Ecce homo!

Todos sabemos que não se deve beber e conduzir: primeiro porque o mais provável é a bebida ir parar aos estofos do carro, deixando um cheiro a taberna mal limpa durante dias a fio – passo a redundância; em segundo lugar, porque  o perigo de confundirmos uma árvore com a nossa garagem é bem real; terceiro, porque há gente que vê o salário mensal ligeiramente aumentado cada vez que alguém bebe e conduz. Ora, é desta última proposição que vos venho falar hoje, depois de uma semaninha de sabática bloggeur. A bófia não serve só para prender criminosos (sim, não sabia? Os agentes da autoridade podem prender pessoas, mas só as que correm menos que eles), nem para manter a segurança, nem para receber subornos. Serve também, e esta deveria ser a sua principal preocupação, para prevenir crimes e outras ilegalidades. Até aqui está tudo a acompanhar? Há duvidas ou opiniões contrárias? Seguimos então.

Agora, imaginemos uma festa cheia de gente que emborca cerveja como um camelo bebe água depois de dois meses no Sahara. A bófia sabe da festa, claro. Uma simples passagem pelo local revela um faustoso parque de estacionamento; o mesmo será dizer que nem todos os bebedolas foram a pé. E se não foram a pé, muito provavelmente também não irão para casa assim. Então o que faz a bófia? Fica pelas imediações da festa intimidando com a sua imponente presença os foliões de entrar no carro e conduzir? Não. Conhecendo a corja como todos a conhecemos poder-se-ia até pensar que organizariam uma extensa operação de fiscalização, autuando e detendo quem quer que se lhes atravessasse no caminho – exceptuando familiares e amigos mais próximos, claro, mesmo que estes estivessem a cair de ébrios. Mas também não aconteceu isso. O que aconteceu então? Ora, dois indivíduos dessa espécie tão peculiar da fauna alentejana – Gêéneérre – fartos de jogar Playstation no seu covil, lembraram-se de ir à pesca. Plantaram-se perto do local da festa, em plena vila de Arraiolos, e mandaram parar dois veículos. Um dos condutores não tinha, a avaliar pela imberbe feição, a carta há mais de alguns meses, e a miúfa de a perder para sempre fez com que passasse uma terrível noite de abstinência. O outro, já experiente nas artes tanto da condução como da bebericação teve outra sorte, obviamente. Acto continuo, a necessidade de confirmar o resultado do primeiro teste de alcoolemia, fez com que os três indivíduos – dois agentes da muy nobre Gêéneérre e um ser humano perfeitamente normal, apesar de ligeiramente embriagado – viajassem rapidamente para o covil onde nada acontece. Operação de fiscalização terminada, claro. Um peixinho na mingacha. Noite ganha para uns, incluindo os restantes foliões, e perdida para outro. Em plena Páscoa, foi ele o derradeiro escolhido para redimir os pecados de uma festa inteira, o que não deixa de ter a sua piada.

Será que esse individuo perfeitamente normal e racional aprendeu a lição? Aprendeu sim: não se deve beber e conduzir porque o cheiro do álcool nos estofos é insuportável e porque não não se deve dar dinheiro a gente que não se conhece de lado nenhum. Aprendeu a lição, mas o pouco respeito que tinha por essa classe de homo sapiens desceu para menos de zero. Como se pode respeitar alguém que nos sodomizou intencionalmente e depois nos trata com toda a condescendência do mundo, e, não satisfeito, ainda profere frases como “então mas não trouxestes…”?

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