O Génio do Tecto

Aquilo saiu do tecto como se se tratasse de uma bolha enorme. Caiu no chão e depressa adquiriu uma distinta forma humanóide. Eu estava atónito, colado às costas da cadeira, boquiaberto. Aquilo dirigiu-se a mim pavoneando-se qual Travolta em miniatura. «Porquê essa cara de espanto? Não sabes quem eu sou?» perguntou-me. Não fui capaz de devolver qualquer resposta inteligível.

De um salto sentou-se na minha secretária e começou a enrolar um cigarro dos meus. Acendeu-o e finalmente consegui abandonar os monossílabos: «Não, não sei quem és, nem muito menos o que és. E não podes fumar aqui, desculpa». «Claro que não sabes. Nunca ouves o que te digo. Ou melhor, ouves mas não escutas. Tens um ouvido sensível mas uma cabeça muito dura. Mas passemos às apresentações: eu sou tu. Fecha a boca pá. Até parece que não estavas à espera disto. ‘Tás a ver o consciente e o subconsciente? Pois eu não sou uma coisa nem outra. Sou uma espécie de secretário que tem acesso às outras partes mas o meu trabalho não tem a ver com nenhuma das duas especificamente. Sou o que poderias chamar Gestor do Departamento Criativo. Sou eu que faço as tuas piadas soarem melhor, sou eu que crio a faísca de uma história: aquele momento em que tu pensas “caraças, isto dava uma coisa engraçada”, até sou eu que te obrigo a aprenderes mais sobre aquela treta das casas em 3D ou lá o que é. Sou sempre eu, sempre fui, e quando não me deixas intervir – parecendo que não só tu me podes dar autorização para entrar em cena – sai-te tudo mal. Por isso é que estou aqui», claro que apesar da minha advertência continuava a fumar e a atirar a cinza para o chão. Acendeu outro cigarro e continuou sustendo o fumo «‘Tou aqui porque tu és um burro que dás dó. Não é para me gabar, mas entre os gajos da minha espécie sou dos mais porreiros que se consegue arranjar, mas tens que me ajudar, pá. Se não sabes falar comigo e ao mesmo tempo não me ouves estamos lixados. Eu porque desperdicei um turno sem criar nada decente e tu porque desperdiçaste um bom Génio, percebes?»

«Acho que sim», respondi, «É isso que tu és, um génio? Pensava que concediam desejos e não que… Que faziam o que dizes que fazes» Riu-se a bom rir. «E não é a mesma coisa, meu paspalho? Se o teu desejo é escrever histórias eu ajudo-te, trago-te ideias, mostro-te caminhos, digo-te se fica melhor assim ou assado. Se quisesses vender carros ou fazer bolos fazia exactamente o mesmo: ajudava-te. Claro que também tenho os meus dia ‘não’, mas regra geral compenso com os dias ‘sim’, só tens de conseguir falar comigo, perceber como funciona esta coisa toda, e eu não te posso explicar isso porque faz parte do teu processo de construção», «Mas se estás aqui a falar comigo é porque alguma coisa hei-de perceber sobre comunicação com Génios, não?», disse-lhe eu, convicto de ter apanhado a criatura em contra-pé. «Eu não digo?» continuou, indignado, «És burro como o raio que te parta! Eu não estou aqui porque tu queres que eu esteja, ou porque percebes alguma coisa de falar com Génios. Eu estou aqui para te puxar as orelhas porque eu quero.  Eu estou aqui porque quebrei todas as regras para te dizer que tens que te esforçar mais, que nenhum dos dois conseguirá nada sozinho, porque a bem da verdade acredito em ti. Mas não é só isso, ainda há mais. Tu achas que sabes como tudo funciona. Olhas muito para o infinito mas não o vês! Dizes que gostas muito do fantástico e não sei quê mas enquanto o tratares como fantástico não verás a realidade que existe nele. Tu mesmo o disseste no outro dia sem perceber a dimensão das tuas próprias palavras: “o que é a realidade se não a coisa mais subjectiva do mundo?”»

O quarto cigarro apagou-se e começou a ser sugado para cima, de volta ao buraco que deixou no tecto. «Bom, ‘tou no ir. Já te disse o que tinha a dizer. Ou te orientas ou ‘tás lixado. ‘Tamos lixados, vá. E vê se percebes que não estou a falar de boémia e mulheres, estou a falar da coisa mais importante do universo: nós!» e como se um aspirador industrial o sugasse, ele lá foi, o meu Génio, ou seja lá o que for que me cravou quatro cigarros e me deixou o escritório que nem um salão de bilhar do século XIX.

5 pensamentos sobre “O Génio do Tecto

  1. Caramba, tenho uma infestação de iniciais na caixa de comentários!

    Sejam bem-vindas, ainda assim. Ainda bem que gostaram.

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