A Reeleição e o Presidente Honesto

O dia da eleição chegou. A população exultava; votar era giro. Como se não bastasse ser um domingo, o dia do pavoneio por excelência, ainda estava um radioso dia de sol. Era tudo brilho e glamour: a melhores peles sintéticas saíram finalmente do armário para fazer companhia às melhores gravatas, aos melhores lenços, aos melhores blazers, aos melhores chapéus e à melhor maquilhagem que o mercado oriental conseguia proporcionar. Cortesias diversas e exageradas eram distribuídas a quem nem sequer um olhar merecia numa terça-feira comum, Boa tarde, como está sôtor?, Muito bem, obrigado senhor engenheiro, e essa saúdinha como vai?, Mas que fabulosa écharpe, minha cara, está esplendorosa, já votou? Oh, mas é claro que sim, minha querida, desde os 18 anos que nem penso noutra coisa, sabe?

As atenções, claro está, viravam-se para o Presidente. Lentes de câmaras de filmar e de fotografar seguiam-no como apóstolos seguiam o Cristo, e uma boa fatia dos membros mais destacados da comunidade, a fatia dos que efectivamente podiam exercer o direito de voto, esperou horas a fio que o Presidente se abeirasse da assembleia de voto. Todos queriam cumprimentá-lo e desejar-lhe uma boa mais que provável reeleição. Nunca um país tinha visto um Presidente como aquele e ninguém queria deixar de o ver: inspirador, culto, sério, simpático e acima de tudo bem parecido. O melhor Presidente do Mundo, portanto.

Chegou por fim à sua mesa de voto. Sorria algo envergonhado e apertava a mão aos cavalheiros enquanto distribuía beijinhos automáticos pelas damas e donzelas que se lhe acercavam. Metade deles não os conhecia e a outra metade preferia não conhecer, mas Presidente é Presidente e serve é para estas coisas. Banhos de multidão, há quem lhes chame, uma verdadeira maçada chama-lhe ele.

O ordenado não era mauzinho de todo, mas as chatices eram mais que muitas. Toda a gente queria a assinatura dele para tudo, desde desbloquear uma importante obra de construção à compra de papel higiénico daquele preto e macio como seda para limpar o rabinho da burocracia sem ferir sensibilidades. Outra coisa que o chateava era ter de dar a sua opinião para tudo. Mas para que serviam então os assessores? Já ninguém pensava pela própria cabeça? E os jantares de cerimónia, por deus, nem torresmos havia; era só caviar e marisco do melhor, acompanhado de champanhe de Champagne e ele a querer o vinho carrascão que aparentemente brotava da parede da taberna que costumava frequentar na juventude.

Por falar na taberna, foi precisamente aí que tudo começou. A noite era de elucubração etílica e discutia-se acalorada e pouco-ajuizadamente o estado da nação à volta de uma garrafa do pior whisky feito por seres humanos. Qualquer um nesta mesa daria um melhor Presidente do que aquele que temos, disse um; o outro entusiasmado gritou a plenos pulmões, eu ainda vou ser Presidente, vocês vão ver; o primeiro desafiou o segundo com um não és capaz!, e o pretendente à Presidência prontamente disse de mão aberta e em riste vai uma aposta? Vai pois! Mãos apertadas e seladas com cuspo e outra garrafa de Passport Scotch para não irem demasiado sóbrios para casa. O sentido competitivo do então aluno de Calcetaria fez o resto. Nunca havia perdido uma aposta e não iria começar agora. Vinte anos depois ganhou a sua primeira eleição. Limitou-se a dizer umas coisas meio vagas sobre crises económicas e respeito pelas instituições e pronto, lá estava ele, orgulhoso Presidente da Nação.

Porém, desta vez as coisas iriam ser bastante diferentes. Aconteceu que, contadas todas as cruzinhas em todos os quadradinho de todos os boletins de voto, o cair de queixos foi geral. O Presidente foi eleito como seria de esperar com 99.99% mas – hélas! – houve um único voto em branco! Como seria possível? Como poderia haver um concidadão que achasse que aquele não era o melhor Presidente do Mundo? Um tipo inspirador, culto, sério, simpático e acima de tudo bem parecido, deveria ser sempre a primeira escolha; caramba, deveria ser a única escolha!

Levantaram-se tempestivas as vozes equídeas dos comentadores e fabricantes de opinião, um ultraje, uma vergonha, uma crise política, o Governo deveria demitir-se, os juros da dívida externa vão estoirar – país que é país quer-se sempre endividado –, quem seria o reaccionário e porque é que ainda não tinha sido expulso e atirado para uma ilha distante? Depois os protestos, as faixas, as palavras de ordem gritadas ao megafone; a indignação depressa transformada em visceral ódio a um inimigo invisível, um imigrante sem rosto, um cigano sem princípio, um pantomineiro sem responsabilidade. Pneus queimados, montras partidas, carros virados, cargas policiais, sangue nas ruas do País do Faz de Conta.

Então o Presidente pronunciou-se e a Nação caiu de joelhos logo à primeira frase: fui eu que não votei em mim. Como poderia votar em mim? Eu, uma verdadeira farsa que só está aqui para não perder uma aposta em que não ganhou absolutamente nada. Nem sei o que é suposto fazer e nem quero saber. Em consciência não poderia votar em mim porque votar em mim seria votar na estagnação de um país inteiro; seria votar na personificação perfeita de um povo que não quer governantes nem ser governado, antes preferindo a imagem que projecta do governante ideal. Digo-vos isto para abrirem os olhos, meus caros cidadãos! Levante-se cada um de vocês e tomem o vosso próprio destino nas vossas próprias mãos! Não podem confiar em todos os tipos inspiradores, cultos, sérios, simpáticos e acima de tudo bem parecidos que querem ser Presidente! O que fiz eu durante o último mandato, são capazes de me dizer? Ora, eu sei o que fiz: nada! Absolutamente nada! E por que raio votaram em mim outra vez? Por que não votaram antes em qualquer um dos outros candidatos, esses sim, plenos de ideias e sugestões úteis para empurrar o país para a frente? Porque não votaram antes em vocês mesmos?

Será quase escusado dizer que a nação inteira, paralisada pela primeira frase “fui eu que não votei em mim”, pouco ouviu do resto. A palavra “traidor” surgiu pintada em todas as alvas paredes do ressentido país como por encanto.

O Presidente ouvia agora o clamor da turba por baixo dele. Não sabia onde estava mas aquela vista era-lhe familiar. Era a vista que todos os dias contemplava do seu gabinete na Assembleia, uma vista gloriosa sobre a Capital dos telhados vermelhos, mas em ponto ligeiramente diferente. Estava na rua, claramente, e cheio de frio. Aquela impressão de aperto no pescoço era também  tremendamente desconfortável. Como teria ido ali parar? E que cheiro era aquele? Um formigueiro estranho na barriga… A náusea e por fim o desmaio.

A multidão cá em baixo regozijava-se com a execução do sumo traidor. Dançavam, cantavam, riam até às lágrimas. Alguns deles, decerto criaturas mais dotadas de senso comum, apreciavam desiludidos as vísceras pendentes e abanavam a cabeça, um traidor deste tamanho e só tinha isto?! Quase nem valeu o esforço.

Depois, lenta mas inexoravelmente, a vida tomou o seu rumo natural.

Diz-se ainda sobre esta história que desde então nenhum outro Presidente, ou pretendente a Presidente, naquele país ou noutro qualquer, ousou por uma só vez dizer a verdade sobre qualquer assunto.

4 pensamentos sobre “A Reeleição e o Presidente Honesto

  1. n percebi mt bem este ” exercício”, nem parece seu, contudo dev estar naquele período do mês.

  2. Este exercício, como lhe chama e muito bem, peca talvez pela colagem imediata às nossas eleições presidenciais, podendo parecer uma parábola ou alegoria de algibeira. No entanto, não me pareceria justo que guardasse este texto na gaveta por mais 2 anos à espera que a sombra das Presidenciais se esvanecesse, não acha? E vai-me desculpar, mas um conto em tom ligeiro que acaba com um tipo pendurado pelo pescoço de uma janela com as tripas ao sol parece-me bastante meu. O senhor é que ainda está mal habituado;)

  3. Acho que também não quero “perceber bem este exercício”. Mas que me parece bem escrito, parece. Não sei de quem será, nem isso me interessa. Interessa-me o ” sentido de metáfora” que encerra, a fluidez do texto e a capacidade de “transporte” para uma outra realidade. Além da actualidade. Parabéns. Mais uma vez.

  4. Ora, o Sr. Engenheiro, carago, deveria mudar a patente para Sr. Crítico Literário. Todos sabemos o negrume que essa classe encerra, mas caramba, ninguém acredita que um Engenheiro esteja de alguma forma imbuído de Literatura suficiente para dizer coisas como “sentido de metáfora”.
    Muito obrigado. Vénia. Mais uma vez.

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