O Flagelo do Espírito

Há cerca de 150 anos Edgar Allan Poe pôs um nome a uma certa enfermidade do espírito, uma doença estranha, ou uma entidade, como Poe a define, que toma conta do espírito de uma pessoa aparentemente saudável, sem que haja bactéria, vírus, fungo ou parasita que a transporte. Entre outros sintomas, os pacientes dessa enfermidade, ou possessão se o leitor tiver inclinações mais religiosas que científicas, caracterizam-se pela inércia a que dedicam todos os seus dias. Poe na sua estória vai muito mais além na descrição de sintomas, alguns deles bem mais perversos, mas é na inércia intelectual que quero focar o meu ponto de vista. Ora, dizia eu, os pacientes desta estranha doença definem-se acima de tudo por aceitarem que estão doentes mas não lhe apetecer fazer nada para mudar a situação. É uma doença da vontade, portanto. Deixam-se ficar sentados no sofá em frente ao televisor ou ao computador, sabendo que há imensas coisas produtivas que devem e podem fazer, mas ao invés de se levantarem e enfrentarem a vida terrena de peito aberto, ficam ali, escancarando as portas à preguiça e ao marasmo. Vêm com desdém quem os incita a levantar do sofá, apesar de no íntimo saberem que quem tem razão são os outros e não eles. Pior ainda: o paciente tenta sempre não estar sozinho, transformando lentamente, e sem ter consciência disso, outros indivíduos perfeitamente saudáveis em criaturas de sombras e desdém.

Poe chama-o de Demónio da Perversidade, pois esse demónio, ou enfermidade, leva-nos a fazer coisas que sabemos que não serão minimamente úteis, nem para nós nem para outros, mas que ainda assim parecem mais apetecíveis que outra coisa qualquer, como trabalhar, estudar ou mesmo criar o que quer que seja. Nada deveria parecer mais interessante que estas três coisas.

Como exorcizar o dito Demónio, ou curar tal infecção das vontades, como preferir, pergunta o curioso leitor. E eu respondo-lhe prontamente: não haverá cura possível enquanto o paciente, ou possuído, não quiser. Pode tentar um estalo na cara. Pode tentar um copo de água, pode tentar alfinetes no sofá, pode zangar-se, espernear e gritar. Não há cura sem vontade. E é sabido que não há demónio, bactéria, vírus, fungo ou parasita que domine por completo a vontade de alguém. Logo, todos os pacientes têm cura.

Se quiserem mesmo.

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2 pensamentos sobre “O Flagelo do Espírito

  1. Concordo plenamente contigo, e esta mensagem tem que ser passada para evitar que este “mal” se propague ainda mais. Conto pelos dedos da mão os casos que conheço e a realidade é que estão mesmo doentes. Sei que em ambos os casos, têm excelentes capacidades para fazer algo de mais util do que estar rendido a um mero sofá. O próprio utente chega mesmo a compreender que tem habilitações para vingar e fazer a diferença entre a sociedade mas como disseste preferem por a tranca na porta.A rotina passa por correr as persianas para baixo, esperar que anoiteça, conhecer o mundo lá fora por uma caixinha e deixar passar o tempo deixando sempre para amanha uma possivel fuga aquele antro. Não sei se lhe podemos chamar uma Crise de Identidade ou não, mas lá que é um Demónio, ai isso é…

    Relembro uma célebre frase dita algures no meio do nada que no meu ver, transmite esta ideia:

    “Só vejo vultos e coisas pretas…”

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