Morrer cedo para dar um cadáver bonito

No caso de Amy Winehouse isto não será uma verdade absoluta, que a tipa era feia que se fartava. Já a sua morte é dificilmente, mesmo muito dificilmente, surpreendente. Sabe-se como vivia e sabe-se como morreu. Dois albúns de estúdio, Frank e Black to Black, mostram que a sua influência foi muito além do número de composições: não sendo prolífica, Amy, deu à música a alma, a tragédia, o negro veludo com que se criam as grandes canções e as grandes lendas. E deu mesmo, não emprestou. No fim ficou só ela, sem nada.

Diz-se que pertencerá ao panteão dos 27, onde jazem já Morrison, Cobain, Joplin e Hendrix. Veremos. Daqui a 20 ou 30 anos veremos onde está a memória de Winehouse e se falaremos dela com o misto de reverência e confiança bacoca que falamos – ou falo, vá – hoje do Jim, do Kurt, da Janis ou do Jimi.

Que festarola devem estar eles a dar lá onde quer que estejam.

Morrison declama versos avulsos em cima da mesa da sala, de garrafa de Jack Daniels na mão, enquanto Janis atravessa a parede no seu Mercedes de ’70 e ri que nem uma lunática. Cobain gira o tambor do revolver e, encostando-o à têmpora, aposta com Hendrix que esvazia a pistola mais depressa do que o outro inala aquele metro de coca. Nisto entra Amy, a tímida Amy: “Olá malta. Alguém quer cavalo? Tenho que chege para todos.”

2 pensamentos sobre “Morrer cedo para dar um cadáver bonito

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