Deviam era levar com um Heidegger de 800 páginas (e em capa dura) pelas trombas!

Durante o fim-de-semana transacto, em conversas delirantemente alcoólicas, fui rotulado várias vezes, e por diferentes pessoas, de pseudo-intelectual, intelectualóide e – pior que tudo – pseudo-intelectualóide. Assim, de chapa, sem aviso prévio e mesmo nas fuças, que é assim que se tratam pessoas como eu. Uns queriam claramente ofender-me. Como se o facto de ler um livro por semana e de me movimentar em certos círculos sociais legitimasse só por si a minha queda nesse patamar tão desprezível que é a pseudo-intelectualidade. Como se o facto de ler e pensar fossem coisas hediondas. Na verdade, não leio mais do que toda a gente devia ler e, tendo em conta a minha lista mental de “Coisas a Ler”, até acho que leio a uma velocidade francamente lenta.  Aliás, acho mesmo que a única diferença entre a minha pessoa a aquela corja é apenas a curiosidade que me faz querer conhecer mais. Se penso por mim próprio, se leio coisas que me interessam conhecer, se escrevo, se fotografo, se vou a uma ou outra exposição e se me dou com esta ou aquela pessoa, sou um abominável intelectualóide. Mas se fosse como eles, se só lesse A Bola e o Correio da Manhã, se as únicas coisas que me interessassem na vida fossem charros, copos, putas baratas e Playstation, se não conseguisse produzir uma única frase pensada por mim mesmo – e não por uma maquinação engendrada por matilhas altamente territoriais -, então aí já era um gajo à maneira. Não é preciso ser um Sartre, mas ninguém obriga ninguém a ser um Neandertal. Como se todos devessem pertencer ao insípido deserto que são as suas vidas. E porque me dou com essa gente? Porque sempre o fiz. Mas estas merdas enojam-me um bocado. Um  desses tipos chegou mesmo a dizer-me, sem se rir, que sabia “como é que as pessoas inteligentes como eu pensam”. Dá para acreditar?

Nem sei porque falo disto. Se calhar porque gostava que as pessoas na sua maioria não fossem tão pequenas, tão medíocres. Se calhar também porque gostava de dizer isto tudo e muito, muito mais a essas criaturas… Mas temo que jamais me faria entender. Sou um pseudo-intelectualóide pretensioso que acha que sabe tudo e por isso merece nada menos que o Inferno. Fui confrontado com a estupidez na sua essência, várias vezes e em vários trajes, e fiquei chocado: também por saber que não é só aqui, neste cabeço granítico plantado no meio do nosso Portugal, que há este tipo de estupidez. Isto é só uma singela amostra da estupidez global onde todos chafurdamos. A Humanidade não está perdida, não senhor. Mas, na sua maioria, também não é grande coisa.

Diz-se que os génios são incompreendidos. Mas os energúmenos, senhor, que são aos biliões, esses, além de incompreendidos estão para além de qualquer salvação. Quanto a mim, fico no meio dos dois extremos. Deliciando-me com uns e rindo-me com outros. E vice-versa, claro.

P.S.: Hoje, só por causa das coisas, comprei um Žižek. Que é para verem quem é que é o godá aqui.

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