O Naufrágio

Impossível. Se não impossível, altamente improvável. O que é facto é que aconteceu. O Capitão acordou numa praia de areia branca com um oceano turquesa pela frente. Como teria ido ali parar era coisa que não recordava. Mas se de facto estava agora sentado numa praia de areia branca, completamente fora do seu ambiente natural de madeira a ranger e cordas a esticar, só uma coisa poderia ter acontecido: naufragara. A sua Escuna, a sua maravilhosa e fiel Escuna tinha ido visitar as profundezas abissais e deixara-o ali entregue à Providência que ela não podia ajudá-lo mais.

Levantou-se de um repente. Olhou em volta em busca de destroços aos quais se pudesse agarrar e através dos quais se despediria definitivamente do seu adorado “navio”. Olhou em redor, começou a correr, primeiro devagar, depois no limite das suas forças, completamente entregue ao desespero. Nem sinal de uma tabuínha, sequer, nem uma corda esfiapada. Ofegante, perscutou o horizonte com a mão direita a servir de protecção de um sol impiedoso.

O seu coração parou. Primeiro percebeu um ténue ponto ao longe. Limpou os olhos, olhou outra vez e era claro como água: lá estava ela ao fundo. A vela principal acabara de ser içada e estava agora completamente enfunada. Reconheceria aquele velame em qualquer parte do mundo. Mas, se as velas estavam a ser içadas e ele estava ali, naquela praia de areia branca, quem estaria ao leme da Escuna? Quem ousaria tomar o seu lugar naquela soberba embarcação?

Gritou, esperneou, acenou, na vã esperança de que quem quer que estivesse ao leme o escutasse ou visse, chegou a pensar que seria possível a Escuna, a sua adorada Escuna, soubesse que ele estava ali e tentasse ajudá-lo. Mas não. Afastavam-se agora, a Escuna e o Piloto Misterioso. E ele ficaria ali. Em terra. O pior pesadelo de um marinheiro. Chorou. Chorou por dez dias e dez noites. Não dormiu, não comeu, não bebeu e só parou de chorar quando o seu próprio corpo ficou sem uma única gota de água.

Descolou as pálpebras para enfrentar a morte de olhos bem abertos. À sua frente estava pousado um coco partido ao meio. Como teria ido aquilo ali parar não sabia. Se calhar tinha estado sempre ali. Nem sequer sabia se havia de beber e lutar pela sobrevivência ou sucumbir ao desgosto e ao infortúnio. Estava exausto, o seu corpo apenas cumpria os serviços mínimos, a sua mente estava tão virada do avesso que era praticamente algo nulo, o seu coração estava destroçado e nunca a palavra “destroçado” fez tanto sentido. Morreria. Deixar-se-ia levar pela corrente. As gaivotas e outros comedores de mortos tratariam de limpar o seu corpo da face da Mundo. Não queria lutar mais. Sem a Escuna, não valia a pena. Pior do que estar sem a Escuna era a consciência de que era o Piloto que estava ao leme. Antes o fundo do mar.

Foi um lampejo de uma coisa chamada “instinto de sobrevivência” que o impeliu a labuzar-se no revitalizante néctar que repousava à sua frente. Não pôde evitar. Enquanto a ressequida garganta tentava empurrar o dito sumo para baixo, e à medida que os efeitos quase medicinais da água de coco lhe iam percorrendo as entranhas, o Capitão começou a pensar que talvez sobrevivesse. Talvez fosse um teste à sua própria alma. Os deuses haviam-no testado antes, porque não seria isto tudo uma brincadeira divina?

Levantou-se a custo. Olhou o horizonte sem esperança. Mas lutaria. Quando perde tudo um homem pode escolher um de dois caminhos: render-se à amargura e tornar-se o mais perigoso de entre todos os homens da Terra; ou continuar o caminho, primeiro a custo, depois já não tanto, e transmutar-se em algo melhor ainda, sempre assim, sucessivamente, ultrapassando obstáculos, construindo e reconstruindo, até que a Morte lhe surja e lhe diga “Pronto, acabou. Cumpriste-te. Podes descansar agora“.

E era para aí, para o segundo caminho, que o Capitão olhava com aquele meio sorriso tresloucado. “Yo Ho Ho… A toda brida, marujo. Até onde acabar o Mundo“, disse baixinho.

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