Da problemática “e se tivesse…”

Não há sentimento mais ominoso que a dúvida. Mesmo quando sabemos que fizemos a coisa certa, a mais correctíssima de todas, acima do que qualquer mortal nos tempos correntes classificaria como plausível, o fardo persiste. E pesa como o raio. Deveria ter feito isto? e se tivesse feito aquilo? e se tivesse dito assado? No fundo são questões sem importância alguma no contínuo espaço-tempo, exceptuando para a criatura que criou esse vórtice de frustração, para quem esse contínuo não existe. Quem carrega a dúvida não segue em frente: em vez disso fica preso nos momentos em que acredita que poderia ter mudado o curso do Universo. Se tivesse feito aquilo e dito assado ou cozido, o tal vórtice girava no sentido inverso e as marteladas na cabeça prender-se-iam com a questão “porque não fui eu mesmo?”. Portanto, faça o que fizer, mantenha-se fiel a sim mesmo. Poderá arrepender-se de ter dito sim em vez de não, ou vice-versa, mas terá sempre o consolo de ter feito a sua opção. Esse consolo, a bem da verdade, não lhe valerá de muito, mas o Universo permanecerá no seu lugar e você também. Quanto ao fardo da dúvida a coisa é simples de resolver: arranje um burro que o carregue ou um que o coma sofregamente. Se todavia não conseguir arranjar nenhum equídeo – deus sabe como rareiam – pode sempre tornar-se vegetariano e apreciar o pitéu; mas perceba acima de tudo que os fardos não são para carregar. São para engolir. Tal como os sapos.

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