Balancete 2010 (anno horribilis)

Não sou gajo de fazer balanços nos finais de ano, mas como este 2010 foi terrivelmente atípico, o Departamento de Informação achou por bem abrir uma excepção. Bem sei que este Acto ainda não acabou, mas isto é assim ao jeito dos comentadores desportivos a fazer balanços antes do fim do jogo. Além do mais, gosto de me adiantar ao resto.

Digamos que prefiro que este ano da (des) graça não seja reeditado nem mesmo sendo uma remasterização sopimpa. A bem dizer, seria impossível essa reedição porque o que se perdeu não voltará a ser perdido. Em Janeiro estava tudo quase perfeito. Era um tipo relativamente feliz. Os trabalhos de Desenho continuavam a correr, outras vezes a pingar, mas corriam todavia. Ao lado estava alguém de extrema importância para o meu equilíbrio emocional. Existiam planos futuros, ou pelo menos esboços de planos futuros. Havia alguma estabilidade financeira e emocional, o que é mais do que se pode desejar por estes dias.

O trabalho começou a escassear por razões absurdas e, apesar de um ou outro empurrão, chego ao fim do ano sem nada. O mesmo (e mais um bocadinho) se passou com a outra parte. Uma bomba, algum optimismo, uma luta frenética para descobrir pouco depois a inutilidade dessa luta e desse optimismo, caramba, até a inutilidade dos últimos anos foi posta a descoberto. Uma morte próxima à mistura, o roçar a depressão, a solidão, a inércia, o desespero. Suspiro.

No último quartel do Abominável 2010 a parábola mostrou intenções de inverter o sentido. Ainda não o fez, mas ao menos parou de descer. Está estável, pairando ligeiramente acima do y=-∞, seja lá o que isso for. Reencontrei amigos que por minha culpa, minha tão grande culpa, tinham sido esquecidos e abandonados. Comecei a estrebuchar, comecei a fazer coisas que antes não fazia, comecei a fazer coisas que não sabia ser capaz de fazer, comecei a “criar” outras coisas, a dar vida a coisas que não existiam, comecei a ser eu outra vez. Recomecei a ser eu. Cada vez mais eu. Acho absurdo falar em renascimentos e paulocoelhices do género, mas a verdade é que a minha auto-confiança é outra. Cada dia que passa vejo os meus limites mais longe, e mais longe, e mais longe. Ainda não serei dinamite, como dizia o Nietzsche, mas já serei sem dúvida um punhadito de pólvora.

Em suma, 2010 foi um ano que correu terrivelmente mal, mas sei que podia ter sido bem pior. Deu tudo incrivelmente para o torto, mas estou a lidar com isso, estou vivo e estou aqui, alive an kickin’, como diz o outro. Não sei o que me reservará 2011, nem sequer este último fôlego de 2010, mas ele que venha que eu aqui estou, peito feito e (o pouco) cabelo ao vento.

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9 pensamentos sobre “Balancete 2010 (anno horribilis)

  1. Há uns tempos atrás, depois de passar por uma fase também ela negra, decidi tomar uma abordagem mais monty pythonesca e tento olhar para o lado positivo da vida. Se as tristezas pagassem dívidas, tinha um Bugatti Veyron pago em lágrimas. 😉 E lembra-te, [inserir aqui cliché da tanga], porque [inserir justificação – do cliché – que soa muito bem mas não vale de nada na vida].

    Aposto que o meu comentário desprovido de sentido te motivou mais que as sessões de motivação das empresas que vendem aspiradores. 😉

  2. As minhas tristezas talvez não chegassem para um Veyron, que sou demasiado pragmático, mas sempre quis um Lamborghini Countach (o expoente máximo do design dos 80s) e acho que ainda sobrava algum para alimentar a besta :). E podes crer que o teu comentário foi devidamente anotado. Ando a tirar um “cursinho” de Marketing e Merchandising e tenho que concordar contigo.

  3. Ahahah! Também não foi isso que eu queria dizer, caraças. A verdade é que as minhas tristezas são relativas… Mas bem, não serão todas? Enfim… Keep on rollin’, como diz de vez em quando o Fred Durst.

  4. Oh pelamordedeus, se não fores tu a usar estas caixas de comentários ninguém as usa… Não fazem muito bem à memória, não, mas também quem precisa disso afinal? Certa vez a mãe de um amigo meu, ambos com uma certa idade, apesar de diferente, claro, dizia-lhe que estava cada vez mais esquecida mas que nunca se tinha sentido tão livre.;)

  5. Bom, se precisares de um “sidekick” é só dizer. Não tenho grande memória, mas faço umas tostas mistas que são de chorar por mais. A única exigência que faço é não vestir nada de lycra.

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