O Aeronauta

O céu carregado de nuvens mais negras que o fundo do Universo tapavam qualquer claridade estelar. Um silêncio lúgubre apenas interrompido pelo marulhar de ondas fracas no recuar da maré. Havia uma tensão indescritível no ar. Não era tempestade nem calmaria, mas uma mistura estranha das duas. O Náufrago dormia profundamente o costumeiro sono sem sonhos. Preferia assim do que sonhar, como aconteceu durante mais tempo do que desejava, com aquele dia em que viu a sua Escuna desaparecer na linha do horizonte.

Subitamente um estranho e profundo guincho trouxe o Náufrago de volta à realidade. Teria ouvido o guincho dentro do reino escuro de um Morfeu no exílio ou seria mesmo um guincho real largado por alguma hedionda criatura? Ainda lhe pareceu ouvir um som abafado de queda não muito distante, mas não sabia se tinha sido antes ou depois do guincho. O limbo do sono era um local confuso para os sentidos. Devia ter sido um grito dele próprio, sim, talvez fosse isso. Conhecia aquela pequena ilha como a palma da própria mão e sabia que não havia nenhuma criatura entre as andorinhas-do-mar, gaivotas, caranguejos e insectos vários capaz de soltar tal grito. De manhã, quando o sol nascesse, tiraria a história a limpo. Tivesse isto acontecido há anos atrás, quando deu à costa nesta ilhota, quando ainda era o orgulhoso Capitão, e prontamente se levantaria, arranjaria algum tipo de arma, improvisaria iluminação e partiria em busca do terrível Monstro do Grito Hediondo. Por agora ficaria à escuta, mas queria adormecer mais que tudo. Enterrou-se ainda mais na areia que fazia de chão da sua cabana. No seu íntimo sabia que a partir de amanhã nada seria igual, mas sem perceber muito bem porquê. Temia o dia seguinte ao mesmo tempo que agradecia de antemão aos céus o abanão que a sua realidade talvez levaria.

Rompe a aurora e o Náufrago sai do seu covil em busca da misteriosa criatura, apenas armado de si próprio e de um pau no qual espetou um prego enferrujado, não fosse o diabo tecer as teias do costume. Não demorou muito tempo à procura: numa clareira a menos de duzentas jardas da sua cabana jazia um enorme corpo. Mais morto que aquilo não podia estar. Rodeou-o cautelosamente de arma em riste. Parecia um enorme pássaro ligeiramente aparentado com um albatroz mas em ponto enorme. Uma grande ferida parcialmente cauterizada numa das asas revelava uma pista sobre a causa da queda: um raio. Não se lembrava sequer de ter ouvido trovões, mas pelo tamanho da ave o incidente podia ter-se dado a muitas milhas de altura ou distância e ainda ter conseguido viajar até aqui. Se os peixes morrem no mar porque carga de água não morrem os pássaros no céu? Nenhum pássaro devia cair, mesmo depois de morto, pensou, sentido com o destino de tão majestosa ave. A envergadura de asas seria certamente maior que a sua desaparecida Escuna e o bico muito mais ameaçador que qualquer canhão de qualquer navio que já tivesse cruzado a sua rota. Nunca havia visto nada que se lhe assemelhasse. Juntando apenas uma meia dúzia daquelas penas enormes poderia construir um telheiro melhor do que aquele que tinha, o que seria um verdadeiro luxo. A carne, bem seca e conservada, daria para meses; exultou. Finalmente carne. Passou o resto do dia a preparar o animal e a improvisar uma salmoura bastante primitiva mas ainda assim minimamente eficaz. Pensava nas maravilhas que teriam visto aqueles olhos, nos ventos que deslizaram por aquelas penas, nos peixes enormes e misteriosos que aquele bico havia esventrado. Agora a sua carne e os seus ossos e as suas penas iriam servir-lhe a ele de comida, ferramentas e abrigo. Não era um fim digno para a ave, mas era um fim todavia e os fins têm a particularidade de serem sempre maus.

Ou será que não? Tinha um naco de carne mal cozinhada na boca quando a ideia o atingiu como um bendito raio. A princípio não percebeu muito bem o que se passava, mas as peças foram encaixando lentamente, como se tivessem mesmo nascido umas para as outras; foi juntando um facto a outro, um conhecimento a outro, uma possibilidade a outra, ao mesmo tempo que deixava de mastigar e um bom bocado de carne rosada lhe pendia dos lábios gordurosos; olhos esbugalhados e movimentos suspensos. Uma imagem algo patética para quem está a ter a revelação mais importante de sempre.

Os ossos resistentes como pinho e leves como balsa dariam uma estrutura perfeita. Cordame forte tecido com o cânhamo selvagem que crescia no centro da ilha serviria de ligação entre esses suportes. Mais cordame desse aliado a um engenhoso sistema de pequenas roldanas e alavancas fariam as vezes dos músculos e tendões do falecido colosso dos ares. Ele próprio seria o cérebro e o coração da criatura. A corda daria trabalho a fazer à mão, mas que outros compromissos o poderiam afastar desse projecto? As roldanas e alavancas seriam o mais complicado, mas afinal ele era o maior lobo do mar que conhecia  e a hidráulica não lhe apresentava para ele qualquer segredo. Quase que podia ver o sistema ali à sua frente a funcionar comandado por braços e pernas invisíveis, tudo interligado na estrutura sólida e leve providenciada pelos prodigiosos ossos da ave. As penas, as enormes penas de três pés de comprimento serviriam como velas horizontais, caramba, serviriam como as penas que eram, dando a sustentação e impermeabilização necessárias ao vôo.

A sua cabeça fervilhava e rodopiava com esta torrente de pensamentos. Sentiu-se tonto com o entusiasmo. Teria finalmente uma oportunidade de sair dali, ainda para mais uma oportunidade de contornos tão fantásticos que nunca nem nas suas mais loucas esperanças, quando ainda as tinha, alguma vez considerou. Voaria dali para fora, perto do céu, dominando ventos, guiando-se pelas estrelas, fugindo a tempestades, subindo além das nuvens e pairando sobre a espuma branca do oceano.Talvez até se cruzasse com a sua Escuna, um pontinho negro avançando lentamente numa imensidão azul, e dir-lhe-ia sem usar qualquer palavra olha bem para mim! Deixaste-me naufragar mas ganhei asas e agora sou mais alto que o céu.

Pôs rapidamente mãos à obra. Até conseguiria fazer um capacete aproveitando o interior do crânio da magnífica ave e apetrechando-o com dois fundos de garrafa para protecção dos olhos. Algo lhe dizia que lá em cima estava muito vento e esse algo estava cheio de razão.

Pouco tempo depois, sem sequer saber quanto tempo ao certo, o Pássaro estava pronto. Tinha um aspecto grotesco, talvez saído de um qualquer conto para assustar criancinhas; enormes asas arqueadas repletas de penas desgrenhadas, cordas e alavancas pendentes encostadas a umas pernas esqueléticas terminadas por garras firmemente presas ao chão. Era tanto assustador como cómico. O Náufrago riu-se pela primeira vez em muito anos. Voaria naquilo. Mudaria até de Nome. Chamar-lhe-iam Aeronauta. E ele, em jeito de cumprimento, faria um vôo rasante sobre a cabeça dos comuns mortais boquiabertos.

Respirou fundo. Meteu o capacete e enfiou-se debaixo da gerigonça. Respirou fundo outra vez. Correu para a beira da falésia e abriu os braços. Se não voasse agora a Morte esperava-o lá em baixo, ansiosa. A insuportável vertigem fez com que fechasse os olhos com toda a força que conseguia, sem saber se estava a cair ou a subir, não ouvia nada, não via nada, não sentia nada, o coração batia demasiado depressa para sequer respirar; uma minúscula parte de um segundo transformada em eternidade.

Subitamente, um estranho e profundo guincho trouxe o Náufrago de volta à realidade.

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