Defendendo o indefensável

Tenho passado grande parte do tempo em que estou sentado a uma mesa de café a defender Saramago. Dizem-me, entre outras barbaridades, que o gajo queria ser espanhol, que era um traidor da pátria, que não sabia escrever, que só porque morreu é que anda meio mundo a falar bem dele, que agora é que é um grande senhor quando está mais que visto que foi sempre uma besta quadrada, e por aí adiante. Esforço-me por fazer ver aos boçais interlocutores que não era bem assim, que ele se mudou para Espanha por amor e por alguma azia contra atitudes de quem devia defender os talentos nacionais e não o fez, que ele sabia escrever sim senhor mas mandou as convenções gramaticais à fava, que a conversa sobre a integração ibérica não passou de um delito de opinião e há pouca gente que discorde depois de pensar a sério no assunto, e por aí adiante.

Todavia, pensando bem no assunto, todos os argumentos válidos ou inválidos que possa arremessar a quem “não curte” Saramago são vazios de propósito. Saramago nunca teve vontade de se defender. A sua consciência estava tão tranquila quando atacava a Igreja, como quando recebeu o Nobel em Estocolmo. Dizia o que pensava, atacava o que achava que devia atacar, defendia o que achava que devia ser defendido e virava as costas quando achava que o devia fazer. Porque a sua alma sempre foi livre de convenções. Nunca o vi defender-se de ataques à sua pessoa na praça pública porque não era necessário; a sua consciência dizia-lhe que todo o esforço despendido em duelos de palavras seria em vão. As palavras, mais do que uma arma de duelo, são armas de destruição massiva. Para quê gastá-las com meia dúzia de energúmenos quando se pode chegar a milhares de almas que realmente querem saber o que pensa Saramago?

Não sei se ele realmente pensava assim, ou se era mesmo uma besta quadrada. O que sei é que não o vou defender mais.

Porém, não deixarei de me apiedar dos ignorantes.

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4 pensamentos sobre “Defendendo o indefensável

  1. Eu não gostava nem desgostava, apenas acho que só se fala agora (da forma que se fala) porque morreu…faz-me lembrar um certo actor…vá lá, este ganhou o Nobel antes de morrer. Pedro (aquele do cabelo comprido)

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