Para alguns colegas meus Voltaire foi o gajo que inventou a pilha eléctrica

death_socrates

Igualdade: começa e termina na cor do uniforme; para além disso, o nível profissional atribuído pela empresa e número de empregado ditam o respeito que se merece.

Fraternidade: somos todos muito amigos até alguém executar com sucesso um trabalho sobre o qual não teve “formação” com quem o executa há 20 anos. A partir daí perde o acesso a qualquer tipo de ajuda ou opinião técnica.

Liberdade: é total, conquanto não se execute os trabalhos mais rápido do que o tempo estimado para os fazer, nem se usem processos e métodos novos para o efeito. Os métodos e as ferramentas de suporte existem há 30 anos e é assim que se deve continuar.

(suspiro)

Assisto todo o santo dia à morte lenta dos mais básicos valores morais. Uma degeneração carcinogénica, infecciosa mesmo, onde os elementos infectados investem grande parte do seu tempo a infectar elementos mais saudáveis com ideias erradas e prerrogativas mesquinhas, ao ponto de esses elementos já nem conseguirem distinguir amigo de inimigo, nem dever de direito. Um dos problemas levantados por essa postura é que o tempo gasto a disseminar a discórdia e a calanzice devia ser passado a trabalhar porque é para isso que são pagos; outro dos problemas é que quem mais espalha esse ódio são precisamente pessoas que, pela sua idade e tempo na empresa, deviam dar um exemplo digno de ser seguido; o último problema é que efectivamente os seus exemplos acabam por ser seguidos por abéculas de espírito fraco que, das duas uma, ou se recusam a pensar pelas próprias cabecinhas, ou o acto de trabalhar nunca fez parte dos seus planos (apesar de, repito, serem pagos para o fazer).

Quem os ouve falar, sem conhecer as personagens nem profundamente o seu ecossistema, achará porventura que realmente são peças fundamentais na empresa, que se fartam de trabalhar e transpirar todos os dias por um ordenado miserável e talvez até beijem o logótipo na camisola quando entram na secção. Pois, mas não. Sem conhecer as personagens nem profundamente o seu ecossistema era impossível saber que todos os dias colocam valentes pedregulhos nas engrenagens, que roubam ideias uns aos outros para poderem aparecer em fotografias bacocas, que trabalham o suficiente, ou muito menos, para fazer o “ponto” diário – e nem mais um minuto – e que esse trabalho dificilmente lhes causa qualquer transpiração. E não, os ordenados não são miseráveis. Quem os ouve falar não os leva presos, mas quem os vir em acção é capaz de chamar o pelotão de fuzilamento.

Depois, oiço essas mesmas pessoas, que pensam/agem como se fizessem um favor à empresa todos os dias só por passarem no torniquete, queixarem-se dos salários e que não são aumentados há não sei quantos anos, e dos direitos que foram perdendo com a privatização, e o Governo e porque chove, e porque faz sol, e et cetera e tal.

Opá, vão mas é trabalhar!

Nota: Claro que isto é uma generalização em jeito de desabafo. Também há verdadeiros revolucionários que lutam contra estas coisas. E têm ganho muitas batalhas.

Imagem: A Morte de Sócrates, Jacques-Louis David, 1787

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s