A Rapariga do Cabelo Estranho

A menina apertou as mãos contra o peito e não conteve um esboço de sorriso que ninguém viu. A mãe, assustada, escondeu-a atrás das costas, consciente da inutilidade daquele acto. Já se ouviam os passos sincronizados, uma tenebrosa marcha vinda da penumbrenta álea de velhos eucaliptos plantados por alguém já caído no oblívio. A turba aproximava-se furiosa. Vinham pela menina e sabe Deus o que lhe fariam aquelas gentes rudes e ígnaras do campo.

Mãe e filha tinham ido viver para aquela quinta decrépita quase no fim do mundo civilizado à procura de alguma privacidade, para passarem ambas despercebidas, para não acontecer precisamente o que estava a acontecer agora. Algo tinha corrido incrivelmente mal. Aparentemente não havia nada errado com aquela pequena criatura que a progenitora protegia. Era bonita, como qualquer criança de 5 anos cuja genealogia havia sido generosa em beleza. O primeiro arrepio vinha quando se lhe olhava bem nos olhos. Uns olhos verde-mar plenos de meiguice escondiam no seu âmago uma inteligência profunda, tão profunda como as raízes daqueles eucaliptos, uma inteligência que não podia ser quantificada nem descrita. Porém, o verdadeiro susto vinha quando tirava o lenço que lhe cobria a cabeça durante o dia. O seu cabelo, curto mas feminino, liso e sedoso, era branco como a neve. Tinha nascido assim e assim tinha ficado sempre, por mais mézinhas e receitas que fossem usadas para lhe ocultar tamanha deformidade. Todavia não era só o aspecto exótico da criança. Circulavam também inúmeros boatos sobre acontecimentos estranhos nas imediações da quinta, luzes, gritos, dizia-se até que tinham visto a pequena a desmembrar uma ovelha que havia aparecido morta. Soube-se depois que andava uma alcateia faminta nas redondezas mas nem isso apagou as suspeitas de que se passava algo muito estranho com aquela menina.

Tudo se precipitou numa solarenga manhã de Janeiro. A menina tinha ido brincar junto de um pequeno lago congelado perto da sua quinta com o cão Julião, o seu maior amigo. O que verdadeiramente aconteceu no lago é um mistério, mas deu-se que a menina chegou a casa completamente encharcada e com o Julião, também ele encharcado em água gelada, morto ao colo. Nesse mesmo momento um grupo de rapazes entrou a correr na aldeia em pânico, aos gritos, balbuciando coisas como “ela matou o Jaime”. Daí até encontrarem o corpo congelado do Jaime e juntarem uma mole linchadora foi um instante.

E lá estava a mãe a proteger a sua cria de uma aldeia ansiosa por ver o sangue do seu sangue correr pela álea de eucaliptos. “Vai tudo correr bem, não saias daqui”, disse por entre soluços nervosos. “Claro que vai mãe, claro que vai” respondeu a pequena. A mãe não podia saber, mas a filha imaginou o primeiro homem da massa humana furibunda a explodir em chamas, os olhos a derreterem, os membros a desfazerem-se e a cair em cinzas incandescentes. Depois imaginou o mesmo para o segundo e para o terceiro. Depois imaginou uma onda de fogo que se levantava de uma lanterna e os engolia a todos. Imaginou eucaliptos a cair e a alimentar a fogueira. Sombras em agonia num mar de labaredas dançantes.

A mãe, petrificada, com as mãos afastando da cara o calor abrasador, não podia acreditar no que os seus olhos viam.

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