(Sem título)

Quando cheguei a Cidade estava de cenho franzido. Aborrecida, cansada, mas não zangada. Nunca zangada. Uma camada de nuvens baixas reflectia uma pálida luz alaranjada. Humanos, poucos, passeavam-se pela rua indolente olhando displicentemente para as montras gradeadas. Pequenos grupos de novos estudantes acusavam já o estupor alcoólico. Passei por eles indiferente e eles retribuíram. Chegado a casa, quase minha de tão à vontade que estou, sentei-me na varanda e fumei. Senti-me sozinho. Percorri a lista telefónica em busca de um alvo que me pudesse proporcionar algum contacto humano. Desisti. Seria inútil. Aproveitei a melancolia. Sinto-me sempre assim, sozinho, mesmo estando acompanhado, às primeiras horas que estou na Cidade. Como se o meu espírito se estivesse a ambientar a outro mundo. Como se tivesse entrado num lago demasiado fresco.

No dia seguinte tudo muda. A Cidade ilumina-se: usa a luz do Sol como nenhuma outra. O trânsito, as pessoas, os edifícios – até mesmo os mais cambaleantes – tudo pulsa de energia. Eu vou na corrente, claro. Como se o meu espírito quisesse fazer, ou fizesse já, parte daquela colossal amálgama. Como se, depois de mergulhar num lago demasiado fresco, fosse obrigado a nadar freneticamente ou a sair para a confortável margem. Mas agora não é altura de sair, por isso nado sem saber se haverá algo na outra margem. Nunca saberei até lá chegar.

Nado.

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