Já não se respeitam os Filhos das Trevas

“Vou só arranjar as unhas e já vou para a cama, querida.” – Conde Orlok (Nosferatu, 1922) 

Já não há vampiros como dantes. Não se ria, que estou a falar bem a sério. Aqueles vampiros sedutores, cheios de classe, verdadeiras figuras de estilo, que num sussurro faziam colapsar qualquer resistência das suas vítimas; bem como os seres sinistros cuja sombra evocava o mais profundo terror e uma alma paralisada pelo medo, faleceram todos. Caçados talvez por Blade, Buffy e pela melhor coisinha que se consegue meter dentro de um fato de cabedal, Seléne, esses vampiros charmosos e/ou medonhos deram lugar a criaturas desenxabidas, pobres reflexos de Brad Pitt e companhia, e sem sequer assustar metade do que consegue fazer Béla Lugosi no seu Drácula. Agora a vampiragem é composta por gajos aparentemente normais, numa tentativa de “acagaçar por proximidade” – fazendo o espectador acreditar que qualquer pessoa com que nos cruzemos na rua pode ter uma costela draculea -, chorões, destroços emocionais, chatos e aborrecidíssimos. Os que não são tão humanizados são uns autênticos patifes que em modo de ataque fazem sair uma careta medonha e uma miríade de dentes pontiagudos; em suma: ou são aborrecidos ou são criaturas abjectas sedentas de hemoglobina e com um grande problema de gestão de raiva e humores. Dão pinotes e viruetas que envergonham qualquer acrobata shaolin a bem de uma acção que se quer dinâmica e mexida, e esta é a única habilidade que lhes reconheço como agradávelzinha sendo também transversal às várias espécies de vampirídeos do século XXI.

“Sou pouco boa, sou!” – Selene (Underworld, 2003)

Portanto, trocaram-lhes o estilo pelo kung-fu, a sensibilidade aos raios ultravioleta pela capacidade de se misturarem na multidão, a sinistra obscuridade por uma bolachinha de água e sal e um carioca de café na esplanada do jardim. Transformaram um ser que cujo mero conceito provocava arrepios no espinhaço por bebés chorões e grunhos burros que nem uma porta.

Fazendo sucessivas extrapolações e ligações e inferições pelas diversas lendas vampíricas, chega-se à conclusão que os vampiros existem há milhares de anos. A maioria deles viu o mundo crescer e cresceu com ele. Deveria haver uma espécie de reverência quando lidamos com criaturas quase tão antigas como o Homem. Essas personagens deveriam ter uma profundidade intelectual que quase nos fizesse baixar a cabeça em vénia quando privamos com elas, mesmo que seja através de uma tela ou ecrã. A classe e altivez devem ser espontâneas e intrínsecas pois derivam directamente da sua distinção de criatura secular, ou milenar, dependendo dos casos, fazendo com que a personagem nos prenda a atenção. Bem sei que o Daniel Day-Lewis não pode interpretar todos os vampiros do cinema, mas caramba, ninguém se esforça minimamente para respeitar um ser que contém no seu âmago enciclopédias inteiras de História. Já imaginou o valor de séculos de conhecimento na primeira pessoa?

Custa-me que não se discuta mais estas merdas.

3 pensamentos sobre “Já não se respeitam os Filhos das Trevas

  1. Epá o Nosferatu (personagem) de sensual pouco tem, mas, e como diria alguém que ambos conhecemos, “…isso é gostos…” x)

    Aconselho, apesar de acreditar que tais obras não te tenham escapado – tanto pela qualidade dos filmes, como pela qualidade da Monica Belluci: O “Drácula” do Tod Browning (1931), fantástico Bella Lugosi, e o “Drácula de Bram Stoker” do Coppola (1992). Uma verdadeira pérola, apesar de ser com o sensaborão do Keanu Reeves! Mas a presença do Gary Oldman e do Anthony Hopkins compensa sempre tudo! E não haverá mais sensual do que a cena da Monica – e isto dito por quem não sente qualquer verticalidade ao vê-la, portanto…

    Um beijinho.

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