Ao cuidado dos Senhores do Mundo em Copenhaga:

Não sei o que terão os senhores conferencistas para discutir que demore tanto tempo e provoque tantos murros na mesa e voltares de costas. A questão que vos levou às gélidas terras da Escandinávia foi o aquecimento global e os seus efeitos no modo de vida humano. Andamos a escavar a nossa própria sepultura há 200 anos. Somos cada vez mais e, por conseguinte, com cada vez mais necessidades por suprir. Dois terços de nós vivem em condições deploráveis e incapazes de utilizar tecnologias não poluentes: quem irá dizer a uma mãe namibiana para não usar o gerador diesel que tem no quintal, a sua única fonte de energia, quando ninguém está disposto a trocá-lo por um moderno gerador eólico? Quem irá dizer ao dono de uma exploração de gado hondurenho que tem de fechar a quinta, que polui muito e que fartos de metano já nós estamos?

O vosso trabalho, caros conferencistas, não é um trabalho fácil, aliás, é até um trabalho bem penoso. É como tentar parar um comboio desgovernado numa descida, tendo em conta que muitos dos passageiros precisam de chegar à próxima paragem o mais depressa possível. Como disse no início, não sei o que têm de tão complicado para discutir, apenas posso imaginar, mas lembrem-se que precisamos de consensos. O Mundo precisa de consensos. Lembrem-se de um dos princípios básicos de uma das ideologias que nos trouxe a este ponto civilizacional, a Teoria dos Jogos de John Nash: encontrar estratégias racionais em situações em que o resultado depende não só da estratégia de um único agente e das condições do “jogo”, mas também das estratégias e dos objectivos dos outros agentes. A questão é que só se pode avançar cooperando. Portanto cooperem, se fizerem favor.

Eu sei, eu sei. Há lobbies, há interesses, há muito dinheiro preso aos vossos “sins” e “nãos”. Tenho para mim que é esse o mal maior entre todos os problemas que vos/nos afligem. E também é por isso que não estou muito confiante quanto a grande revoluções, ou evoluções, depois de Copenhaga. A fé na Humanidade já viu melhores dias, no que me diz respeito. No entanto, – uma no cravo e outra na ferradura, como se costuma dizer – o simples facto de 120 chefes de estado estarem na disposição discutirem as suas preocupações com o planeta Terra é, só por si, indício de um provável salto civilizacional. Desta vez não estão a ser discutidas guerras, arsenais nucleares, divisões de terra, nem sequer alianças. É o planeta Terra que está em cima da mesa, é um dos poucos factores que une todos os seres vivos do Mundo que está a ser discutido.

Notem que escrevi “indício” e “provável” numa fase lá em cima. Porque, tal como em todas as idiossincrasias humanas, tudo pode acontecer. Até pode acontecer que esta conferência seja apenas um golpe de marketing para sossegar os chatos dos ecologistas. Mas também pode acontecer que as preocupações sejam sinceras, que cooperem todos, que saiam de Copenhaga de braços dados e com acordos a sério capazes de fazer a diferença. A sério. Pode acontecer.

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