Um dia difuso com música definida

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A vila acordou hoje debaixo de um nevoeiro resiliente. Às quatro da tarde, hora continental, ainda não despegou e nem é de crer que o faça tão depressa. Deixa tudo com um ar muito estranho, onírico talvez, de vila piscatória talvez também, refrescante de certeza. Parece que acordei no meio do Triângulo das Bermudas e vou tropeçar a qualquer momento num D. Sebastião aos gritos de espada desembainhada. As poucas pessoas na rua arrastam-se sem sombra pela calçada e é nessa altura que começo a ouvir ao longe os harmónicos debitados por Manzarek, anunciando a voz profunda de Morrison “Awake/Shake dreams from your hair/my pretty child, my sweet one“. Um cenário bem longe da “vast radiant beach and cooled jeweled moon“, mas foi no órgao do Ray e nos slaps de guitarra do Robbie que a minha enfezada cabecinha encontrou a sonoplastia ideal.

Um casal forasteiro com cria e pau de cabeleira pavoneiam os coiros citadinos enquanto uma das fêmeas diz plena de desdém “isto é que é o sítio mais bonito daqui?pffffff!“. O que eu não respondi, por vias de um senso mal cristalizado de sociedade civilizada e respeitadora de gostos alheios, foi “desculpe, minha senhora, pelo facto de não termos aqui nenhum centro comercial de plástico e brilhantinas, nem o atravancamento lá da sua Pontinha ou do seu Sacavém, com as casinhas todas descoloridas de um arco-iris pintado há 40 anos e tapado da fuligem dos autocarros; desculpe, minha senhora, por gostarmos de espaços abertos e arejados, de paredes brancas e relvados bem verdes; desculpe, minha senhora, por preferirmos o granito ao alcatrão; desculpe, minha senhora, aqueles tapumes de construção civil, mas na verdade só estão ali há um mês, portanto deixemos os homens acabar aquilo a ver no que dá; mas também minha senhora, olhando bem para a sua fronha mal encavada de nariz empinado, digo-lhe que mulheres assim já temos aqui aos pontapés e nem elas nem você nos fazem assim tanta falta. Por favor não volte tão depressa, mas se voltar traga lá fotografias do sítio onde mora a ver se será assim tão melhor que este, sim?”.

“Oh great creator of being
Grant us one more hour,
To perform our art
And perfect our lives”

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2 pensamentos sobre “Um dia difuso com música definida

  1. Sabes, para essas pessoas é bem mais fácil criticar o que veêm fora porque acho que na verdade não conseguem é gostar nem aceitar o que têm dentro e /ou perto de si. Digamos que a beleza é algo unicamente apercebido por seres que já a comportam em si.
    De qualquer forma mm não respondendo à tal senhora…pode-se sempre mostrar-lhe por onde fica a saída e encaminhá-la!

  2. Ora, mas isso seria responder-lhe na mesma;) Nem sequer merecia a cortesia. Oxalá se tenha perdido e atascado o carro perto da ETAR. Isso é que seria bem feito! Ahahaha!

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