante de uma plateia de estudantes, com algo dentro dele grunhindo sonoramente versos de uma música de heavy metal dedicada ao culto a Lúcifer.

No mundo das coisas vivas nada, mas nada mesmo, é o que parece.

Estou morto e irei continuar assim até que os insondáveis mecanismos que controlam este esquema universal de vida/morte decidam que já não pertenço aqui. Entretanto, não tenho quaisquer ilusões respeitantes a este estado de graça em que estou. Acredito que esta plenitude, esta paz, passe gradualmente porque nada dura para sempre e é bem sabido que o espírito humano é um eterno insatisfeito. O que restará a uma alma que já viu todas as cores, ouviu todos os sons, sentiu todas as texturas, cheirou todos os cheiros e saboreou todos os paladares?

Já a sinto agora a subir-me sub-repticiamente ao coração. A insaciedade.

Mas por enquanto, estar morto não é assim tão mau.

* * *

Nota: ilustração a cargo de Francisco Goya. É clicar para apreciar

De Sombras e Freud, o Sigmundo

A Sombra agarra-me enquanto caminho. Faz-me tropeçar e cair. Ri-se de mim, a puta. De joelhos e mãos no chão esforço-me por me lembrar que essa Sombra não existe. É a sombra de uma Ilusão – a ilusão que eras Tu – e assim sendo, como nada nasce de coisa nenhuma, a Sombra, a terrível Sombra, não existe. Sou eu que tropeço em mim mesmo. Suspiro e levanto-me.

Por vezes é ainda mais cruel, a Sombra. Chega a meter-se no meio dos lençóis para me assustar quando acordo. Pior mesmo é quando me agarra pelo pescoço contra uma parede e transforma as negrentas mandíbulas no Teu sorriso. O TEU SORRISO. O teu brilhante sorriso, o nosso brilhante sorriso, o sorriso que também era meu. Mal posso suportar o tormento, mesmo depois de tudo. Mesmo sabendo que a dita cuja sombra não existe e que a mão que me segura contra a parede é a minha.

Recomponho-me. Ajeito a roupa e os óculos, coço a barba e acendo um cigarro tremendo. Como se tivesse sobrevivido a um aparatoso acidente. Olho para o chão e sigo em frente, passos lentos mas firmes, com a plena consciência que poderei sempre fugir de Ti, mas nunca, nunca, de Mim.

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