A Velha Zélia

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A velha Zélia, para quem não sabe, é uma daquelas personagens que povoam todas as cidades. Há sempre pelo menos uma. Até acho que é obrigatório haver gente assim em todas as terras. Velhos loucos. Velhos loucos, barbudos e desgrenhados que pedem dinheiro ou cigarros a quem passa, que cravam cervejas ou bolos de arroz sempre no mesmo sítio, que são atazanados pelas crianças e fotografados pelos turistas. É assim a velha Zélia. A velha Zélia foi-me apresentada por ela própria na esplanada do Flôr de S. Bento, ou lá o que era.

Um croissant misto aquecido e uma garrafa de Ucal partilhavam a minha mesa com uma imensa dose de fome matinal. Vejo a personagem dirigir-se à esplanada: um centenário fato azul bebé (outrora, acredito, com muito bom aspecto), chapéu daqueles tipo gorro à anos vinte verde alface e no meio dos dois uma carantonha de loucura e tristeza. Vislumbrei o pedinte que havia nela. Não me preocupei, ainda tinha o troco do pequeno almoço em cima da mesa (um euro e pouco) e no mesmo instante destinei-o à figura desgrenhada que se me dirigia. “Ó Zélia, foda-se, toda bonita hoje, ein?” – aventou alguém atrás de mim. Zélia. Pelo menos temos um nome. Aproxima-se primeiro de um casal de escandinavos: “Ó muore, mónei?”, eles, muito educados pedem desculpa, que não têm, ou que não percebem. Zélia, indiferente às desculpas, roda sobre os calcanhares a 360º e fita-os outra vez. Acto contínuo, dirige-se a mim. “Ó muore, um cigarrette“, eu, apanhado em contrapé pela mudança do pedido e com a boca cheia de um delicioso bolo alimentar, não consegui responder a tempo de evitar a mesma dança dos 360º. Só então percebi o verdadeiro propósito de tão estranho comportamento: um peido. Um monumental peido que me rebentou mesmo em cheio na cara, e não fossem os felídeos reflexos que possuo, tinha apanhado com os inomináveis vapores mesmo nas ventas. Felizmente, como já disse, consegui desviar a cara e colocar o sistema respiratório em alerta vermelho. Confesso que nenhum cheiro a couves, enxofre ou esgoto me atingiu, mas mesmo assim aquele lustroso croissant já não era o mesmo. E Zélia lá prosseguiu a sua missão com mais um alvo abatido e naquela esplanada não fui a única vítima. Ouviram-se “muores” e “móneis” e “cigarrettes” durante mais um ou dois minutos e depois o silêncio enquanto todos nos entreolhávamos com aquela expressão de “que raio foi isto?!”. Foi assim que conheci a velha Zélia.

Falo agora na Zélia porque o M.J.M. me lembrou dela. Ele que já a conhece há vinte anos e diz que sempre a conheceu assim e ainda pior. Agora pelos vistos anda no YouTube e eu não a consegui encontrar. Mas ainda assim satisfaz-me saber que a única pessoa que se peidou na minha cara ainda anda por aí a fazer das suas, a cravar os seus cigarros e os seus trocos e a bombardear quem lhe vira a cara. Já perdi a conta às vezes que me apeteceu fazer o que ela me fez – noutras circunstâncias e por outras razões, claro.

Imagem: Delacroix, Mulher Louca (1822)

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