Coliseu, CR9 e M.J.

Hoje, por uma vicissitudezinha muito chata, vi-me na obrigação de sintonizar o meu rádio-despertador noutra frequência que não a habitual 102.4, o que me fez dar de caras – e de ouvidos – com a Radio Renasceça, emissora católica portuguesa, e com os seus profundos pensadores cheios de moralismos de ponta e rodeados de uma muralha de códices filo-teológicos e tratados de algibeira. A melhor parte chegou quando, numa pequena rúbrica de reflexões sobre o mundo em geral, uma respeitável senhora me disse que o mundo hoje não difere muito do mundo na altura do império romano, e comparava a apresentação do CR9 e o funeral de Michael Jackson aos jogos que os imperadores promoviam no Coliseu, feitos para entreter e plebe e enchê-la de pão com o malévolo intuíto de a amansar e distraí-la dos problemas reais. Em primeira análise, esta reflexão digna de um miúdo de 6 anos só vem corroborar um enunciado meu que diz que a história da Humanidade é uma repetição dos mesmos erros em escalas e contextos diferentes. Em segunda análise, tenho que dizer que concordo quase plenamente com a senhora, mas vamos aqui fazer um pequeno exercício de contabilidade só para percebermos as coisas como elas são. Vá, tudo a apanhar nos lápis e num bocado de papel:

 A apresentação de Cristiano Ronaldo demorou 20 minutos. A acrescentar a isso temos o tempo dispendido pelo primeiro maluquinho que chegou ao Santiago Bernabéu para ver o CR9: vá, 20 horas de espera. Não nos podemos esquecer do tempo dedicado pelos noticiários à causa: cerca 12 minutos por dia, em média, durante 4 dias. Resultado: a apresentação de Cristiano Ronaldo custou à espécie humana cerca de 23 horas de atenção. Agora o contraponto: tendo em conta que há cerca de 5 telenovelas por dia em 3 canais diferentes, e que cada episódio dura uma média de 40 minutos, ficamos com o redondo número de 10 horas de teleficção por dia, sem contar com os as diferentes séries, programas côr-de-rosa e a pandilha Baião-Maya-Goucha, e não pára. Há anos que essa torrente de nadas não pára. Nunca pára.

 A televisão, isso sim, é um verdadeiro coliseu de fantasia para a plebe. E sem direito a pãozinho.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s