De um outubro impertinente

Chega o Outono todo solarengo e invejoso de um Verão que nunca o chegou a ser, ou então é um Verão que não quer largar o osso que somos nós, coitadinhos, aqui em baixo a  penar nas garras de um outubro de trintagrauscentígrados; olhe, uma das duas é concerteza e nem por isso me agrada mais, ainda por cima quando a camada lipídica que envolve este corpanzil de apólo demonstra sinais de não estar ociosa mas sim em franca preparação para um rigoroso Inverno continental e é preciso frio, ou chuva, vá, para poder tapar isto com casacos, está a ver? Todavia notam-se sinais de mudança e não é só de mim. Mas como podiam não notar-se? Nem é apenas o tempo, é de facto tudo. Quem o era saltou, jogou-se, atirou-se, aventou-se ao sabor dos ventos e marés daquele mundo de curvas e contracurvas onde todos se perdem e se acham, mas nem por isso, nem só por um minuto, deixou de o ser. Não senhor, não deixou de o ser, não não não, que o desejo é só um mas é assim para o grandito e as vontades são pequeninas mas imensas e intensas como aquela mordiscadela na orelha que nos arrepia o pêlo do espinhaço… Ui. Adiante que se faz tarde, mas dizia eu, nota-se a mudança principalmente naquela fresquidão suave que sobrevém quando o sol já vai de banda como o Miranda, o que muito me espanta porque o Miranda que conheço é teso que nem um chicharro seco; tem é um bigode que mete respeito a qualquer mancebo, encimado por um nariz que só encontra paralelo nos velhos desenhos animados do Inspector Gadget; aliás, o Miranda é o dito bófia com bigode e não há mais discussão. Mudam-se os ventos, dizia, mas o calor é como as vontades que são exactamente as mesmas; mudam-se sim as rotinas e semeia-se outra coisa na sementeira profissional que isto é chão que já não dá construção civil e é preciso semear de Inverno para colher na Primavera. Mas foda-se, se não chove vai tudo com o caralho às costas, ou de volta à praia que os bronzes fêmeos ainda estão fresquinhos e apetitosos. Valha-nos isso, credo: em pleno outubro ainda há pernas ao léu. Ah, pernas ao léu, pernas ao léu…

Anúncios

2 pensamentos sobre “De um outubro impertinente

  1. Olha olhe… Hoje já caíram umas pingas! Halleluyah brotha! Desculpe a efusividade, mas estou ansioso pela chuva. Não consigo evitar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s