Sortidos & Avulsos n.º 1

A partir de certa altura da vida todo homem tem uma carteira de cabedal. Ou lhe é oferecida ou comprada pelo próprio, mas é um facto que todo o homem tem uma. Uma carteira de cabedal é uma questão de estatuto, um ritual de transição dissimulado pela própria simplicidade e vulgaridade. Significa que o portador já é homenzinho suficiente para deixar a desbotada carteira das Tartarugas Ninja, com o fecho de velcro já descosido na gaveta das meias e adoptar uma espaçosa e reluzente carteira de cabedal, uma carteira de homem, ainda que seja uma imitação em napa barata. Significa, também e nas entrelinhas, que o portador da dita deixou de ser um jovem imberbe e sem cara para levar um estalo para ser um adulto confiante em si próprio, que já pode beber umas bejecas, falar de futebol e que provavelmente já viu o corpo de uma mulher nua ao vivo e que não o de sua mãe. E valha-nos deus que a moda das pochettes masculinas caiu para um escuro abismo no dealbar dos anos 90. Valha-nos deus, credo.

Ora, e à medida que esse adulto vai crescendo, a sua carteira vai crescendo também. O dinheiro normalmente é guardado em locais mais inconspícuos, como o bolso da camisa ou no desajeitado bolsinho das moedas, porque para a carteira, e sem se saber muito bem por quê, vai todo um manancial de inutilidades: cartões de crédito desactualizados, dezenas de números de telefone e endereços de e-mail escritos nos mais variados tipos de papel, cartões de vendedores aos quais nunca vão telefonar, autocolantes recebidos em peditórios de associações de reinserção social, calendários de todos os anos desde 1980, boletins de totoloto e euromilhões sem um único número premiado, fotografias da mulher, dos filhos e da namorada do liceu todos juntos e muito felizes, cartões de todas as associações de que o portador faz e fez parte, quotas e bilhetes de jogos de futebol – ena, aquele jogo que perdemos 3-o com o Paços de Ferreira, lembras-te? -, cartões do clube de vídeo que já fechou há 10 anos e do restaurante chinês que fechou por excesso de felídeos no congelador – bolas, tinha um Pato à Pequim grátis da próxima vez que lá fosse -, facturas e boletins de garantia do gravador de vídeo CIE e do rebobinador Sanyo de 1989, com as letras miúdinhas desvanecidas e as grandes coladas à caderneta militar que ostenta o carimbo “Reserva Territorial”. Não falando, claro, nos 637 talões de multibanco em branco, quando a impressão foi a tinta, ou completamente pretos, quando foi por termocoisinho.  Nem a mala de uma mulher com toda a parafernália cosmética que nunca é usada apresenta tamanho mistério à ténue luz desta singela reflexão.

Mais estranho ainda é o facto dos exemplares dessa subspécie de homo sapiens conseguirem pôr a carteira no bolso de trás das calças e sentarem-se muito direitinhos sem ficarem minimamente desnivelados. Eu nunca conseguiria, juro-lhe. Ficaria sempre desconfortavelmente inclinado como se estivesse a tentar gasear a sala pela força do metano.  A pergunta que me sobra é esta: será que a nádega em questão, ao longo do tempo e do uso, se adapta à forma da carteira enchumaçada permanentemente ou volta à forma inicial depois da carteira sair do bolso? Ou será ao contrário, e é a nádega que não tem a carteira que entumesce para compensar o desnível, tipo macaco hidráulico? O mistério adensa-se, portanto.

Espantei-me quando entrei no consultório do médico. Estava um individuo, que não parecia ter mais de 16 anos a ler uns papéis, com uma carteira de cabedal para aí com 962 gramas pousada na secretária. “Tão novinho e já com uma carteira daquelas” pensei eu para mim. Nisto, despedindo-se, apertou a mão ao senhor doutor, meteu a carteira na mochila Eastpak de padrão camuflado e saiu. “Ah, mochila… Assim também eu.”

* * *

À laia de um exibicionismo assolapado deixo aqui uma espécie de ficha técnica da minha carteira de cabedal, pois que também sou homem e como qualquer um que se preze tenho uma. Custou 9.95€ nos Mosqueteiros, empresa de famigerada autoridade em peles e after-shaves baratos. Contém num dado dia 0,5 a 30 euros em dinheiro, um cartão de débito, um Cartão de Cidadão, um cartão de cliente Springfield e um cartão de estudante da Fundação Alentejo (os últimos dois completamente inúteis), e a partir de outubro residirá também o meu título de condução agora sob custódia do IMTT. Tem espaço independente para moedas e no interior possui uma aba que pode prender papéis e cartões mais avulsos, bem como mortalhas king size quando o pacote se estraga. Precisarei de mais alguma coisa no dia a dia? Talvez, mas não cabe na carteira com certeza. Ela aí está:

 

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Já sei que pergunta lhe perpassa o espírito: então e aquela papelada toda que falei lá em cima, onde a guardo? pois que decerto também a tenho! A resposta foi inventada há muitos muitos anos, talvez na Galileia, talvez em Paços de Ferreira (outra vez Paços?), e chama-se gaveta.

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