De bloqueios e suas minudências

Um bloqueio criativo é algo tão desejável para um artista como um monte de alhos o é para um vampiro – com a excepção de Cullen e amigos, claro. Não que me assuma como artista na total acepção da palavra, mas se exprimo sentimentos ou conceitos através de uma qualquer linguagem, fotografia neste caso particular, há que admitir que existe um bocadinho de artista em mim. Não aquele bocadinho que se diz que os artistas gostam de pôr em todo o lado, malandreco leitor, é um outro bocadinho mais metafísico. A questão é que o bloqueio criativo é doloroso e desengane-se quem pensar que um artista faz as coisas por fazer: um artista, mesmo um deslavado como eu, sente prazer quando está a criar e sente prazer quando contempla a obra terminada. Isto é ainda mais importante quando percebemos que a criatividade se alimenta dela própria, e quanto mais e melhor criarmos mais e melhor criaremos de futuro. Isto aplica-se a tudo e daí vem a maior frustração subsequente de um bloqueio. O pavor de não voltar a fazer nada de jeito.

Confesso que nunca tive grandes aspirações a ser um grande fotógrafo, ou sequer desenhador, ou mesmo escritor. São coisas que gosto de fazer, duas mais por prazer que por dinheiro, a outra é mesmo 50/50 certos, mas acho que chega a uma altura na vida de todos em que ou investimos mais nessas coisas que gostamos ou não vale a pena continuar. Talvez seja essa a matriz de todos os bloqueios, quer criativos, quer de outra natureza qualquer: a entropia intelectual – que pode ser confundida com inércia – a que se chega depois de subir um imaginário degrau na escada do crescimento pessoal. É uma forma de o subconsciente nos dizer “pá, agora ou fazes as coisas a sério ou então não fazes, já chega de brincar“.

Dizem-me que são dores de crescimento, que é normal, que acontece a todos, que é uma espécie de varicela de artista, que isto passa sem dar por isso. Tudo bem, então vou ficar aqui quietinho, com a manta lobeira pelas pernas, o cognac e o cachimbo nas mãos, à espera. Não, não me parece. Vou arrumar o escritório e prepará-lo para quando o embargo cair. Se cair. Se não cair, pelo menos fico com um escritório novinho em folha.

* * *

A propósito, sábado, dia 5 deste chuvoso Dezembro, pela décima sétima hora do dia, haverá faustas comemorações na Galeria Lobo Mau em Arraiolos, por ocasião do seu anteriormente improvável primeiro aniversário. Banquete alentejano para degustação e obras diversas para contemplação de digníssimas criaturas como Ana Tecedeiro, António Pedro Valente, Anxo Pastor, Cristina Oliveira, João Sotero, José Ricardo Vicente, Paulo Nuno Silva e Susana Piteira. Haverá música e conversa à discrição.

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2 pensamentos sobre “De bloqueios e suas minudências

  1. Olhe que não, olhe que não. Um hiato é soa mais a algo voluntário, como uma licença sabática. Um bloqueio é involuntário. Fazer mal não faz, mas fazer bem também não… Não se esqueça que podia ter participado numa gloriosa exposição e não o fiz, num misto de mariquice e falta de confiança resultante desse “hiato” ou lá como lhe chama.

    Agora vou passar a chamar a esse infame procrastinador de assobio. Se assobiar para o lado pode ser que passe.

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