Do Outro Lado da Cortina – Um Testemunho

Podia jurar que dormitei apenas por uns segundos em frente ao computador. Durante esse tempo a minha alma decerto se tresmalhou, ou aconteceu outra coisa qualquer que ultrapassa grandemente a minha compreensão e mesmo a minha imaginação. Acordei, olhei para o monitor e o meu coração parou. Onde dantes estava um extenso texto sobre as propriedades piezoeléctricas do mineral quartzo estava agora outra coisa completamente diferente. Não sei o que verdadeiramente se passou, arrepiam-me até ao tutano a diversas possibilidades, mas não posso deixar de reproduzir o texto que escrevi enquanto não era eu.

* * *

Não me lembro de como aconteceu tal como nunca nos lembramos de como começa um sonho. De repente estamos ali, assim como eu estou aqui, nus perante o Universo. E estou mesmo aqui em pelota, ainda que ninguém me veja, oiça ou cheire. Apenas espírito e intelecto.

Agora tudo me parece mais vivo, os cheiros, os sons, as cores, as pessoas, o Mundo, tudo vibra de energia pulsante, vejo-o nitidamente. Uma coisa que em vida, seria apenas uma ideia, uma teoria, uma reflexão sobre a unicidade de todo o Universo, sobre como tudo é composto pelos mesmos blocos de construção, é agora um facto inegável. Mesmo para um vulgar mortal não será algo fora do alcance da sua compreensão, o facto de eu agora finalmente VER. Ora, se sou algo invisível é porque estou num estado energético fora do espectro da luz visível, e assim sendo todos os meus sentidos têm também acesso a espectros físicos e químicos que antes me estavam vedados. É uma teoria que desenvolvi quando percebi onde estava, já que deste lado não há nenhum Morgan Freeman para nos explicar como funciona isto. Porquê o Morgan Freeman? Não sei, talvez pelo seu ar professoral, talvez por parecer mais velho que o Mundo. Bem, dizia que não há nada nem ninguém que nos explique o funcionamento das coisas deste lado. É cada um por si.

Primeiro os sentidos ofuscam-nos e confundem-se – chegamos a saborear as cores e a ver o chilrear da passarada -, depois habituamos-nos a esse bombardeio caótico e subitamente tudo fica calmo e silencioso. O espírito adapta-se. Depois surgem algumas recordações desconexas de vidas passadas e de repente sabemos onde estamos e o que somos. O que fazemos daí para a frente depende de cada um. Uns não aceitam, outros revoltam-se; há os que tentam negociar um possível regresso junto de outros espíritos mais velhos e trapaceiros; ainda há os que passarão a eternidade a chorar o que perderam e depois há os que como eu aceitam o que lhes aconteceu como uma inevitabilidade. Lembro-me, ainda era eu uma criatura corpórea, do meu pragmatismo em relação à morte, Lembro-me de nunca conseguir chorar sinceramente em funerais, mesmo das pessoas mais próximas e lembro-me do que dizia ou pensava cada vez que alguém me morria: se nasceu, a morte seria apenas uma questão de tempo.

As cores que nunca tinha visto! Há cores que os vivos nem sonham que existem. Mas como podem eles saber como é uma cor que os seus olhos não podem ver? Nem sequer há palavras que lhes possam fazer justiça. Fosse eu Shakespeare, Hemingway, Pessoa ou Camões e decerto me veria à rasca se tentasse descrevê-las. Sendo apenas eu, nem sequer tento. E os sons? Sabiam que as almas humanas, mesmo as vivas, sobretudo as vivas, cantarolam enquanto se passeiam pelo Mundo? E não cantarolam só Mozart ou Beethoven, conhecidos bardos dos deuses, não senhor. Cantarolam aquilo que lhes remexe o fundo do seu poço reflectindo o estado de espírito do… bem, o estado de espírito do espírito. Podemos ver, se estivermos bem mortos claro, um executivo superiormente vestido, de olhar penetrante, cuja alma assobia uma conhecida música popular no meu tempo de vivo, plena de brejeirice e mau gosto. Ou um filósofo, um homem de alto gabarito intelectual, todo aperaltado diante de uma plateia de estudantes, com algo dentro dele grunhindo sonoramente versos de uma música de heavy metal dedicada ao culto a Lúcifer.

No mundo das coisas vivas nada, mas nada mesmo, é o que parece.

Estou morto e irei continuar assim até que os insondáveis mecanismos que controlam este esquema universal de vida/morte decidam que já não pertenço aqui. Entretanto, não tenho quaisquer ilusões respeitantes a este estado de graça em que estou. Acredito que esta plenitude, esta paz, passe gradualmente porque nada dura para sempre e é bem sabido que o espírito humano é um eterno insatisfeito. O que restará a uma alma que já viu todas as cores, ouviu todos os sons, sentiu todas as texturas, cheirou todos os cheiros e saboreou todos os paladares?

Já a sinto agora a subir-me sub-repticiamente ao coração. A insaciedade.

Mas por enquanto, estar morto não é assim tão mau.

* * *

Nota: ilustração a cargo de Francisco Goya. É clicar para apreciar

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