Mineralogia para Pessoas Normais – Lição#2

tu273alx tu273b

A não ser que o caro leitor se manobre nos meandros da ourivesaria ou da mineralogia, decerto não terá ouvido falar em crisoberilo. Mas se lhe falar numa das suas parentes mais próximas, o Olho-de-gato, já uma ou outra campaínha poderá tilintar, certo? Calma. Um verdadeiro Olho-de-gato não se vende em lojinhas de bijuteria e quinquilharia da mesma espécie. Esses olhos-de-gato provêm de outros minerais menos nobres mas que, em certas variedades e com o polimento certo, têm ligeiras parecenças com um olho-de-gato “verdadeiro”, que, já agora, se chama cimofano – juro, não fui eu que o baptizei. Mas não é desse parente do aluminato de berílio (crisoberilo) que lhe venho falar. Venho falar-lhe, sim, da Alexandrite. Não confundir com uma possível infecção endémica de Alexandria ou que afecte particularmente pessoas com o nome Alexandre. Alexandrite é, digamos assim, o Cristiano Ronaldo da mineralogia. É muito raro e mesmo na sua condição de pedra estática faz truques de pasmar. Mas comecemos pelo princípio.

A história não é muito longa, mas é um bocado atabalhoada. Não se sabe quem descobriu o primeiro exemplar, só se conhece quem o catalogou e nomeou e, mesmo assim, a coisa está repleta de incongruências (*). A verdade – que terá sido mais ou menos assim – é que, algures nos Montes Urais em 1830 e tal, alguém achou um estranho cristal. Levou-o a alguém mais entendido na matéria que por sua vez o levou a um finlandês de nome Joaquim António… Perdão, Nils Gustaf Nordenkiöld, eminente geólogo e explorador ártico. “Argh, uma esmeralda manhosa“, deve ter pensado o pobre Nils quando lhe interromperam o sétimo vodca antes de almoço. No entanto, a elevada robustez do cristal que se lhe deparava colocou-lhe uma pulga atrás da orelha. Foi isso ou foi o cão sarnoso do taberneiro Svensson que sodomizava as pernas de toda a gente. Adiante. Nils chega a casa meio grogue, acende a velinha que iluminava o alvo da lupa e – “Eh lá! Querem ver que o vodca finalmente levou a melhor?! Ou não me digam que agoras as esmeraldas se transformam em rubis com um simples atravessar de rua!“. Louco? Bebêdo? Não. Chama-se pleocroísmo e designa a capacidade que certos minerais têm de reflectir e absorver diferentes comprimentos de onda conforme a origem dessa mesma onda. Assim, a Alexandrite – em honra do Czar Alexandre II – apresenta uma côr verde a verde-esmeralda quando exposta à luz do sol e uma cor vermelho vivo a violeta quando se muda para a luz incandescente. Tudo porque uma pequena quantidade de crómio se intrometeu na relação natural existente entre o alumínio  e o berílio constantes na formação do crisoberilo. E voilá! Uma pedra preciosa transformista. Uma esmeralda perfeitamente normal durante o dia e à noite um debochado rubi. Quem nunca conheceu ninguém assim que me atire a primeira alexandrite acima, se fizer favor. Fique também sabendo que uma migalhinha de 200 miligramas deste mineral pode chegar a custar 150.000 dólares americanos depois de talhada por um experiente ourives. Claro que em vez de ser cortada pode só pedir um simples polimento em cabochão e aí ficará com a tal transformista enfeitada com um bonito efeito olho-de-gato. Eu não disse que a alexandrite era o Cristiano Ronaldo da mineralogia?

(*) Uma dessas incongruências é a data da descoberta. Umas fontes dizem que Nils recebeu e nomeou a primeira alexandrite no dia 17 de Abril de 1834, mas a minha enciclopédia, por exemplo, diz que foi em 1842.  Vá-se lá perceber isto. O que é certo é que a alexandrite existe, caramba.

Nota: As fotografias acima são obra do já ilustre – pelo menos para mim – Kevin Ward. Previsivelmente, a fotografia da esquerda mostra os efeitos do sol, enquanto a da direita mostra os efeitos da luz incandescente sobre a mesma peça de alexandrite. O cristal tem apenas 1,2 cm mas está completamente formado e tem um espectro cromático perto do perfeito. O que é bastante raro.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Mineralogia para Pessoas Normais – Lição#2

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s