Das 9 às 5.

Li há uns anos uma entrevista a Nick Cave aquando uma visita que fez a este rectângulozito campestre. Dizia, entre outras coisas, que não conseguia trabalhar em casa, que havia muitas distracções, que não conseguia atingir o nível de alienação – ou concentração, se preferir – que lhe permitisse escrever ou compor o que queria como queria. Dizia basicamente que a sua autodisciplina era uma merda. Então tomou medidas extremas: arrendou um pequeno escritório a uns quarteirões da sua casa. Saía para a rua todos os dias, de segunda a sexta, às 8.30 da manhã, percorria o caminho todo a pé e entrava no escritório precisamente às 9 horas de café em punho. Depois fazia o que achasse necessário para se inspirar, desde ouvir música a dormir. Havia vezes em que a simples caminhada casa-trabalho era o suficiente para um dia de escrita ou composição desenfreada.

Nada de escritor insone, atormentado, deprimido, como parece ser; nada de compositor louco, diabólico, etílico, como se diz que é. Nada disso. É tão simples que assusta. Como se Nick Cave, a verdadeira bad seed, fosse um simples funcionário público, das nove às cinco, não levando trabalho para casa, controlando o melhor possível o intrincado processo criativo domesticando-o absolutamente.

Não sei se é coisa só ao alcance de alguns, mas quando for grande quero ser assim também.

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