As Europeias (eleições)

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Quer dizer que é já no Domingo que a malta tem que lá ir fazer a cruzinha, né? Ainda me lembro das primeiras eleições pós-Revolução – por acaso não me lembro, não senhor, pois ainda ninguém havia tido a bondade de me criar, mas imagino – imagino o entusiasmo desses Adãos e Evas do boletim de voto. Imagino o cocktail embaraço/excitação com se entrava numa cabine de voto pela primeira vez em 40 anos. Os risinhos nervosos, o brilho nos olhos. Afinal, haviamos estado agrilhoados durante tanto tempo que o simples acto de escolher fosse o que fosse nos era estranho. E hoje? Hoje – ou melhor, Domingo, será bem diferente. O embaraço que poderá ser encontrado nas mesas estará relacionado com o prórpio acto de votar, sim, mas ao contrário. O votante será observado pelos outros votantes que, ao olhá-lo de cima abaixo, tentarão inferir em qual do incompétents ele irá votar. O brilho nos olhos e o entusiasmo prender-se-ão, não com a mais nobre das acções democráticas, mas sim com a proximidade das cervejas frescas do café ao lado. O défice de seriedade na política portuguesa é tão grande que o único motivo legítimo que poderá levar eleitores às urnas é o facto de podermos escolher de qual dos candidatos nos queremos ver livres. Desengane-se se pensar que as campanhas dos partidos em corrida se centram apenas em criticar uns aos outros: isso é o que a SIC e a TVI querem que pensemos. Lá terão os seus planos obscuros, como de costume. E os partidos lá terão as suas ideias brilhantes para salvar a Europa – e Portugal também, claro, que está sempre à frente nas suas prioridades – como de costume. É este costume instalado que me faz arrepiar o lombo, qual gato à simples visão de um rottweiler, quando me perguntam em quem vou votar.

Uns são incompetentes porque dão dinheiro a quem não devem e deixam outros morrer de fome, ou então estão envolvidos em casos de de dinheiros obscuros, ou porque de cada vez que abrem a boca sai uma gaffe; os outros não são muito melhores: gozam, criticam, deixam-se fotografar ao lado dos trabalhores – mesmo os centro-direitistas -, passeiam-se pela Avenida da Liberdade empunhando palavras de ordem, mas uma posição de força – que se deveria tomar quando tudo o resto falha – nunca a tomam. Não falo em carros explosivos, nem cintos de granadas nos mercados. Todavia há coisas que se podem fazer. Oh, se há. Estou farto das criticas fáceis, das sempiternas anedotas onde o nome do protagonista muda de 10 em 10 anos. O caso é sério demais. Durante quanto tempo ainda suportará o nosso enfezadinho país a incompetência e a ganância dos seus próprios governantes? Não sei, mas desconfio que não será muito mais. A verdade é que temos o que merecemos. Governantes mesquinhos para um povo mesquinho. Não se queixem. Se acham que estão mal arregacem as mangas. É isso que as pessoas, que se dizem pessoas, fazem. Oh, eu sei, eu sei, o episódio de hoje da novela da noite é demais. Ficamos todos à espera que acabe, então. Amanhã há tempo para a luta. Mas olhem que os pançudos de colarinho branco que vos sodomizam a sangue frio todos os dias não vêm telenovelas. Não. Esses congeminam, cozinham, esquematizam, conspiram, reflectem, trabalham arduamente para que o adágio “anda meio mundo a enrabar o outro meio” faça sentido. E vocês – e eu, todos – chegamos mesmo a untar o nosso miserável rabinho com vaselina, na esperança que a coisa não doa tanto, quando devíamos era subir as calças e agarrar o pançudo pelos tomates.

Quanto ao acto eleitoral do próximo Domingo ainda não sei o que fazer. Ao não ir votar estou a ir contra os meus próprios princípios – e são esses princípios os que nunca devemos abandonar, quando todos os que não o deviam fazer o fazem; ao ir votar vou ser obrigado a escolher uma entre várias pessoas que não me agradam minimamente. Portanto, acho que vou votar naqueles cujas hipóteses de me prejudicar sejam as mínimas. Vou votar no mais pequeno entre os pequenos e ver no que dá. É isso mesmo. Votar pelo menos poderoso dos incompétents.

É pena José Mourinho pertencer a outra corja. Essa é uma mágoa que vou transportar para o resto da vida.

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