O Homem da Batina Negra

Drawing_of_Dead_Soldiers_on_Antietam_battlefield

O ribombar dos canhões e o estrépito das espingardas havia cessado. Os únicos sons no ar eram gemidos moribundos e alguns, poucos, longínquos, gritos desesperados. A poeira e o fumo misturavam-se com o cheiro punjente da pólvora e com o aroma adocicado de carne humana queimada, dando à atmosfera uma densidade que se mastigava melhor do que se respirava. O Inverno ganhava terreno ao Outono mas nem uma leve brisa bulia na mórbida calmaria daquele amanhecer plúmbeo.

E ele caminhava solenemente pelo meio dos seus mortos. Todos seus compatriotas. Todos seus irmãos.

A batalha começara no dia anterior. Há muito que o inimigo havia despido as vestes de aliado e investido pela fronteira adentro sem qualquer resistência. A defesa, apanhada de surpresa pela traição, foi-se compondo aos poucos, mas ainda assim a superioridade táctica e tecnológica do adversário levou sempre a melhor contra os números incontáveis de corajosos soldados defensores. Ali, naquele campo de batalha jogava-se a reviravolta dos eventos, o virar da maré, em que a nação acossada se levantaria com toda a sua força unida e rechaçaria o atacante com coragem e bravura, com aço contra chumbo e gelo contra fogo. Mas não correu como deveria. A inteligência e técnica militar da ofensiva derrotou em apenas um dia o que levou meses a pensar, e agora jazia tudo num campo negro de mortandade.

Jazia tudo, menos ele.

Parou numa clareira entre uma floresta tombada de cadáveres mutilados, peças de artilharia destroçadas e bandeiras rasgadas. Ajeitou a longa batina preta, cofiou a barba e virou a cabeça para cima. Não havia céu nem sol através da espessa camada de fumo. Sorriu.

Admirou o pequeno livro que trazia debaixo do braço; encadernado a couro puído, com dobradiças e fechadura de aço ferrugento. Levantou-o à altura dos olhos e percorreu a capa com a ponta dos dedos saboreando a textura do cabedal. Cheirou-o. Acto contínuo, quase como um ritual melódico, tirou uma pequena chave pendurada de uma corrente de prata que trazia ao pescoço e, vagarosamente, inseriu-a na fechadura. Girou-a e sentiu a pulsação acelerar. Empurrou os óculos redondos e escuros para cima e abriu o livro.

A excitação era crescente a cada página folheada. Eram todas parecidas: de papel de velino finamente curtido, com iluminuras grotescas rodeando o texto que variava entre prosa e verso, escritos numa tinta vermelho-acastanhada. A letra que iniciava cada página era artisticamente capitalizada e orlada a ouro, preenchida com a mesma tinta.

Chegou à pagina que pretendia. Correu o texto com as pontas dos dedos indicador e médio não contendo um sorriso nervoso no final. Se isto não resultar vamos ficar em maus lençois, pensou. Pousou o livro no chão ensanguentado, sentou-se cruzando as pernas e arregaçou as mangas. Do bolso interior da sotaina tirou uma pequena navalha de cabo de madeira. Abriu-a e segurou-a na mão esquerda apontando-a às veias salientes do pulso direito. Começou a murmurar uma oração numa língua que nenhum dos seus irmãos perecidos perceberia, ao mesmo tempo que o fio da navalha fez espirrar um jorro de sangue. Repetiu o processo com o pulso esquerdo e transformou o murmurio em grito tonitruante.

O seu sangue tocou na terra e a terra tocou nos seus cadáveres.

* * *

Sergei Ilyanovitch era um rapaz bonito. Era disputado por quatro raparigas da sua aldeia, não só pela beleza mas também pela inteligência e sagacidade que nele abundavam, apesar da tenra idade. Foi um desgosto terrível quando se soube que o jovem Ilyanovitch tinha sido recrutado de emergência pelo Exército Popular. Aqueles olhos de anjo não foram feitos para verem as misérias da guerra, nem tão pouco aquele lindo cabelo loiro nasceu para ser tapado por um bivaque de soldado raso. Todavia ali estava.

Sergei Ilyanovitch já não era um rapaz bonito. Não depois de um tiro inimigo – ou amigo, pouco importa – lhe ter arrancado parte da cara levando consigo um dos seus magníficos olhos azuis; menos bonito ficou depois de caído no chão e em agonia, um obus inimigo – ou amigo, pouco importa – lhe ter rebentado com as pernas e o ter feito voar umas dezenas de metros até aterrar com o pescoço e um dos braços num ângulo estranho. Sergei Ilyanovitch estava feito num farrapo, literalmente. Cego, estropiado e morto. Todavia isso não o impediu de ouvir uma voz grave chamando por si.

Era uma voz distante e profunda. Não era o seu nome que dizia, mas Sergei Ilyanovitch já não sabia que nome era esse nem sequer o que era um nome. Simplesmente sentia um chamamento e uma vontade irresistível de responder ao apelo. Primeiro um dedo tremeu. Depois outro. Depois o resto. Por fim o peito encheu-se de ar e soltou um grunhido na expiração. Ele e os outros todos. Estava acordado! Ele e os outros todos. Estava tremendamente baralhado, mas sabia que tinha fome. Na verdade não conseguia pensar em mais nada. O seu único objectivo agora era comer. Estava possesso de fome, uma fome como nunca tinha sentido, uma voracidade animalesca e irracional que lhe dominava qualquer vontade e direcionava todos os movimentos e raciocínios para aquilo: tinha que comer algo vivo, algo quente, algo pulsante. Ele e os outros todos.

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