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O Poder dos Livros

Apercebo-me agora que não leio um livro aí há uns seis meses. Ler, tipo, com vontade, esfrangalhá-lo todo com tanta força que até algumas das letras ficam sumidinhas. Seis meses. Foda-se. Estou quase curado. Foi a pensar na recaída que saquei sem pingo de vergonha todos os e-books do Stephen King. Para começar devagarinho.

Elevando (pouco) o nível intelectual com Philip Roth

“Quando me porto mal, ela põe-me fora do apartamento. Eu fico à porta a bater, a bater, até jurar que estou disposto a mudar de vida. Mas o que foi que eu fiz? Todos os dias engraxo os meus sapatos com uma folha de jornal da véspera a proteger cuidadosamente o linóleo; a seguir nunca me esqueço de tapar com firmeza a tampa da lata da graxa nem de pôr todo o equipamento no seu devido lugar. Espremo a pasta de dentes a partir da extremidade, escovo os dentes em círculos e nunca para cima e para baixo, digo «Obrigado», digo «Não tem de quê», digo «Com licença» e «Se faz favor». Quando a Hannah está doente ou tem de sair antes do jantar com a sua lata azul para participar no peditório do Fundo Nacional Judaico, ponho a mesa voluntariamente e fora da minha vez, lembrando-me sempre que a faca e a colher são à direita, o garfo à esquerda, e o guardanapo à esquerda do garfo e dobrado em triângulo. Nunca seria capaz de comer milchiks de um prato flaishedigeh, nunca, nunca, nunca. E, no entanto, há pouco mais ou menos um ano que não passa um mês sem fazer algo tão imperdoável que me mandam fazer as malas e sair. Mas o que poderá ser? Mãe, sou eu, o rapazinho que passa noites inteiras, antes de começar a escola, a desenhar a letra gótica os nomes das disciplinas nos separadores coloridos das pastas, que cola pacientemente argolas de reforço numa quantidade de papel de dossier suficiente para três meses, tanto pautado como sem linhas. Trago comigo um pente e um lenço lavado; tenho o cuidado de nunca trazer as meias a cair pelas pernas abaixo; faço os trabalhos de casa com meses de antecedência – tens de admitir, mamã, que sou o rapaz mais esperto e mais aprumado de toda a história da minha escola. As professoras (como tu bem sabes, como elas já te disseram) voltam felizes para casa, para a companhia dos maridos, graças a mim. Portanto, o que foi o que eu fiz? Levante-se, por favor, quem souber a resposta a esta pergunta! Eu sou tão detestável que ela não me quer lá em casa nem mais um minuto. Quando uma vez chamei à minha irmã parvalhona peneirenta, lavaram-me imediatamente a boca com um bocado de sabão azul e branco; isso eu ainda compreendia. Mas o ostracismo? O que é que eu terei feito de tão terrível?”

 - Philip Roth, in O Complexo de Portnoy

De pretensões em construção

Um dos passos mais importantes para me balançar a favor do blog e demais devaneios literários é sem dúvida ler mais. Trocar as séries e os filmes e a vegetatividade televisiva e internáutica por livros, histórias escritas por mãos de gente, palavras, frases inteiras saídas de mentes ligeira ou grandemente delirantes, dependendo dos casos. Isso sintoniza-me de alguma forma com as humildes pretensões literárias que alimento – uma vez ao dia, ração de pão de centeio e água da chuva, para não engordarem. Não que me apeteça escrever assim que acabo um livro, mas lembrar-me que há quem escreva coisas interessantes neste mundo dá-me algum apoio, um parco suporte para o mirrado ego: “pá, estes gajos começaram pelo mesmo sítio que tu. Com calma, estupidez natural e principalmente muita dedicação, também hás-de escrever qualquer coisa decente… Um dia, quem sabe… Talvez… Assim muito talvez, mas aumentas as probabilidades com treino. Muito treino, jovem Padawan”.

Terminei ontem o Mister Vertigo do Paul Auster. Correndo o risco de parecer mais um energúmeno crítico literário de fim de semana fico-me mesmo pela declaração: a história é fixe e tal. Mas cada vez ligo menos à história. Procuro outras coisas naquela selva enorme e confusa. Procuro palavras. Procuro expressões. Procuro ritmos. Procuro as construções frásicas que fazem o leitor acelerar o passo e as outras que o fazem abrandar. Procuro os twists & turns no enredo e chego a reflectir por um segundo ou dois de que forma poderiam ser mais eficazes. Depois reflicto por mais um ou dois segundos sobre as historietas que tenho em banho-maria e de que forma essas ferramentas ainda desajeitadas que peço emprestadas me podem ajudar. Ando agora em franco processo de construção depois de um interregno demasiado arrastado e como aqui o bloguito é o meu estaleiro de eleição, mais tarde ou mais cedo vão começar a aparecer coisas. Ou não. Ou talvez isto seja apenas a confissão de desejos por cumprir. É esperar para ver. Mas numa de continuar esta formação e aproveitando recursos discutivelmente bem ganhos adquiri a título definitivo algumas peças de prateleira:

       

Não sei se serão bons ou maus, tal e qual o plantel do Sporting para a próxima época, mas na verdade não se pode esperar muito mal, nada mal mesmo, de cada um deles. Um Auster que ainda não me falhou, apesar da capa best-seller style (simulando um vómito), seguido de um clássico contemporâneo, de um sempre fabuloso Saramago e de uma novidade que é um verdadeiro colosso da ficção científica. Poderão ser uma porcaria, cada um deles à sua maneira, mas aposto que cada um deles à sua maneira me vai ensinar qualquer coisa por insignificante que seja. Porque no fundo é isso que os livros fazem: ensinam.

Entreténs

Não que lhe interesse particularmente este tipo de informação, mas sabe como é o português: gosta de pensar que aquilo que lê e vê é do melhor que há e que todos deveriam seguir o seu exemplo. E eu, como bom português nascido a 7 quilométricos pentelhos de uma nação que, sim senhor, se sabe governar, não quero que essa característica tão lusitana saia de moda.

Na mesa de cabeceira

Li apenas umas páginas e todavia o génio de Auster impregna aquilo de uma tal forma que só parei de ler por cansaço extremo. O livro começa com a frase “Tinha treze anos quando voei pela primeira vez” – ou qualquer coisa do género. Já se pode ver o tom da coisa. O imaginário cultural americano onde Auster bebe que nem um Tom Waits sedento muito bem temperado com um je ne sais quoi de misticismo jorgeluísborgiano. Pelo menos é o que dá para ver daqui. No caso de haver alterações nesta análise preliminar, e que se justifiquem, volto a falar neste Mr. Vertigo. Para já, para já, é uma grande história contada por quem sabe da poda.

No ecrã aos pés da cama

Não será a série das séries mas que raios me partam se não é das melhores. Grandes doses de ficção científica num tom que agradaria certamente a Poe, Lovecraft ou Shelley. Se não for dado à leitura explico assim: Fringe é Ficheiros Secretos em bem melhor, sem acontecimentos inexplicáveis nem Scullys aborrecidas nem Mulders demasiado excitados com luzes no céu. As boas personagens e respectivos actores também ajudam bastante. Não me vou alongar mais que isto: se não viu veja, e se não gostar diga-me que eu não me importo de lhe dar um estalo na cara.

Na Mesa de Cabeceira Com… Borges

Nove ou dez homens, que já estão mortos, viram o que os meus olhos viram – a larga estocada no corpo e o corpo debaixo do céu -, mas o que viram foi o fim de outra história mais antiga. Maneco Uriarte não matou Duncan: as armas, e não os homens, lutaram. Tinham dormido lado a lado, numa vitrina, até que as mãos as despertaram. Possivelmente agitaram-se ao despertar. Por isso tremeu o punho de Uriarte, por isso tremeu o punho de Duncan. As duas sabiam lutar – não os homens, os seus instrumentos – e lutaram bem essa noite. Haviam-se procurado longamente por esses largos caminhos da província e por fim encontraram-se, quando os seus donos já estavam reduzidos a pó. No seu ferro dormia e espreitava um rancor humano.

Jorge Luís Borges, O Encontro, Relatório de Brodie

Stephen King não dá só calafrios

Até prova do contrário este é o melhor “manual” de escrita criativa que já vi. Lê-se de um fôlego e foi feito por quem ainda não esqueceu como é escrever histórias pelo simples prazer de criar. Nada de grandes tecnicismos, muito pelo contrário: simples conselhos, como evitar as secas narrativas, como usar advérbios, como fazer diálogos, como usar o parágrafo de forma interessante e, acima de tudo, como apanhar ideias do éter e assumir que a maioria delas, mesmo as mais estapafúrdias, davam boas histórias quando exploradas devidamente. Mostra também algo muito importante na formação de um escritor: o caminho percorrido até ao reconhecimento. Alguns episódios da vida do autor que no seu entender contribuíram para aquilo que ele é hoje. Se está a ler isto e tem algumas aspirações, por mais humildes que sejam, a tornar-se autor (a) de alguma forma de escrita, tem obrigatoriamente que ler o Escrever (em português) de Stephen King. Na verdade, grande parte dos conselhos ali presentes já faziam parte da minha “caixa de ferramentas”, como ele lhe chama, outros já lá estavam mas estavam escondidos na gaveta errada e outros ainda que não fazia ideia que existiam. Seja como for, percebe-se que Stephen King está perfeitamente sintonizado com os receios e ansiedades de um proto-escritor. Essa aparente proximidade intelectual é impagável.

Já tinha adquirido dois manuais – esses sim assumidamente “manuais” – de escrita criativa de Luís Carmelo, que continuo a aconselhar. No entanto, a maneira como Stephen King escreve apaixonadamente sobre escrita, e no entanto sem assombrações de qualquer género, o que no caso de King é de estranhar, faz-me não só aconselhar o Escrever mas também obrigar que qualquer aspirante a escritor o leia. Se for preciso dou puxões de orelhas ao domicílio.

Excerto:

Tal como a voz passiva [os advérbios], parecem ter sido criados tendo em atenção o escritor tímido. Com a voz passiva, o escritor exprime usualmente o medo de não ser tomado a sério; é a voz dos rapazinhos com bigodes de graxa e das meninas a andarem pesadamente com os saltos altos da mãe.

Stephen King, Escrever

O que se passa na mesa de cabeceira

O deus dos sonhos foi aprisionado durante 60 anos numa redoma de vidro trancada por um selo arcano. Roubaram-lhe os seus preciosos artefactos e o mundo, sem perceber, caiu numa noite sem sonhos.  Mas ele é um dos Perpétuos. Ele pôde esperar. Agora, uma distracção dos comuns mortais quebrou o selo que o prendia. “Mister Sandman, give me a dream...” Ao mesmo tempo, o Comediante, um dos heróis que defendiam a Humanidade dela própria, foi misteriosamente atirado do sétimo andar do seu prédio. Não seria fácil atirar um homem tão corpulento pela janela. Não seria fácil sequer, para qualquer sacana de rua, entrar-lhe em casa sem ficar gravemente estropiado. Não muito longe dali, em Basin City, Marv acordou com o recentemente conhecido amor da sua vida assassinado ao seu lado. Decerto a vingança será sangrenta quando alguém ousa pisar o calo de Marv “The Beast”.

Eu também vi os filmes das duas últimas histórias, mas os quadradinhos são mágicos. Desde o tempo da Turma da Mónica e do Chico Bento que o são. Recomecei pela história de Morfeu, o Fazedor de Sonhos, e vou saltando pelos outros. Na calha está o John Constantine na sua Hellblazer. Tudo graças, não a uma pipa de massa que me caiu do céu, mas ao Comix, uma coisinha que torna a leitura de e-comics em algo suportável. Ah, e graças aos torrents, claro.

No meio disto o Lobito das Estepes está meio esquecido mas muito perto do fim. Sei que lá dentro estão as sementes de renascimento pessoal, e também as suas némesis, as sementes de destruição pessoal. Sei que aquilo toca almas de alguma forma. Estranhamente, passei pelo sofrimento do Lobo das Estepes quase sem pestanejar. Depois surgiu a alegria, com a morte do Lobo e o ressurgimento do Homem Harry Haller, e fiquei praticamente na mesma. Com certeza que há alturas ideais para se lerem certas coisas. Parece-me que o Lobo das Estepes falhou no timing, contra tudo o que seria de esperar. Infelizmente. É, no entanto, algo que merece a pena ser lido e relido, sem dúvida. Acho até que vou sentir-lhe a falta quando sair da mesa de cabeceira a caminho da prateleira da biblioteca municipal. Gosto de o ter ali. Gosto da ideia de ter aquela obra por perto.

Afinal… afinal, parece que me tocou de alguma forma.

Raios e coriscos!

Passava bem estes dias na Faculdade de Letras de Lisboa, no meio do tinto e das estrelas e dos dragões. Pede-se encarecidamente a alguém que grave esta merda toda e a youtubize assim para a malta que, tipo, não pode ir ver a cena lá no sítio e quê. Vá a ver, caraças.

Peixoto e os Pianos

Resolvi atirar-me ao Cemitério de Pianos do Zé Luís. Um dos meus conselheiros literários dizia-me encolhendo os ombros “Erh… Um borra botas levado ao colo”, entre outras coisas menos simpáticas. Percebo a sua aversão a Peixoto, eu também reajo assim quando vejo surgirem clássicos instantâneos a todo o momento, mas raramente sou tão irascível. Li uma grande parte do supracitado livro e uma coisa me incomodou logo de início, algo a que chamo artefactos de escrita: pequenos “defeitos” de pontuação, parágrafos aparentemente estranhos; com o aparente intuito de fazer sobressair o autor muito para além da narrativa – basta ver os diferentes tamanhos de lettring da capa para sabermos ao que vamos. Depois houve outra coisa que me fez deslizar por várias páginas sem dispensar qualquer tipo de atenção: a especificidade da descrição dos sentimentos, percepções e reflexões das duas personagens principais, especialmente o Francisco. Ou seja, pouca acção, muita conversa.

No final percebi que o que me estava a afectar não era aquele livro, nem o próprio Peixoto, era apenas a Poesia. Explico. Eu sou um gajo de Prosa; narração, descrição, diálogo, sou um perdido por essas merdas. Já a Poesia é como a música clássica, reconheço o valor, mas não ligo pevas.

Ora, a ver pelo Cemitério de Pianos, Peixoto é demasiado Poeta para fazer Prosa. Ou seja, demasiado Poeta para ter lugar na minha prateleira. Mas não é por isso que deixará de ser lido pontualmente.

Agora vou passar para Beckett, assim uma coisa mais levezinha, ou Cortázar se o gajo que o surripiou da Biblioteca já o tiver devolvido à proveniência.

Actualização: Nem Samuel, nem Júlio. Escolhi Herman, o Hesse, esse Herman e a história de um abominável misantropo que se autodenomina Lobo das Estepes. Nunca li e estou farto que mo sugiram. Ele aí está. Agora vamos ver.

Das 9 às 5.

Li há uns anos uma entrevista a Nick Cave aquando uma visita que fez a este rectângulozito campestre. Dizia, entre outras coisas, que não conseguia trabalhar em casa, que havia muitas distracções, que não conseguia atingir o nível de alienação – ou concentração, se preferir – que lhe permitisse escrever ou compor o que queria como queria. Dizia basicamente que a sua autodisciplina era uma merda. Então tomou medidas extremas: arrendou um pequeno escritório a uns quarteirões da sua casa. Saía para a rua todos os dias, de segunda a sexta, às 8.30 da manhã, percorria o caminho todo a pé e entrava no escritório precisamente às 9 horas de café em punho. Depois fazia o que achasse necessário para se inspirar, desde ouvir música a dormir. Havia vezes em que a simples caminhada casa-trabalho era o suficiente para um dia de escrita ou composição desenfreada.

Nada de escritor insone, atormentado, deprimido, como parece ser; nada de compositor louco, diabólico, etílico, como se diz que é. Nada disso. É tão simples que assusta. Como se Nick Cave, a verdadeira bad seed, fosse um simples funcionário público, das nove às cinco, não levando trabalho para casa, controlando o melhor possível o intrincado processo criativo domesticando-o absolutamente.

Não sei se é coisa só ao alcance de alguns, mas quando for grande quero ser assim também.

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