Carta a um jornal

Eu, M., dirijo esta carta a Vossa Excelência, director do jornal J. não com o intuito de ser publicada, mas sim com a intenção de limpar a minha própria alma de qualquer sombra de remorso de que possa vir a sofrer. Não que eu tenha perpetrado alguma espécie de acto condenável pelas justiças ou pelas morais, mas acontece que presenciei algo de incrivelmente extraordinário e o meu espírito não sossegará enquanto for o único na posse desse conhecimento. Então, quem melhor do que o director de um jornal para descortinar se a população merece ou não saber o que se passou no dia 26 de Junho na vila de S.? Entrego-lhe a si, de boa vontade, esse fardo.

Todos os acontecimentos presentes neste relato foram testemunhados por mim e apenas por mim, não havendo qualquer forma de comprovar a veracidade dos mesmos.

Há loucos em todo o lado. Qualquer aldeia que se preze tem a sua quota de alienados, paranóicos, obsessivos ou simplesmente maluquinhos de algibeira. Ora, e S. é uma vila que se preza. Um desses loucos em particular, L., um individuo aí de um metro e noventa, ombros larguíssimos e um pescoço taurino – um verdadeiro colosso apesar da idade avançada – costumava parar muito num pequeno jardim público que há nas traseiras da minha casa. Ficava lá horas, de pé, fitando o infinito, fazendo caretas e esgares estranhos a criaturas ocultas no próprio ar; sem dizer uma palavra a não ser um cumprimento a alguém que passava. Não ficava lá dia e noite, entenda-se, apenas umas horas, afinal de contas não era assim tão louco.

Aconteceu que, sem que ninguém reparasse, o número de pardais que estabeleceram aquartelamento naquela meia dúzia de plátanos velhos duplicou. Triplicou. Quadruplicou, credo, quintuplicou! Imagino que foram chegando, primeiro um casal forasteiro, depois outro, umas ninhadas, mais um casal de fora, e assim adiante. Mas a verdade, seja o que for que tenha acontecido, é que começaram a incomodar bastante. Não eram só os dejectos e o cheiro persistente a galinheiro, o pior era mesmo o chilrear. Ensurdecedor, quase demoníaco. Bem se vê que o jardim onde isto aconteceu é precisamente o mesmo jardim onde o nosso amigo L. costumava vaguear. Se a vinda dos pássaros estava relacionada com a presença de L. naquele jardim é algo para o qual não tenho uma resposta concreta, apenas conjecturas.

Ora, nós, todos os habitantes das casas contíguas e próximas ao tal jardim, queixámos-nos às entidades competentes, às incompetentes e até a nós mesmos sobre a situação. Estava a ultrapassar quaisquer limites do tolerável e olhe que somos bastante tolerantes. Bem, acontece que L. ouvia as nossas conversas e chegava a participar numa ou outra, porém a opinião dele era pouco tida em conta, ainda para mais sendo uma opinião contrária à nossa. Dizia que aqueles pardais, não propriamente aqueles, mas os seus ancestrais, habitavam aqueles plátanos desde o tempo em que não haviam ali casas, nem homens, nem gatos, que tinham fugido dali há muitos anos por causa de uma catástrofe qualquer, e que agora que tinham regressado a casa não podiam ser despachados assim de uma maneira qualquer para outro lado. Imagine as caras dos seus interlocutores. Desataram a rir e inclusivamente o insultaram por estar a brincar com o sossego das pessoas, essa coisa de extrema seriedade.

E eis que nós, os que verdadeiramente sofríamos com o suposto regresso a casa da pardalagem pródiga, nos fartámos de esperar por qualquer atitude colaborativa das autoridades e tomámos a tarefa de resolver o problema definitivamente entre mãos. A minha garagem era a base de operações. Uns sacos de milho, alguém trouxe dois frascos de veneno para ratos e tudo muito bem misturado num grande alguidar. Alguns pombos também sofreriam, mas no geral os cuidados a ter para prevenir algum acidente estavam a ser tomados e somente aqueles pardais deveriam ser atingidos.

Decidimos avançar com a nossa Solução Final na terça-feira, dia 26 de Junho, pela calada da noite. No dia 25, estava eu a chegar a casa vindo do trabalho quando fui abordado por L.

– Arranja-me um cigarro, se fizer favor? – perguntou.

– Claro, toma – dei-lho e acendi-lho.

– Sabe, amanhã os pássaro já não incomodarão ninguém – disse, de sorriso nos lábios.

– Pois não. Nós estamos a tratar disso

– Não está não. Você quer matá-los. Eu é que tratei disso que lhes arranjei um lugar melhor, não muito longe daqui e sem gente estúpida que não gosta deles – disse-me com ar admoestador.

– Olhe, então vá com eles e divirta-se – respondi eu meio irritado, meio com receio de que um daqueles braços investisse direito ao meu queixo.

Isto passou-se, bem como o resto do dia, sem mais sobressaltos. Era já quase alvorada quando alguma coisa me fez despertar do sono. A passarada começava a acordar e ouvia-se um chilrear tímido. Mas havia qualquer coisa de errado com o som. Não era o habitual piar de alguns pardais madrugadores a saudar a matina. Não, era diferente. Mais profundo. Parecia que todos os pardais estavam a piar ritmadamente em uníssono. A simples ideia fez-me levantar da cama e espreitar pela janela. Nunca estaria, nem sei se alguma vez estarei, preparado para o que vi. L., no meio do jardim, de braços abertos, rodeado pelo enorme bando de pardais a voar em espiral. A dita espiral começou a ficar mais apertada e o chilrear ritmado mais acelerado. E mais apertada, e mais acelerado. L. de olhos fechados e sorriso beatífico a cobrir-lhe a cara. E mais apertada e mais acelerado. Até que deixei de ver L. no meio da caótica nuvem de pardais enlouquecidos. O som já não era ritmado, era um zumbido constante, uno. Acto contínuo, a massa de aves subiu no ar, sempre compacta, e no lugar onde estava L. não estava agora nada.

Penso que desmaiei porque acordei no chão próximo da janela. Não fui trabalhar nesse dia. Fiquei enroscado na cama, sem beber nem comer, com a mente e o espírito numa luta acesa sobre a possibilidade de ter testemunhado o que testemunhei, ou possibilidade de ter sido tudo um simples sonho. O único facto, além dos já relatos, que é digno de nota é que L. nunca mais foi visto na vila de S. desde a madrugada de dia 26 de Junho. Ninguém sabe dele, nem a família, nem os transeuntes que o cumprimentavam e alimentavam o seu vício do tabaco, nem a polícia, nem a guarda, nem nenhum hospital das redondezas. Só eu tenho a última pista para o seu desaparecimento e parece-me tão extraordinariamente incrível que tenho vergonha de a contar abertamente a quem quer que seja. Já o jardinzinho que dá para as traseiras da minha casa está mais sossegado que um cemitério. Nem um pio se ouve, nem um restolhar de folhas: parece que todo o jardim está triste pelo êxodo da passarada. Pelo menos dorme-se bem agora.

Eu sei o que vi. Se foi efectivamente isso que aconteceu, já não posso responder com tanta certeza.

Assim, deixo-lhe esta narração dos factos na primeira pessoa e assumo a sua veracidade sob meu compromisso de honra. Faça dela o que entender.

Sem mais assunto,

Com os melhores cumprimentos,

M.

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2 pensamentos sobre “Carta a um jornal

  1. Genial!! Eu diria que a quantidade de “estupó facientes” consumida, provavelmente, foi um tanto ou quanto exagerada!! Mas, contudo, deixaste-me a pensar!! É que conheço alguém na minha terra, que possivelmente tem esses poderes mágicos. Consigo ver e rever alguém, cuja aparência, tanto revela quantidades enormes de brutidade como revela enormes quantidades de sossego e de calma. Arepia só de pensar nisso!! A sério que arepia!! Ai se eu sonho que a pessoa pode ser a mesma!!

  2. Muito obrigado. Estupófacientes e criaturas com poderes mágicos? Não me digas que és foste tu que escreveste a carta!

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