O Flagelo do Espírito – Parte II

Aqui há bastante atrasado falei no Demónio da Perversidade que Edgar Allan Poe descobriu no idos miloitocentosetal sem no entanto aflorar a verdadeira essência do animal. Referi apenas de um dos seus menos nefastos efeitos, a Inércia Intelectual, já que nessa altura era o efeito que mais me dizia respeito e debaixo do qual sofria atrozes horrores.

Todavia, como disse também nesse textinho de algibeira, as habilidades do dito Demónio vão muito para além disso. No conto de Poe, a personagem principal confessa um homícidio que cometeu depois do caso estar encerrado pelas autoridades e de tudo o resto lhe ter corrido de feição. Acto claramente para lá dos limites da estupidez natural que caracteriza todo e qualquer ser humano. Não é um erro, nem um engano. Trata-se antes de um contra-desejo, ou um desejo negro, um anseio inexplicável por nos vermos a nós próprios arder nos mais quentes fogachos infernais e aí permanecer para toda a eternidade. O processo que nos leva a esse desejo está muito longe da franja consciente do individuo mas o “acender do fósforo”, por assim dizer, é algo pleno de consciência. Quem se imola é porque quer. Não confundir com “amolar”, já que isso nem sempre advém de vontade própria. O que é facto é que alguma coisa no seu interior o atrai para aquele fogo; porque no seu íntimo acha que está melhor a arder ou no fundo do poço – riscar a metáfora que não lhe interessa – do que a saltitar em prados floridos ou a babar-se numa praia tailandesa – já sabe o que tem a fazer à metáfora que não lhe interessa. Para gajos assim, a felicidade é um estado tão transitório e tão rápido como uma experiência quântica no Grande Colisor de Hadrões.

Não se pense, porém, que são gajos do tipo negativo. Pelo menos não necessariamente. O Demónio da Perversidade é algo muito mais profundo e intrínseco que o optimisto ou negativismo superficial. É uma sombra diáfana que obscurece o brilho nos olhos do “possuído” de forma imperceptível para outrens e nem quem lhe está mais próximo consegue perceber a escuridão que se esconde para lá do sorriso.

O que fazer então quando tem um suicida metafísico destes entre mãos? Gostaria de saber? Assim, tipo, muito? Bem, poderia explicar-lhe tudo timtim por timtim, mas isso roubaria a piada e a espontaneidade da coisa. Além disso, isto não é um tutorial. Contente-se em ter recebido mais uma ferramenta para explicar o sempre perturbante e iníquo comportamento humano. Ou não, vá.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s