Lição de História e Vocabulário

640px-An_Experiment_on_a_Bird_in_an_Air_Pump_by_Joseph_Wright_of_Derby,_1768

“São 6 horas da manhã. Há uma asfixiante intemporalidade neste tempo distendido por uma macerante expectativa que não cabe entre paredes. A leitura de um comunicado interrompe a cadência irritante da música marcial. Os indícios tornam-se mais nítidos. Colocam-se no campo dos bons auspícios. As Forças Armadas que ocupam os estúdios do RCP acusam o recrutamento abusivo da DGS e da Legião Portuguesa. O alvoroço redobra-me a ansiedade. A iminência de ver florir por fora a Primavera que sempre trouxe dentro do meu amor à liberdade morde-me o coração como uma alegria insuportável. Joguei sempre no impossível. E agora? Só os medíocres sabem o que fazer com a vitória. Pois haverá duas. A vitória que dará aos medíocres a oportunidade de estragarem o impossível, na frustrada demonstração de que é possível a felicidade dos povos. É este, de resto, o destino das revoluções. Quanto à minha vitória, ela oferece-me o ensejo de, no impossível possibilitado, desmascarar esta pretensão dos medíocres, com os olhos postos em impossíveis a haver. Por outras palavras: não me imagino a frequentar as aulas de qualquer revolução vitoriosa. (…)

São 6 e 45. As marchas militares são cortadas pelo emissor do Comando das FA, e inicia-se uma transmissão de canções proibidas. A minha comoção atinge o auge quando ouço cantar um poema em que desabafei o meu nojo pelos ratos da censura salazarista: «Queixa das Almas Jovens Censuradas». Empolgo-me com essa mediocridade do meu planfletarismo juvenil. Eu, que, dobrado o cabo das íntimas tempestades que no poeta rasgam o imo da verdadeira criação, aborreço esses exibicionismos metrificados da justiça social. Mas há uma estética efémera da exaltação colectiva que eleva à categoria de belo aquilo que, na ordem das coisas em repouso, ofende o bom gosto. E tudo isto é exaltante, porque em tudo isto se desprende para mim o canto livre de Afrodite que, em ondas de ouro, se propaga na cidade.

Abro a janela. Rompe a estrela da manhã.”

– Natália Correia, Não percas a rosa/Ó liberdade, brancura do relâmpago

Imagem: An Experiment on a Bird in an Air Pump, Joseph Wright of Derby, 1768

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