Os Problemas da Liberdade em Binário

Nutro uma simpatia desmedida pelas filosofias Wiki e Open Source. A primeira, vinda de um nível teórico, encoraja as pessoas a juntar o seu conhecimento sobre determinado assunto a um enorme caldeirão de conhecimento já acumulado sobre esse mesmo assunto, criando assim uma espécie de biblioteca universal acessível a todos. Não há maneira de isto ser uma coisa má. A princípio haverá reservas, claro: como sei eu que o tipo que escreveu o artigo X e o tipo que o reviu não querem contar um história de fantasia ao invés da história original? Como sei eu que determinado artigo não é um romance de Dan Brown? Não sei, não tenho maneira de saber. Mas também não tenho a certeza de que a Enciclopédia Luso Brasileira tenha sido escrita por gente idónea. Os livros de História usados nas escolas do Terceiro Reich contavam os factos de um modo totalmente diferente dos livros usados em Londres, por exemplo. Quais estavam errados? Depende do ponto de vista. Para mim a Wikipedia tem sido, e espero que continue a ser, a principal fonte de conhecimento sobre tudo.

Leio agora que essa fonte se encontra numa encruzilhada e vai ter de escolher que caminho tomar. Só este ano, na secção inglesa, a Wikipedia perdeu 49.000 voluntários que escreviam, editavam e policiavam os 3 milhões de artigos da página. Ora, sabendo que a Wikipedia sobrevive de donativos, torna-se complicado manter tantos voluntários a custo zero, mesmo obtendo um lucro de 2.5 milhões de dólares durante a última campanha de angariação de fundos. Outro problema que assola a Fundação Wikimedia é o rigor e a segurança dos artigos. Por todo o lado há “terroristas” que editam textos mostrando uma qualquer inclinação ideológica ou simpatia/antipatia por esta ou aquela personagem, o que em artigos de conteúdo histórico é um pecado capital e deve ser altamente desaprovado. A forma que a Wikimedia descobriu para lutar contra isso foi aumentar a complexidade da publicação e edição dos artigos, criando uma espécie de hierarquia editorial. Isto vai ligeiramente contra os princípios básicas da filosofia Wiki. É esta a encruzilhada: ou se aliciam mais voluntários (que são necessários a uma página com 325 milhões de visitas mensais), ou se investe numa coisa mais séria e rigorosa com menos pessoal. Continuar 100% Wiki ou descarrilar para os 50%, é a questão. Um problema de identidade comum à maioria dos adolescentes, portanto.

É, no fundo, este o maior problema da filosofia Wiki e Open Source: depois de chegarem a um alto nível técnico, há muitas dificuldades em manter os castelos no ar apenas com voluntários, por mais dedicados que estes sejam. É sempre necessário ir beber um pouco à fonte do capitalismo, a mesma fonte que tentam combater, para se manterem saudáveis. Não é só uma encruzilhada, é também um paradoxo.

* * *

Voltarei para falar da minha experiência com o Open Source mais tarde (ou não). E vou manter este texto alinhado à esquerda sem justificação porque, além de ser tipograficamente mais simpático, é essa, em última análise, a essência do dito texto.

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2 pensamentos sobre “Os Problemas da Liberdade em Binário

  1. Bem, agora sim, já vi o RIP. Muito obrigado pela dica. Vou tentar usar o meu Transmission (programa livre de copyright) para sacar o documentário completo do Pirate Bay, ou assim. Já que faço parte de uma geração de criminosos…

    Adorei o brasuca: “o compartilhamento é a própria natureza da criação”. Ainda há homens bons.

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