Mineração para principiantes

Há anos – se é que alguma vez aconteceu a sério – que não ia a uma visita de prospecção mineralógica a um local. Através de tropeços consecutivos em nomes, locais, mapas e fotografias, cheguei por fim a colocar o martelo e um escopro improvisado dentro da mochila. Quando se chega a este ponto já não há nada a fazer. A excitação da caça ao tesouro faz rebolar a rocha em equilibrio precário em cima da colina e tenho de a seguir. Assim foi. O senhor Ricardo Pimentel providenciou-me as luzes, o Google deu uma ajuda, mas no fim foi o senhor Borrego que salvou o dia. Bem podia andar às voltas num mar de guindastes, blocos de mármore e crateras incomensuráveis, que nunca encontraria o pequeno lago de águas verdes que se vê do Google. Mais um obrigado ao expedito e muy simpático senhor Borrego de Bencatel. Enfim chegados ao local chegou também o frenesim mental que põe um gajo qual touro acabado de sair do curro, a olhar freneticamente para o chão, à procura de um brilho fátuo, de uma rocha deslocada, de algum sinal que me dissesse “rapaz, abre aí o saco, porque hoje vais levar pedras para casa”. Calma. Não é assim que se procuram minerais. A Terra criou-os com paciência e é com paciência que os tens de encontrar, disse para mim. Cigarro. As máquinas fotográficas das minhas duas colegas do estranho corpo expedicionário começaram a disparar. Abro a folha com o “mapa do tesouro”. Marco mentalmente os caminhos. Picarete na mão. Aí vamos nós.

Foi uma bela tarde. Relativamente poucos achados, mas para uma primeira visita não foi mau de todo. Soube bem voltar há 15 anos atrás, quando era um miúdo enlameado, sempre metido em qualquer cabouco aberto para suportar um novo edifício. Soube bem sentir a terra nas mãos e os olhos quase saltar de tanto procurar pelos brilhos e cores da moda (o verde do cobre, o vermelho dos óxidos e o cinzento dos liditos). Lepidolites (cristais muito pequenos, mas em grandes aglomerados), Malaquite e Pseudomalaquite. Desengane-se se pensar que a Pseudomalaquite é uma versão de linha branca da Malaquite. A primeira é muito mais rara e muito mais engraçada ora veja lá se não tenho razão:

Pseudomalaquite1SMALL

Pseudomalaquite

Malaquite2SMALL

Malaquite

Obviamente as fotografias não estão grande cartucho. Primeiro porque foram tiradas na minha secretária; depois porque as peças nem estão lavadas como manda a cartilha museológica; e ainda depois porque não tenho uma lupa binocular a que possa acoplar a Nikon, ou uma lente decente para estas coisas. Outra coisa que pode não estar grande cartucho são os nomes. Para ter 100% de certeza no que estou a dizer precisava de um pequeno laboratório apetrechado pelo menos com alguns ácidos e uma lamparina. Não tenho nada disso, portanto tomemos estes nomes como certos. Ainda guardo a hipótese de a Pseudomalaquite ser na realidade Brocantite, mas dizem-me para apostar na primeira, e eu assim faço. Quando tiver um laboratório então tiro as teimas.

Ah, claro, faltava uma pequena explicação sobre, pelo menos, estes dois calhaus. A Malaquite é um carbonato de cobre, já a sua versão Pseudo é um fosfato. A primeira é a coisa mais normal em minas de cobre, a segunda já não se dá com toda a gente. Não servem para grande coisa, a menos que o caro leitor seja um pintor renascentista, no que diz respeito à Malaquite; ou um fanático por verde, no caso da Pseudomalaquite. Seja um ou seja outro, posso sempre levá-lo na próxima visita à Mina Miguel Vacas em Vila Viçosa. Traga água e lanche para quatro.

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