O Pentagrama e a Queda de Khalant

Na igreja de S. Pedro, que coroa a elevação do castelo de Arraiolos, existe um estranho marco em pedra aparentada com granito ostentando um pentagrama em alto relevo. O modo como a dita pedra está colocada sugere a existência de um túmulo, coisa que não existe, segundo as pesquisas arqueológicas na área, e que não foram poucas. O porquê da existência de um símbolo pagão na parede de um templo cristão foi algo que sempre me intrigou. Procurei durante muito tempo uma explicação para a existência de tal objecto e nunca obtive qualquer pista satisfatória. Gente douta no assunto limitava-se a encolher os ombros e a discorrer sobre os diversos povoados que ali tinham existido, sobre o templo romano que a cristã igreja fora outrora, mas nada concreto, nada factual sobre o estranho marco.

Aconteceu que tropecei quase literalmente em algo que, além de explicar a existência do enigmático pentagrama, me abriu as portas para um mundo de verdadeiro assombro. Acreditando, claro, que o livro que tenho entre mãos seja de facto um relato de acontecimentos reais e não algo saído de uma laboriosa imaginação. Em favor do realismo do livro abona a referência ao já citado símbolo, bem como uma série de outros factos, localizações e datas que me serviram de guia no desvendar deste mistério. O livro chama-se O Fim dos Tempos e a Aurora do Homem e supostamente é uma colectânea de vários registos de épocas há muito desaparecidas da memória da Humanidade. Será quase escusado dizer que encontrei esse livro num alfarrabista, uma edição de 1852, editada e revista por um individuo chamado Thomas M. Gebber.

Não é demais ressalvar o possível carácter fantasioso do que irá ler daqui para frente. Relembro que tirei todas as informações e demais citações transcritas de um livro bem real; todavia não posso de forma alguma assegurar que o que está escrito no dito livro tenha realmente acontecido. E, mesmo correndo o risco de passar por tolinho de rua, penso que a natureza peculiar dos relatos faz com que mereçam ver a luz do dia, pois não acredito que a chama da imaginação tenha sumido totalmente do espírito dos homens.

Comecemos com um trecho das “Crónicas de Arkobose, o Atlante”. A tradução do sumério nativo foi feita integralmente por mim e posteriormente revista por outras individualidades de maior gabarito na área. As palavras entre parênteses rectos não possuem qualquer tradução para o sumério conhecido podendo assim pertencer ao léxico de outras línguas mais obscuras e esquecidas. Apesar do seu significado poder ser deduzido, preferi não o fazer para bem do interesse na narrativa.

Khalant era um jovem [amlug] magnífico. As suas escamas apresentavam ainda resquícios da iridescência característica da infância, mas o seu corpo era todo ele músculo e brutalidade. Os chifres e demais protuberâncias ósseas eram de um marfim negro tão reluzente que só encontrava rival no seu pai, o Grande Y Ddraig Goch, e do seu [thûl] dizia-se que era mais abrasador que qualquer labareda criada por homem ou deus. A sua [nîth] não o tinha impedido de bater um dos filhos de Sirrush, o Babilónio, e herdar o seu território no sudoeste da região de [Earop]. Jovem, portentoso, pleno de coragem, Khalant estaria decerto destinado a grandes feitos, não tivesse nascido ele num [ardh] em franca mudança. O Homem estava agora a tomar as rédeas do seu próprio destino e [Ardhon] não era mais lugar para [amlugs] nem [ithrons].

O relato continua depois num registo mais activo, contando como um grupo de feredir (suponho que “caçadores”) encontrou o covil de Khalant num vulcão situado num aglomerado de pequenas ilhas (presumivelmente Açores) e que aí começou a perseguição. Perseguição essa que havia de durar meses pelos territórios continentais e que havia de terminar no Inverno de 3286 A. C., num bosque trinta léguas a este do Atlântico. Como se desenrolou a perseguição e como um punhado de homens conseguiu enfraquecer a criatura é algo que está implícito no relato; é também algo sobre o qual a minha imaginação não consegue derramar luz alguma. Já a possível natureza da criatura não representa para mim qualquer dúvida, mas a simples menção desse substantivo poderá tirar qualquer réstia de seriedade a esta história.

Arkobose conta-nos através de imensos pormenores, praticamente incompreensíveis para os homens de hoje, como finalmente o grupo de feredir, em especial o feiticeiro Ibn Hayyan, conseguiu encurralar Khalant, adormecê-lo e prendê-lo numa jaula feita da rocha que jazia debaixo de seus pés. No cume da elevação artificial assim criada foi erigido um pequeno altar, composto entre outras coisas por um cubo talhado numa pedra

“trazida de [bar menel] e nela foram gravados os seis sagrados pentáculos, e nela foi derramado o flamejante sangue do coração do [ithron], e em volta dela seis irmãos recitaram os poderosos versos de Theofrastus”

Pelo que se percebe do registo a criatura jamais acordará e libertará enquanto o selo se mantiver no seu lugar. De facto ainda lá está. Uma pequena pedra clara em completo contraste com o xisto escuro na sua base. O pentagrama esculpido, gasto pelo tempo. Apenas uma misteriosa face espreitando na parede da velha igreja. Não consigo imaginar que espécie de temor ou reverência levou a que ninguém lhe tocasse durante tantos séculos.

E a verdade é que, considerando isto tudo fantasia ou realidade, nunca mais olharei para aquele enigmático símbolo de ânimo leve.

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4 pensamentos sobre “O Pentagrama e a Queda de Khalant

  1. E quem lhe disse que haverá, ein? Mas pode esperar à vontade. Miúdas giras em salas de espera são sempre bem-vindas.

  2. A história não deixa de ter piada. Agora, seres com cornos de marfim negro?! Fantasia. E eu gosto disso, por acaso.
    Se visse esse pentagrama e depois fizesse a leitura do livro, ia ficar completamente babado e a imaginar a cena toda. Depois, o pragmatismo iria invadir-me e acabaria com um «meh!».

    Já de agora, qual o nome em inglês do livro?

  3. Não contes a ninguém, mas tirando o pentagrama e alguns nomes e palavras, foi tudo inventado. Em fantasia temos que deixar o pragmatismo à porta senão esfumam-se todos os Tolkiens, Poes, Lovecrafts e Machens do mundo. E eles não merecem isso. Avé para eles todos!

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