Olghoi-Khorkhoi, o Temível Verme

Não sabe qual é o seu propósito no mundo. A bem da verdade nem sequer sabe o significado da palavra “propósito”. Sabe fazer o que sabe fazer e é muito pouco, mas a verdade é que o pouco que faz fá-lo como ninguém. Acorda de tempos em tempos, sem sequer perceber porquê, deambula pelo seu vasto domínio e enche a pança até cair no profundo sono sem sonhos, um sono que por vezes demora séculos, mas para ela, a verdadeira Senhora das Areias, sabe-lhe sempre a pouco. Acorda sempre a custo, sempre mais sonolenta do que queria; como agora. Estica o seu possante corpo alongando ao máximo do seu comprimento. Sente as vértebras a estalar, sente cada músculo ligado a cada tendão dando sinal de presença. No instante que antecede o total relaxamento muscular solta um rugido inominável que ninguém ouvirá: Olghoi-Khorkhoi em todo o seu esplendor. Tanta magnificência insuspeita debaixo daquelas areias! Soubessem os homens o que verdadeiramente se oculta debaixo da superfície e de tempos a tempos fariam romarias para apreciar o prodigioso acordar da besta. Depois sofreriam uma morte violenta, sem dúvida, mas o preço a pagar pelo vislumbre de tamanha grandeza nunca poderia ser baixo.

Inicia a marcha. Primeiro devagar depois aumentando a velocidade gradualmente, à medida que a pele se acostuma ao toque áspero da rocha solta e os músculos recuperam a sua força original. Um ímpeto, que não saberia explicar mesmo que pudesse falar, fá-la dirigir-se para perto das velhas construções de pedra que, tal como ela própria, fazem da areia vermelha do deserto a sua atmosfera predilecta. Nem sequer imagina que a idade dessas construções é precisamente a mesma que ela tem. A sua própria criação, aliás, está intimamente ligada àquele lugar escondido debaixo de toneladas de areia e pedra rubra. Ela, a poderosa Olghoi-Khorkhoi, nunca teria sido criada se aquele lugar não existisse. Não poderia imaginar, porque criaturas assim não possuem tal virtude, que ela própria fora o último acto de criação de Sanat Kumara nesta Terra; não poderia imaginar que mesmo antes do pródigo filho de Brahma fechar a porta da Cidade Pura lançara à terra uma pequena crisálida que se transformaria na lendária, Olghoi-Khorkhoi, o Temível Verme, o Terror Mongol, a derradeira Senhora do Gobi.

Percebe agora a natureza do impulso que a guiou naquela direcção em particular: movimento à superfície. Algo vivo lá em cima agita a areia como uma pedra num lago. Para ela é tudo tão simples e previsível que quase sente o sabor do sangue quente a escorrer pelas mandíbulas. Antecipa sobretudo o horror no olhar da sua vítima. Porém algo está errado na vibração. É diferente do que está habituada, é demasiado persistente, demasiado rápida, mas também demasiado subtil. Não era algo característico de camelo, cavalo, cabra ou homem. Nem os magníficos exércitos que noutros tempos disputavam barbaramente aquela terra inóspita seriam capazes de criar uma vibração tão peculiar. Avançou ainda mais rápido, curiosa, excitada, colérica. Está perto, muito perto, acelera ao máximo da sua velocidade, perto, tão perto que já não pode parar, mais perto, mesmo por baixo da fonte da vibração, sobe a pique, rápido, mais rápido, mais rápido e… metal retorcido e corpos surpreendidos voam num estrondo colossal. Não era de todo aquilo que esperava. Se os seus criadores não a tivessem feito tão resistente decerto estaria caída ao lado daqueles estranhos objectos que acabou de abalroar. Mas havia ali carne também, sentia o cheiro adocicado no ar. Sangue. Ainda meio atordoada deslizou até um corpo em agonia. Engoliu-o de uma dentada e repetiu o procedimento mais três vezes. Deslizou depois, lenta e provocante, até perto de uma outra criatura que se levantava cambaleante e lhe apontava um cano metálico. Um estrépito e uma ligeira picada abaixo do que seria a sua cabeça fê-la hesitar. Apenas por um fugaz momento, todavia. Escancarou então a mandíbula tripartida revelando as fileiras incontáveis de dentes serrilhados orlando uma boca negra e funda como o Universo. Rugiu tonitruante. O horror na cara da sua vítima. De um salto a luta tinha terminado. Rugiu mais uma vez. Já não era o som atroador do desafio. Era o som atroador da vitória.

Olghoi-Khorkhoi, a Derradeira Guardiã de Shambhala, cumprira mais uma vez a sua razão de ser e a Cidade Prodígio permanecerá inatingível por agora. Mas isso não são preocupações nem pensamentos que acorram ao seu espírito simples. Contenta-se com a pança cheia e com o sono que se avizinha.

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