Elevando (pouco) o nível intelectual com Philip Roth

“Quando me porto mal, ela põe-me fora do apartamento. Eu fico à porta a bater, a bater, até jurar que estou disposto a mudar de vida. Mas o que foi que eu fiz? Todos os dias engraxo os meus sapatos com uma folha de jornal da véspera a proteger cuidadosamente o linóleo; a seguir nunca me esqueço de tapar com firmeza a tampa da lata da graxa nem de pôr todo o equipamento no seu devido lugar. Espremo a pasta de dentes a partir da extremidade, escovo os dentes em círculos e nunca para cima e para baixo, digo «Obrigado», digo «Não tem de quê», digo «Com licença» e «Se faz favor». Quando a Hannah está doente ou tem de sair antes do jantar com a sua lata azul para participar no peditório do Fundo Nacional Judaico, ponho a mesa voluntariamente e fora da minha vez, lembrando-me sempre que a faca e a colher são à direita, o garfo à esquerda, e o guardanapo à esquerda do garfo e dobrado em triângulo. Nunca seria capaz de comer milchiks de um prato flaishedigeh, nunca, nunca, nunca. E, no entanto, há pouco mais ou menos um ano que não passa um mês sem fazer algo tão imperdoável que me mandam fazer as malas e sair. Mas o que poderá ser? Mãe, sou eu, o rapazinho que passa noites inteiras, antes de começar a escola, a desenhar a letra gótica os nomes das disciplinas nos separadores coloridos das pastas, que cola pacientemente argolas de reforço numa quantidade de papel de dossier suficiente para três meses, tanto pautado como sem linhas. Trago comigo um pente e um lenço lavado; tenho o cuidado de nunca trazer as meias a cair pelas pernas abaixo; faço os trabalhos de casa com meses de antecedência – tens de admitir, mamã, que sou o rapaz mais esperto e mais aprumado de toda a história da minha escola. As professoras (como tu bem sabes, como elas já te disseram) voltam felizes para casa, para a companhia dos maridos, graças a mim. Portanto, o que foi o que eu fiz? Levante-se, por favor, quem souber a resposta a esta pergunta! Eu sou tão detestável que ela não me quer lá em casa nem mais um minuto. Quando uma vez chamei à minha irmã parvalhona peneirenta, lavaram-me imediatamente a boca com um bocado de sabão azul e branco; isso eu ainda compreendia. Mas o ostracismo? O que é que eu terei feito de tão terrível?”

 – Philip Roth, in O Complexo de Portnoy

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