Do desgoverno.

As nossas leis não são universalmente conhecidas; são mantidas em segredo pelo pequeno grupo de nobres que nos governa. Estamos convencidos de que essas antigas leis são administradas escrupulosamente; mas ainda assim é incrivelmente penoso ser-se governado por leis que não se conhece. Não estou aqui a pensar em possíveis discrepâncias que podem surgir na interpretação das leis, ou nas desvantagens geradas pelo facto de apenas alguns, e não toda a gente, poderem opinar sobre a interpretação das leis. Estas desvantagens são, porventura, de pouca importância. Isto porque as leis são deveras antigas; a sua interpretação é o resultado do trabalho de séculos, pelo que sem dúvida nenhuma adquiriu, ela própria, o estatuto de lei; e mesmo que continue ainda a haver uma possível liberdade de interpretação, esta ter-se-à tornado, hoje em dia, bastante restrita. Para além do mais, é óbvio que os nobres não têm qualquer razão para deixar que a sua interpretação seja influenciada por interesses pessoais adversos aos nossos, já que desde o início, as leis foram feitas para vantagem deles, de tal modo que eles se erguem acima das leis, e parece ser por isso que elas lhes foram exclusivamente confiadas. Este sistema trará decerto alguma sensatez – quem duvida da sabedoria das leis antigas? – mas traz também sofrimento para nós, o que, provavelmente, é inevitável.

Franz Kafka in O Problema das Leis

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