Todos querem ser Tyler Durden (ou ter um)

“Aviso: Se está lendo isto, então isto é para você. Cada segundo perdido lendo este texto inútil é outro segundo a menos na sua vida. Não tem outras coisas para fazer? A sua vida é tão vazia que você honestamente não consegue pensar numa maneira melhor de a viver? Ou você fica tão impressionado com a autoridade que respeita e acredita em todos os que a reclamam? Você lê tudo o que deveria ler? Você pensa tudo o que deveria pensar? Compra tudo o que lhe dizem para comprar? Saia do seu apartamento. Encontre alguém do sexo oposto. Pare de comprar tanto e de se masturbar tanto. Despeça-se do seu emprego. Comece uma briga. Prove que está vivo. Se não afirmar o seu lado humano você se tornará apenas estatística. Você foi avisado.”

O título deste post é só por si um dos maiores clichés do século XXI. Tal como esta afirmação aqui atrás, mas pronto. A vida no século XXI é pouco mais que um desfile interminável de clichés e Tyler Durden é a bomba de hidrogénio, é o meteoro mortal, é o apocalipse zombie, que chuta esses clichés para canto e ainda ganha pontapé de baliza. Tyler Durden é o Nazareno deste século. É o que todos queríamos ser mas não podemos; e o mais engraçado é que nem sabemos porque não podemos ser Tyler Durden.

Não é um maníaco egocêntrico, mas é sem dúvida um maníaco. As intenções dele são as melhores do mundo: salvar a humanidade do esgoto espiritual em que se conseguiu enfiar. A cena em que Durden ameaça de morte um jovem se ele não voltar a perseguir o sonho da sua vida é o exemplo perfeito da heterodoxia da personagem – e não é por acaso. Só quando perdes tudo é que és verdadeiramente livre. Só quando atinges o fundo podes aspirar a realizar todo o teu potencial. Não colando nesta filosofia nenhuma etiqueta, até que é algo a que se devia prestar atenção. Porque se prestarmos mesmo atenção talvez percebamos que não é preciso chegar mesmo ao fundo ou perder tudo para sermos nós. Muito menos será necessário sofrer de insónia ao ponto de criarmos um alter-ego completamente louco, mesmo que seja o Brad Pitt.

Tyler Durden sabe umas coisas. E não me refiro aos conhecimentos sobre construção de bombas caseiras nem ao fabrico dos melhores sabonetes da cidade. Tyler Durden sabe umas merdas mas nunca leu um livro – quem o fez foi a personagem de Edward Norton, o narrador sem nome. E fará assim tanta falta acomodar tanto conhecimento no sótão, pergunto eu. Quantas vezes por dia vai ao seu sótão? Repare que estou a falar em livros, mas podia estar a falar em televisão; é só trocar “conhecimento” por “lixo” e “sótão” por “cave”. Tudo bem, os conhecimentos técnicos sobre a mistura de glicerina com ácido nítrico teriam obrigatoriamente de sair de algum lado, mas será assim tão importante lermos Kafka, Poe, Hemingway, Sartre ou Stendhal? (pode pensar em qualquer autor e colocá-lo na lista) A resposta é um enorme e redondíssimo não. Qualquer livro que leia, apesar do que lhe possa parecer, não foi escrito para si, foi escrito para masturbação ou auto-mutilação do autor; aquilo estava ali dentro dele e tinha de sair de qualquer forma. Qualquer livro que leia, qualquer filosofia que aprenda, qualquer história fantástica que lhe contem, lembre-se que também é capaz disso, e provavelmente de melhor, se for você próprio a pensar nos mesmos assuntos durante o tempo certo e sem os fúteis fardos da Era da Desinformação. Tenha calma, senhor, bem sei que Tyler não pretendia nada disto, ele queria mesmo era rebentar coisas e de caminho colocar o Homem de volta nos seus eixos. Então suponhamos que Tyler é Jesus e isto é um dos Evangelhos. Percebeu o paralelismo? Não? Óptimo.

A humanidade, presa constante do seu fascínio por metais brilhantes, é tão burra que dá dó. É tão burra como isto: os Babilónios há 5.000 já conseguiam criar electricidade a partir de vinagre e de cobre. Como não aperfeiçoaram essa descoberta é coisa que escapa a qualquer historiador, mas só pode ter sido por pura estupidez. Jesus de Nazaré poderia ter nascido numa manjedoura iluminada com luz LED e tomado o primeiro banho com água aquecida por painéis solares. Já pensou nisto? Claro que não. Nem eu, até agora. Somos ambos parte da Humanidade, essa corja sem o mínimo sentido de si própria, portanto não é de estranhar.

E como sugiro eu, francisco-espertinho de algibeira, que saíamos deste atoleiro, pergunta o empertigado leitor? Imagino-o de mãos na anca indignado ou de braços cruzados curioso. A resposta é simples: eu não sugiro nada. Escrever isto, mesmo co-adjuvado por Tyler Durden, já vai contra a essência da coisa. Devia ser você a perceber isto. Devia ser você e cada um dos outros bezerros da Manada a pensarem nisto, porque não sou eu de certeza que vou implantar estas coisinhas na cabeça de cada um dos 7.000.000.000 de cabrões no mundo.

Ler isto não o ajudará em nada. Perceber isto talvez.

“Tu não és o teu emprego.Tu não és o teu dinheiro no banco. Tu não és o teu carro. Tu não és o conteúdo da tua carteira. Tu não és a porcaria das tuas calças caqui. Tu és a merda ambulante do mundo.”

* * *

Feliz Ano Novo. Sirva-se dos abraços e beijos que quiser. Há entregas ao domicílio mediante requisição prévia.

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