De Jamie e alturas

Há muito tempo que me deixou maravilhado, não tanto pela qualidade, mas pela verve que mostra. Mostra que o jazz é mais que o ar que respira. Bebe as notas, tanto as dele como dos outros, como se essas se tratassem de água fresca e ele houvesse acabado de atravessar o Gobi. Delira de prazer com o jazz. Agarra numa musiquinha de MTV filtra-a com a própria alma e veste-a de uma forma completamente nova e fascinante. Também delira com o R&B, o gajo. Faz o mesmo às antigas odes da Blue Note com ainda mais empenho e homenageia os gigantes em cujos ombros se passeia com aquele ar de beto reguila. Está mais velho, mas nem por isso mais lento. Sobe e salta do piano vezes sem conta, viaja até aos meandros do beat boxing e da tecnologia como ferramenta – o público delira -, salta para o meio da plateia apetrechado com o resto da banda e canta sem microfone – o público delira ainda mais, mas desta vez em silêncio que há que ouvir o Jamie. Pelo meio dá uma perninha como stand-up comediant e o público delira outra vez, mesmo que não perceba patavina do que diz aquele sotaque da profunda Inglaterra. Delírio foi a palavra-chave da noite de terça no Coliseu. Delirou toda a gente que lá estava, incluindo os seguranças que foram obrigados a deter uma invasão de palco.

Também eu delirei e não foi só por simples prazer auditivo. Delirei também por sofrimento atroz. Eu explico: assim que cheguei às galerias cimeiras da supracitada sala de espectáculos percebi que não ia ser um concerto agradável, pelo menos para mim. Não porque estava muita gente já espalhada pelo parapeito das ditas galerias e não, certamente, porque não via o palco, já que o meu metro e oitenta ainda cumpre os objectivos. Lembrei-me, isso sim, que tinha vertigens. Ainda por cima daquelas que paralisam pessoas a alturas maiores que meio palmo. Não poderá o caro leitor imaginar o quão penosas foram as 3 horas de espectáculo. O que interessa é que sobrevivi e ainda consegui concentrar-me o suficiente para poder usufruir das dissonantes frenéticas debitadas pelos apêndices digitais de Cullum. Raras vezes o o piso térreo me soube tão bem.

Quase me esquecia. Houve um duo que tocou antes de Jamie, o Cullum. Não ficam para a história, apesar da boa qualidade das músicas e das vozes. Nem sequer me lembro do nome deles e também não vou procurar. Cá para mim vou chamar-lhes o casalinho “Caguinchas & Lamechas”. Ah, eram dois gajos.

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