Peterson Old Dublin (ceci n’est pas une critique)

Peterson_Old_Dublin_Pipe_Tobacco1Antes de mais vale a pena ressalvar a dificuldade em comprar uma mistura inglesa não aromática dentro deste rectângulo à beira mar plantado. A menos que o leitor vá a uma tabacaria especializada, tipo Casa Havaneza, por exemplo, digo-lhe que não será no quiosque da esquina nem na estação de serviço que encontrará esses pitéus. Ao que parece o fumador de cachimbo português só fuma tabacos aromatizados (mais ou menos) artificialmente. Só. É evidente que não há nada de errado em fumar aromáticos, principalmente dentro de casa e em ameno convívio, porém gostava de comprar coisas como Dunhill 965 ou Three Nuns com a facilidade que compro um Sail Black ou qualquer Borkum Riff. Adiante.

Precisamente da Casa Havaneza trouxeram-me de encomenda o Peterson Old Dublin, segundo o qual a senhora da loja jurava a pés juntos que era aromático e que não existia tal coisa como tabaco de cachimbo não aromático. Coitada. Obviamente nunca abriu uma lata do dito cujo e depois uma outra de Original Black Vanilla para saber a diferença. A culpa não é só dela: é também de quem a deixa trabalhar numa loja, que se quer especializada, sem formação. A tradição dos mestres tabaqueiros, da qual a supracitada loja se autroproclama parte sobrevivente, dita que quem está atrás do balcão saiba aconselhar o cliente mediante as suas preferências e desejos, e para isso não pode apenas saber o preço com IVA dos tabacos e charutos expostos. Tem que saber bem mais que isso e ser bem mais que uma simples, ainda que atenciosa, empregada de balcão. Mais uma vez, adiante.

O Peterson Old Dublin é caracterizado por diversos outréns como mistura tipicamente inglesa, composto de Latakia cipriota, Golden Virgínia e Orientais Turcos, com um fumo fresco, leve e picante. Um bom tabaco, dizem, para quem quer deixar os aromáticos e explorar as misturas mais fortes e complexas. Além disso tem excelentes críticas no site Tobacco Reviews, a bíblia comunitária do tabaco de cachimbo. Todavia o abrir da lata foi chocante. Habituado que estou aos tabacos aromatizados de quiosque, o cheiro do Old Dublin pareceu-me horrível. Caramba, é mesmo só tabaco! Cheirei-o outra vez, desconfiado. Sim, é mesmo só tabaco. Contudo não é de todo o tabaco que vem num cigarro. É punjente, claro, mas há doçura ali. E especiarias também. E mais qualquer coisa que o meu olfacto ainda pouco treinado não consegue identificar. Então é isto a que chamam de “fabuloso aroma de uma mistura de Virgínias, Orientais e Latakia“? Pronto, está bem. Fumêmo-lo então. E sabe que mais? Não tenho fumado outra coisa.

A fumada é igualmente chocante mas no sentido inverso: é doce e suave. Sente-se que se está a fumar tabaco e não uma sobremesa; é encorpado mas não o suficiente para se mastigar nem deixar algum travo amargo na língua. Não morde, mas sentem-se as especiarias dos orientais. Imagino que aquela silhueta de sabor denso seja o Latakia mas não sei precisar e só me surge de quando em vez. Acende bem e arde até ao fim sem pegar fogo ao cachimbo, nem mesmo ao maçarocas. Já me disseram que cheira a eucalipto ardido, mas ainda não dei por nada. Em suma, é um belíssimo tabaco. Se o cachimbeiro leitor quiser deixar os aromáticos e passar para o chamado tabaco de homem, o caminho (um dos caminhos, na verdade) é pelo Peterson Old Dublin.

P.S.: O departamento gráfico da Peterson devia arder no inferno por ter trocado esta lata por aquela que encima o post. Morram. Pim!

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