Mineralogia para Pessoas Normais – Lição #5

Reparo com extremo assombro que, algures nos esconsos arquivos deste blog, cometi uma das mais terríveis gaffes que se pode cometer em mineralogia: trocar um raríssimo fosfato de cobre por um mísero filossilicato de lítio. Pior que isso foi você, incompetente leitor, ter engolido a patranha como se de um refresco num dia como o de hoje se tratasse. Nunca, sob circunstância alguma, se pode confundir uma verdusca Libethenite por uma rosácea mica chamada Lepidolite. Nunca, nunca. Vinte chibatadas no lombo, por favor.

E já que estamos com a picareta na pedra aproveito para lhe atirar uma coisa impressionante à cara: micas há muitas, seu palerma. Quando lhe perguntarem qual é a composição do granito (uma perguntinha classificada como “de algibeira” desde a 4ª classe) você contra-interrogue perguntando qual a composição principal do granito: cálcio, magnésio, potássio, alumínio ou ferro. Claro que há mais possibilidades, mas vamos centrar-nos apenas em dois tipos de espécimes micáceos: os mais fáceis de encontrar em qualquer calçada e os que têm o nome mais estúpido. Assim, temos a Muscovite, de cor branca ou cinzenta, prenhe em alumínio e potássio (se bem que tem um primo chegado, de côr verde e empanturrado em crómio, que se chama Fuchsite, imagine). Temos a Biotite, muito parecida com a sua parente moscovita (hahaha), mas de côr preta e à base de ferro. São estas as duas variedades mais corriqueiras e também as duas únicas com um nome capaz de não suscitar o riso convulsivo. Agora vamos ver as micas que raramente são convidadas para as festas de família.

Já ouviu falar em Flogopite? Imagino que ela também não ouviu falar de si, mas para ir preparado para um possível encontro, elogie as suas nuances verde-escuras ou vermelho acastanhado, dependendo do caso, mas não se esqueça de lhe falar da excelente qualidade do seu magnésio. Fale-lhe também mal da sua prima em primeiro grau Biotite, as micas adoram cochichos.

Se por acaso alguma mica se lhe apresentar como Zinnwaldite, diga-lhe que não tem tempo para falar: a mistura de alumínio, ferro, lítio e potássio faz com que a dita mica seja capaz de dissertar sobre qualquer coisa durante dias a fio. Cuidado, sabe que um chato nunca perde o seu tempo: perde o dos outros.

Agora a cereja no topo do bolo micóide: Marguerite! Simpática, de tez pálida e falar suave, é a companhia perfeita para uma tarde oitocentista. Gaba-se de ser a mica que mais cálcio transporta no regaço e, apesar de saber que todas as suas primas a acham uma sonsa, não gosta muito de falar delas. Prefere o críquete, passeios a cavalo e chá. Às cinco.

Agora veja lá o que é um exemplar a sério de Muscovite. (as lâminas prateadas, os azulinhos são Água-marinha e os rosinhas são Apofilite e Fluorite)

Denver2008-91aquaapatitefluor

Todas as informações são facilmente confirmadas – e aumentadas – com uma breve visita à Mindat e à Wikipedia. Claro que a fotografia é de Kevin Ward.

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