O Poço Tapado

Aquele poço aterrorizava-o desde que se lembra. Ficava dentro de casa, encostado à parede exterior da fachada principal que dava para a Rua do Poço Tapado. Estava sempre, e muito obviamente, tapado por uma pesada laje de granito negro e dele nunca saiu uma única pinga de água, pelo menos que soubesse. Não sabia, e não podia saber porque nunca lhe disseram, qual a razão para aquele poço estar tapado e se era o mesmo poço cuja particularidade havia dado o nome à rua; velha, muito velha a rua, uma das primeiras da vila talvez, quando o planeamento urbano ditava que se construíssem as casas bem perto umas das outras, organizadas em intricadas e tortuosas ramificações partindo de um único ponto: um castelo há muito decrépito. O poço estava agora tapado, mas em alguma altura havia de ter estado aberto, de entranhas ao sol, a dar água a quem precisasse, e talvez estivesse mesmo na rua antes de ser engolido pelas paredes da casa. Não sabia porque o tinham tapado, nem quem o havia feito, mas agradecera-lhe em silêncio muitas vezes há muitos anos atrás quando era ainda miúdo. Aquele pedaço redondo de granito negro encimado pela tal laje da mesma rocha metamórfica, simplesmente arrepiava-lhe o espinhaço de uma maneira que até fazia impressão. Lembra-se bem disso. Lembra-se de ir passar férias para aquela casa quando os avós ainda eram pessoas de saúde e de não conseguir estar perto do dito cujo sem sentir uma enorme vontade de fugir dali. E era o que fazia na maioria das vezes; das outras a presença do avô ou da avô por perto dava-lhe a segurança e a vergonha suficientes para não desatar a correr que nem um louco. Não se lembra todavia de ser repreendido por esse terror que agora achava um perfeito e completo disparate, mas lembra-se dos acidentes que aconteciam por vias do pânico: tropeções, despistes a alta velocidade, quedas aparatosas, jarros, copos, pratos partidos e uma certa vez até a própria cabeça. Que parvoíce, pensava agora rindo e abanando a cabeça. Porém, sem demasiado desdém. Aquele poço ainda exercia uma qualquer influência num nível muito abaixo da consciência; já não o aterrorizava, mas a sua presença impunha-lhe respeito e reverência. Trocara o puro terror pelo assolapado temor.

Deu mais um golo no whisky e semicerrou os olhos.

Esforçava-se para se lembrar de qualquer coisa que nem sabia muito bem o que era. Algo difuso e desfocado, muito distante no tempo mas não no espaço. Esse, o espaço, fora ali mesmo, tinha quase a certeza disso, todavia a certeza absoluta residia no facto de saber que acontecera algo de que se deveria lembrar mas não conseguia. Nem de olhos semicerrados, nem com mais um golo no whisky. Terá estado relacionado com a doença que teve em criança? Disso também se lembra mas com uma noção muito distorcida do tempo e dos factos. Lembra-se de ter estado num hospital, isso era certo. Vendo a esta distância aquilo durou um ou dois dias, três no máximo, mas para uma criança de cinco anos, três dias numa cama parecem três semanas. Não sabia, e não podia saber porque ninguém lho tinha dito, mas de facto tinha estado cerca de sete meses deitado numa cama de hospital; de olhos abertos e sem dizer uma palavra ou esboçar qualquer gesto. Catalepsia permanente, diziam os médicos, que ficaram completamente banzados quando deram com ele a tentar assaltar a máquina dos chocolates do hospital porque estava, segundo ele, a morrer de fome. Mas isto eram tudo coisas que ele não podia saber porque ninguém lhe tinha contado e não se lembrava.

Outro whisky e um golo de boca cheia.

O calor do malte a subir pela garganta deu-lhe a coragem que precisava para se levantar. Aproximou-se do poço lentamente, em desafio, mas com um peso crescente dentro do peito. Numa das mãos, o copo de whisky no qual deu um último golo antes de pousar no chão, na outra um pé-de-cabra que não se lembra de ter agarrado. Procurou a fenda ideal para cravar a garra da alavanca e foi aí que reparou nas inscrições à volta do poço. Já muito desgastadas pelo tempo, pareciam mais runas que escrita convencional e tinham sido feitas tanto na tampa como na parede granítica de modo a coincidirem umas com as outras. Nunca as tinha visto, mas como poderia se também nunca se tinha aproximado tanto do maldito? Passou-lhes os dedos pelos contornos e por só um momento achou melhor voltar ao cadeirão e deixar o poço em paz. Por um só momento, repete-se enfatizando. Porém, no momento seguinte avançou e cravou o pé-de-cabra numa fenda que parecia feita à medida para a ferramenta. Estranhamente não necessitou de muita força para a pesada laje se mover. Com um um bocadinho mais salta daqui que parece uma carica, pensou, usando o entusiasmo do sucesso à vista como escudo para o terror que lhe crescia no âmago. O som que de seguida saiu do poço era de facto muito parecido com o de uma garrafa de cerveja em pressão a ser aberta, mas multiplicado por um factor respeitável; um som reverberante, profundo, uma despressurização poderosa e arcana, acompanhada por um miasma pungente, fétido e doentio. Saltou para trás assustado, mostrando a si próprio mais medo do que pensava e dando graças por ninguém ter assistido àquilo. A tampa deslocada revelava agora uma larga fresta para a escuridão infinita. Fitou a cena por uns segundos e pensou que amanhã iria à junta de freguesia mudar o nome da rua para do Poço Destapado. O riso sobreveio-lhe mas logo o engoliu; esbugalhou os olhos, deixou cair o queixo, o pé-de-cabra tilintou no chão, deu um passo cambaleante para trás e pisou o copo. Algo no negrume se movera.

Ele vira-o nitidamente.

Finos e alongados dedos negros, com finas e alongadas garras negras saíram muito lentamente da fenda. Empurraram a laje e substituiram a desdita fresta por um circulo completo de trevas e podridão. Acto contínuo, outra horrenda mão parecida com a primeira agarrara-se ao rebordo do poço e fez subir uma negra e alongada cabeça sem rosto. Só olhos. Uns olhos ainda mais negros e brilhantes que a pele negra e brilhante da criatura. E umas pernas, também negras e alongadas, subiram para a luz numa contorção sobre-humana. O ser era alto, muito alto, e magro muito magro, mas no essencial da fisionomia todo humano: dois braços, duas pernas, uma cabeça e um tronco esguio. Porém, negro, preto, breu, como se nenhuma luz do Universo tivesse jurisdição naquela superfície. Os olhos, mais profundos que a infinitude do poço, fitavam-no. Ombros para trás em jeito desafiante. Ele, paralisado, nem sentia o cheiro execrável e agora insuportável que emanava da criatura, pois há muito que o pânico lhe bloqueara a função respiratória. O coração martelava louco pelo corpo todo. Mais nenhum músculo se movia.

Num movimento lânguido o negro ser aproxima-se dele. Estende um braço e toca-lhe na fronte. Um frio intenso queima-lhe a pele descendo até aos pés. Saltam-lhe as unhas, saltam-lhe os olhos e os dentes, o coração explode, o cérebro explode, os vasos saguíneos são pó e todo o seu corpo volta a ser um punhado de átomos espalhados pela velha casa dos avós. Assim de súbito.

Acorda sufocado numa cama de hospital.

Tem cinco anos e está a esfomeado.

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2 pensamentos sobre “O Poço Tapado

  1. poxa muito bom, achei esse site sem querer e não consegui parar de ler esse conto. parabéns, adorei o final

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