Mineralogia para Pessoas Normais – Lição #4

Cada vez que aqui se tenta partilhar algum conhecimento, por pouco que seja, de mineralogia, o curioso leitor depara-se sempre com fotografias de espécimes de tirar o fôlego: cristais brilhantes, de formas perfeitas e cores dignas de um stand IKEA. Pensará, porventura, que os processos geológicos, na sua infinita sabedoria, são os melhores ourives que alguma vez existiram. Bem, lá pacientes são, e, diga-se, fazem obras realmente maravilhosas. Mas nem sempre assim é. Por vezes parece que decidem juntar as aparas que sobram de magníficas jóias e aproveitá-las, construindo algo não tão espectacular assim, mas que, como todas as pessoas feias, é filha de Deus. É o que se passa, por exemplo, com um mineral que tem como fórmula química (Fe,Mg,Zn)2Al9(Si,Al)4O22OH2. Vê o que eu digo? Assim de repente, e sem nos perdermos demasiado nos terríveis meandros da nomenclatura química, conseguimos vislumbrar ferro, magnésio, zinco, alumínio, silício, mais alumínio, oxigénio e um hidróxidozito. Para ser um champô topo de gama falta-lhe talvez o óleo de jojoba. Ora agora falta-lhe dar um nome e uma imagem, para ficar a conhecer o Quasimodo da geologia. O nome é Estaurolite (HAHAHAHA), que provém do grego – qual deles nunca saberei, mas decerto que conseguia juntar duas palavras – stauros (cruz) e lithos (pedra). Ora veja lá se os gregos, já naquela altura, não seriam os mestres do óbvio:

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Os cristais são prismáticos e costumam surgir em cruz – maclas, em geologuês – sendo apenas esses que valem a pena serem guardados. Não se lhe conhecem aplicações decentes: no meio de tantos elementos químicos não há nenhum que exista em quantidades aproveitáveis. Como qualquer grunho que se preze tem uma dureza digna desse nome, de 1 a 10 tem 7,5, não funde ao maçarico e só o ácido sulfúrico é capaz de fazer alguma mossa ao rapaz. Diz que ocorre muito raramente, apesar de ter ouvido boatos que davam conta de uma grande jazida perto do Porto. Pode ser conversa de pescador, mas a verdade é que os xistos metamórficos do norte do país são férteis em muitos minerais que costumam ocorrer ao lado na nossa Estaurolite.

E pronto, não há muito mais a dizer. Só não queria que ficasse com a ideia de que no mundo da mineralogia é tudo muito lindo e perfeito. Não. Até aqui há Brunos Alves, Ronnys e Manuelas Mouras Guedes. Até Josés Castelos Brancos aqui temos, lembra-se?

Desta vez a fotografia não é de Kevin Ward. Bem, até pode ser, mas roubei-a alarvemente da Minerals Rodrigues, tem uma página muito decente que, pelos vistos, é uma raridade neste meio.

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