Mudam-se os tempos, mudam-se as educações

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No meu tempo a figura de um professor era coisa para ser respeitada. A criatura era dotada de poderes quase sobrenaturais de adivinhação e possuía uma sabedoria digna de um Matusalém de beira de estrada, mas um Matusalém todavia. Do alto dos meus seis anos, o ser parecia ainda mais austero e rabujento que um nazi com prisão de ventre, insónias e privação de nicotina – conquanto fosse adicto da substância, obviamente. As minhas memórias dessa altura e dos três anos subsequentes são de apanhar porrada de criar bicho, ora do macho alfa da turma, ora desse malévolo demónio que era o professor, que neste caso foi sempre fêmea, valha-nos a Providência. É claro que essas memórias foram empoladas pelo tempo e pela falta de outras mais felizes, mas o que importa é que ainda me lembro por que levei aquelas castanhadas da professora do 3º e 4º ano e tenho a perfeita noção que foram merecidas. Havia ainda uma régua curta de madeira, apelidada de Santa Luzia, pois o simples vislubre da dita cuja faria o mais abjecto dos zurrinos saber na ponta da língua todos os pronomes pessoais e alguns advérbios. Levei umas quantas reguadas tanto na mão esquerda como na direita por não saber ou fazer o que devia e quando devia, e apanhei uma ou duas caroladas por falar demasidado tanto em quantidade como em volume sonoro, e o mais incrível – pasme-se, caro leitor – é que cheguei aos 32 anos perfeitamente normal. Bem, tão normal também não, mas asseguro-lhe que não tenho traumas nenhuns decorrentes dessa altura e agradeço agora publicamente às mãozinhas que me chegaram a roupa ao pêlo e à bendita Santa Luzia que muito me abriu os olhos em horas complicadas.

Nessa altura, e durante os 12 anos que se seguiram lembro-me que muitos colegas e conhecidos meus tinham como objectivo na vida ensinar alguém como outros alguéns os haviam ensinado. Nessa altura, talvez mais inocente ou romântica, ou simplesmente tontinha, havia uma certa nobreza no acto de transmitir conhecimento, havia respeito pela figura de um professor, e eram essas duas coisas que os meus colegas e conhecidos almejavam.

Hoje, mais de vinte anos passados sobre essa bendita ignorância, ser professor é ser menor. Em termos de respeito social e institucional a profissão fica algures entre caixa de supermercado e operador de telemarketing; quando alguém me responde “professor” à pergunta “qual é a tua profissão” não consigo evitar devolver um “coitado (a)”. Hoje, mais de vinte anos passados sobre aquelas benditas reguadas na palma da mão, um professor tem de aturar de bico calado todo o tipo de ignominias de rudes petizes e livre-se ele (a) de tentar responder por via verbal ou física: habilita-se a nunca mais dar uma aula e ainda levar uns murros no focinho por conta de pais piores que os filhos. No meu tempo, os pais educavam em casa e o professor educava na escola. Simples. Hoje quem educa é a televisão, o feicebuque e a pleicetachione. Veremos daqui a uns tempos o que se ganha com isso. Provavelmente professores piores que ministros e ministros piores que criancinhas mal-educadas.

Imagem: “Portrait of the Professor of Medicine Jan Bleuland,” Pieter Christoffel Wonder, 1808

Um pensamento sobre “Mudam-se os tempos, mudam-se as educações

  1. Caro Luís,

    Seu texto reverbera meus pensamentos ipsis litteris. Olha que vivemos realidades bastante distintas, pois escrevo eu d’outro lado do Atlântico, e esta situação de uma forma geral é lamentável. Estou a ler sua página de cabo a rabo e me deleito principalmente com seus textos sobre cachimbo e tabacos, porque também cultuo o tabagismo nos horários vagos da minha existência sobre a terra. Continue a escrever, por favor, digo isto na posição de leitor atento.

    Saudações da América portuguesa,

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