O Capitão e a Escuna

A Escuna não era grande coisa, o Capitão sabia-o. Precisava de umas melhorias aqui e ali, dizia, mas a verdade é que só com muito boa vontade alguém chamaria aquele monte de madeira podre de navio. E ele assim a tratava. Servira-o bem, tanto o Capitão à Escuna como ao contrário. Não fosse o Capitão e aquele barquito jamais teria passado a quilha por tanto recife magnífico, ou passeado as suas retalhadas velas por praias tão brancas. Não fosse aquele capitão e a Escuna poderia estar já repleta de corais e peixes estranhos; ou pior, poderia estar a servir no transporte de escravos no continente negro para aquilo que os homens estranhamente chamavam de civilização. Não fosse aquela bem-aventurada Escuna e o Capitão poderia já estar no estômago de muitos peixes diferentes; ou pior, na masmorra de algum bandido de peruca prateada.

A Escuna não era grande coisa, mas a confiança que o seu Capitão tinha nela, fê-lo arriscar a tempestade. Uma tempestade nunca antes vista. As ondas sacudiam tanto o Capitão que tinha que ser a Escuna a adornar ligeiramente para o impedir de cair à água; outras vezes, era a Escuna que corria o risco de tombar mas o Capitão com um movimento ágil e firme no leme mantinha-a no rumo certo e com os mastros a apontar o azimute celeste. A tripulação, que também faz parte da história, vendo a situação tão desesperada tiveram a atitude mais desesperada que uma tripulação pode ter: ataram-se todos firmemente ao mastro principal. O Capitão escarnecia dos tripulantes. Salvá-los-ia a todos, mas só porque estavam a bordo da Escuna, e se salvar uma coisa implicava salvar a outra, então que assim fosse. Subitamente, uma enorme parede de água e ventos turbulentos surgiu na sua frente. E em ambos os seus lados. E atrás também. O barulho era ensurdecedor; os tripulantes de olhos fechados receavam a foice do magno ceifeiro a qualquer momento; o Capitão olhava à volta boquiaberto, espantado, mal segurava o leme; a Escuna não fazia nada porque toda a gente sabe que os objectos inanimados não possuem qualquer tipo de vontade, por mais que nós, homens, lhes atribuamos essas virtudes – mas se tivesse qualquer tipo de consciência decerto coçaria a cabeça e diria para sim mesma “mas que diabo vem a ser isto?”. Como dizia, o barulho era ensurdecedor, o céu era um mísero pontinho azul lá muito em cima, tudo o resto era cinzento e negro, no entanto a embarcação e todos os seus tripulantes estavam completamente imóveis a flutuar nas águas mais calmas por onde já navegaram.

És tu o Capitão que dizem ter navegado por todos os mares do vasto Mundo e ter vencido todas as tempestades do Céu? perguntou aparentemente uma rabanada de vento que lhe queria atirar o gasto tricorne para o chão. Sim sou eu, e é bom que me temas pois não houve tempestade alguma que me resistisse a mim e à minha Escuna, gritou de punho no ar. Sim eu sei; por isso tenho um desafio para ti: se atravessares ESTA Tempestade, dar-te-ei a dádiva de poderes navegar em TODOS os mares do Universo. Há mais mares no Universo? perguntou o Capitão intrigado, a Escuna, se pudesse, tinha o rabo entre as pernas. Mas é claro que sim, existem mares tão grandes como dez vezes este Mundo e com tempestades tão ferozes que até tu, bravo Comandante, tremerias de medo ao vê-las ao longe; mas também há mares tão fabulosos que chorarias emocionado de cada vez que um salpico te atingisse a face. Então vamos a isso, meu caro, disse o Capitão com um misto de determinação e gozo no rosto pelo desafio apresentado. Mas primeiro desfaz-te desses miseráveis que tens como tripulação; não te ajudarão em nada e caso passes este teste decerto se amotinarão e atiram-te ao mar – disse um remoinho que subitamente se levantou no convés. Não – respondeu prontamente o Capitão – se os queres vens buscá-los aqui, se não seguirão viagem onde estão e lá morrerão e os seus cadáveres, não eles, verão todas as maravilhas que eu verei. Então que assim seja feita a vontade do senhor Capitão, zumbiu uma suave brisa junto ao seu pescoço. Girou o leme a toda a força ainda antes de as paredes de água desabarem em cima da pequena Escuna. Como se soubesse de antemão o que iria acontecer. No meio da conversa com aquele estranho vento a sua astúcia não tinha estado ociosa: procurara instintivamente uma brecha na muralha de água e vento por onde fosse possível navegar e havia-a encontrado.

Sorria, de olhar esgazeado, galvanizado pelo novo horizonte que lhe tinham oferecido. Porém à sua frente desenrolava-se com fúria a pior tempestade que já vira. Tinha vencido todas as tempestades e sulcado todos os mares deste Mundo. Esta seria a última, a mais poderosa, a derradeira arma dos deuses para impedir a divindade deste homem. Quantos capitães poderiam dizer o mesmo? Por isso sorria, sem medos, sem angústias, como único receio tinha a possibilidade de perder a sua Escuna. O que seria dele sem ela? Como poderia navegar nos mares do Universo noutro barco que não aquele, que havia passado com ele tantas provações e alegrias que davam para encher largas vintenas de vidas de homem?

Pensaria nisso noutra altura. Agora, a água a escorrer-lhe pela face e os trovões que estalavam por cima da sua cabeça eram as suas únicas preocupações. Yo Ho Ho, disse baixinho, e uma garrafa de rum.

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