Qual Chuck Norris qual quê? Dureza é Lonsdaleíte

Quando alguém armado em sabichão de TV cabo lhe disser que o mineral mais duro encontrado na Natureza é o diamante, diga-lhe respeitosamente para ir levar com um tarolo de Lonsdaleíte no rabinho. O nome é estranho, sim, muito longe do místico adamantium do Wolverine (que na verdade é uma liga fictícia de titânio e diamante), mas a dureza estima-se que possa chegar aos 15 na escala de Mohs, frisando que nessa escala o diamante é um 9.5-10. O valor 15 trata-se de uma estimativa pelo facto de terem sido encontrados apenas cristais microscópicos cuja dureza é um pouco inferior à do diamante macroscópico.

É também o único mineral (alguém que me corrija se estiver errado) que não é criado na crosta terrestre mas sim na atmosfera ou mesmo na superfície, quando meteoros ricos em grafite são sujeitos a elevadas pressões e temperaturas devido à fricção atmosférica e colisão com o solo. A Lonsdaleíte é portanto um alótropo de carbono, mas a estrutura cristalina em vez de octogonal como a do diamante é hexagonal como a da grafite (ver abaixo).

Como será óbvio para o gemológico leitor, a Lonsdaleíte pode ser encontrada em algumas crateras de impacto (visíveis ou ocultas) laboratórios de pesquisa geológica ou nas cápsulas de transporte dos infames Guerreiros do Espaço. O estranho nome que parece enrolar na língua vem da homenagem à sôtora Kathleen Lonsdale, cristalógrafa e professora de Química, falecida em 1971, quatro anos depois da descoberta do mineral.

Formas Alotrópicas de Carbono

A – Diamante

B – Grafite

C – Lonsdaleíte

D – C60 Buckminsterfullereno (!)

E – C540

F – C70

G – Carbono amorfo

H – Nanotubo de carbono

E se não sabe o que é alotropia, também fica a saber: é a capacidade de um determinado elemento ocorrer em diversas formas. Uma espécie de Mystique da tabela periódica, portanto.

Reparou como se mistura ciência e super-heróis assim como quem não é geek? 

Prospecção Mineralógica de Fim de Semana

Gente de extrema finura teve o bom gosto de me ofertar meia dúzia de calhaus nos quais tropeçaram durante um passeio em fértil jazida. O passeio deu-se numa das 184.952 pedreiras de Estremoz, e conhecida é a fertilidade daquela terra em termos de metamórficos carbonatados, neste caso particular, mármore. E o que é que o mármore tem? Tem carbonato de cálcio, tem! E portanto tem calcites, tem! E foi isso mesmo que a supracitada gente de extrema finura me trouxe: meia dúzia de amostras de Calcite, das quais ali em cima se apresenta um espécime. Está um pouco erodida e sem brilho, porém é sem dúvida a mais fotogénica de todas. Não querendo ferir susceptibilidades, e longe de não me mostrar grato, tenho um conselho a dar a outra gente de extrema finura que tropece em jazidas deste género e queira surripiar à terra aquilo que ela dá de livre vontade: manuseie os calhaus com cuidado. Embrulhe-os para transporte, nem que seja em papel do Correio da Manhã, mas proteja-o e lave-o com cuidado. A calcite, por exemplo, tem dureza 3 em 10, o que significa que se a enfiar num saco sem proteger cada uma das peças o mais certo é chegar a casa com elas todas partidas em romboedros, ou no mínimo todas riscadas e com linhas de fractura. E é uma pena tirar da mochila um cristal que estava perfeito quando foi achado, mas já não está. Mais, quando um pedaço de rocha matriz estiver a atrapalhar, não precisa de invocar toda a força dos seus antepassados guerreiros para a partir: pancadas firmes e secas fazem o mesmo e poupam possíveis preciosidades escondidas na rocha. Se não tiver as calosidades nas mãos típicas de um trabalhador a sério, não se envergonhe e calce umas luvas, mas é muito importante que segure a pedra na mão e a pancada seja dada no sitio certo – da pedra, não da mão. É mais jeito que força, como diziam os antigos.

É que a Terra demora uns milhões de anos a fazer estas coisinhas todas bonitas e o caralho, mas é necessário só um bocadinho de brutidade humana para destruir aquilo. E digo isto com plena consciência do animal em que me transformo quando vou aos calhaus; lembrando-me também daquela vez em que destruí uma Celestite porque lhe dei banho em água; e da outra em fiz desaparecer 70% da cobertura de Libetenite de uma amostra encontrada. Por isso sei bem do que falo. Todo o cuidado é pouco, nestas merdas, e o que aqui aconselho é o mais básico que há mas no final de contas já é alguma coisa.

E mais uma vez, obrigado às gentes de extrema finura.

Porque domingo é dia de calhaus

Achei este exemplar de Wulfenite e Mimetite demasiado interessante para constar apenas da loja do Kevin Ward. Uma vez que não tenho os 485 dólares necessários – caramba, é praticamente oferecida – para a sua compra, e já que o aspecto aqui da tabanca está mais agradável, pensei em trazê-la para efeitos meramente decorativos. Mas sabe, caro leitor, é difícil jogar imagens de calhaus destes na sua cara sem um mínimo de explicações sobre o que está a ver. Portantos, aqui vai:

Ao contrário do que lhe possa parecer, não está a olhar para caramelos engenhosamente colados a líquenes mais férteis em algas do que em fungos, nem para uma estranha salada gourmet saída de um sonho molhado do Sá Pessoa, mas sim para cubos de Wulfenite, conhecido nalguns círculos mais restritos como molibdenato  – ou molibdato – de chumbo, muito bem acompanhados por glóbulos de Mimetite verdusca. Pronto, vê? Não se sente muito mais esclarecido? Pode clicar na imagem para ver melhor, claro.

As Grandes Famílias: Granada

Hoje venho falar-vos de uma das maiores e mais espectaculares famílias de minerais: Granadas. A origem do seu bélico nome nada tem a ver com aqueles pequenos artefactos feitos para estraçalhar tudo o que tiver o azar de estar no seu raio de acção. A origem do seu nome tem, isso sim, a ver com a romã, que em latim se pronuncia Punica granatum e com a sua forma ligeiramente semelhante à família de ortossilicatos. Granadas há muitas, cada uma com o seu feitio e cor, mas os traços de família são comuns a todas e tornam-na numa das família de minerais mais importante. Um desses traços é a memória: todas as granadas se lembram onde, quando e como nasceram, sendo, portanto, de extrema importância para aquela estranha espécie  de humanos denominada por geólogos. Uma delas, a Knorringite – que nome, Céus -, chega ao ponto de ser uma espécie de chibo de diamantes: onde quer que seja vista é sinal de que há Diamantes nas redondezas. Mas não se ponha já a olhar para o chão. Há quem diga que a Knorringite é ainda mais rara que o melhor amigo das raparigas.

Além de uma família de historiadores e chibos, as Granadas também enfeitam como ninguém. São rijas o suficiente para poderem ser lapidadas e aguentar uma vida inteira de dedo em dedo ou de pescoço em pescoço; são lindas, quase todas elas, e muito mais comuns que os parentes Berilos e Corindos, que é o mesmo que dizer Esmeraldas, Rubis e Safiras.

Mesmo quando a feiura não lhes permite ganhar um lugar numa jóia, as Granadas também não ficam paradas. Devido à sua dureza depressa se desenvencilham como abrasivo em lixas ou em jactos de areia.

Mas vamos conhecer os principais rostos.

Andradite

As suas cores vão desde o vermelho, ao preto, passando ainda pelo verde, cuja variedade se chama Demantóide e é uma das Granadas mais valorizadas.

Almandina

Ou Carbúnculo. Não confundir com a doença infecto-contagiosa. Os seus espécimes mais límpidos substituem muitas vezes os caríssimos Rubis.

Grossulária

Roubou o nome ao latim para a planta groselheira. Pode ser verde, amarela, castanha-canela, e vermelha. Uma das suas melhores descendentes é a verdusca Tsavorite, descoberta nos anos 60 em Tsavo, Quénia.

Piropo

Não, não trabalha nas obras nem é um engatatão. Piropo vem do grego pyropo que significa olho-de-chamas. As suas cores variam entre o vermelho vivo e o preto, sem esquecer a muito apreciada transparência. Recentemente foi descoberta uma variedade proveniente de um acasalamento consanguíneo entre o Piropo e a Espessarite que muda de cor, um pouco como a Alexandrite, que já vos tinha apresentado. A principal diferença entre a Granada e a transformista Alexandrite é que a primeira varia de cor ao longo do dia e não só consoante o tipo de luz. Acorda verde ou azul acinzentado e ao fim da tarde tem tendência para ficar vermelha. À luz incandescente pode mesmo chegar ao púrpura.

Uvarovite

O nome não vem do facto de surgir quase sempre em cachos, mas sim do Conde Sergei Uvarov. É sempre verde-esmeralda e a maior mágoa dos joalheiros é a supracitada Granada ocorrer sempre em cristais demasiado pequenos para trabalhar. Assim, os artífices aproveitam a matriz do mineral e engastam-no em jóias mesmo assim.

Outros elementos da família Granada; alguns pouco comuns e outros cuja descrição não iria adicionar grande coisa ao que aqui já foi escrito:

Berzelite, Calderite, Escorlomite, Espessarite, Goldmanite, Henritermierite, Hibschite, Katoite, Kerimasite, Kimzeyite, Knorringite, Majorite, Mangaberzelite, Morimotoite, Palenzonauite, Toturite, Yafsoaite.

Atenção que estes nomes foram retirados de artigos em inglês, pelo que o seu nome em português pode ser ligeiramente diferente. Seja como for, de nomes esquisitos dificilmente passam. E olhe que ainda há mais Granadas: quase todas as variedades aqui referidas têm primos em segundo grau. Mas falar deles tornaria este artigo ainda mais extenso e secante do que já e. Nem sequer falei em composições químicas, veja lá.

Fotografias tiradas daqui.

As esmeraldas não nascem em anéis.

Nascem sim em bolsas hidrotermais, principalmente, onde as condições ideais de temperatura, pressão e sobressaturação se mantiveram tempo suficiente para que a solução em causa precipitasse e cristalizasse o berílio, o alumínio e o silício necessários e ainda que, durante os milhões de anos de construção, organizasse os elementos acima descritos de forma a criar uma esmeralda e não outro mineral qualquer. Como se vê, criar minerais não é tarefa nem fácil nem rápida. É um parto bastante difícil para a Terra, mas tão natural que o faz se sem dar por isso.

Este anel tem como prato principal uma esmeralda, os diamantes e a platina são o acompanhamento, manda-se para os 2.4 milhões de dólares (assobio de olhos arregalados). Já isto é uma esmeralda ainda cravada na sua matriz proveniente da Zâmbia. Tem 3 cm de comprimento – ou altura, neste caso – e um preço de mercado que ronda os 4.500 dólares.

No entanto. esta outra imagem aqui por baixo, representa uma água-marinha, parente próximo mas muito menos precioso da esmeralda. O cristal em questão tem 4 cm de altura por 3 de largura, e minúsculas estrias fazem surgir a ilusão de uma gasosa. É um prisma perfeito, com arestas tão definidas que até mete nojo.

Custa “apenas” 2.500 dólares. Subvalorizada?Talvez.

Diga-me o gemológico leitor, qual das três peças aqui descritas acha mais espectacular.

Desde épocas imemoriais que os seres humanos dão um valor desmesurado a este tipo de minerais – gemas -, trabalhando-os, melhorando-os (na óptica da maioria das pessoas) de forma a que se possam pavonear com eles ou ganhar dinheiro com isso. As esmeraldas não nascem em anéis, mas parece. Devido à sobrevalorização da joalharia as peças em “estado selvagem” como as apresentadas acima rareiam cada vez mais, enquanto os joalheiros compram toneladas de pedras a preços irrisórios e guardam-nas nos cofres durante anos para que o seu preço de mercado não desça escabrosamente. É prática corrente quer no mercado das esmeraldas, rubis, safiras e água-marinhas, mas principalmente no dos diamantes. Chama-se especulação e apesar de não ser ilegal, é, vá, feio.

Nota: tanto a esmeralda como a água-marinha em cristal encontram-se em colecções privadas e a salvo de qualquer esmeril e lima mais famintos.

Calhaus para ricos

As duas pessoas que seguem atentamente as minhas (poucas) dissertações sobre mineralogia sabem bem onde vou buscar as fotografias e alguma da inspiração: ao site de leilões Exceptional Minerals, de Kevin Ward. Apesar do seu aspecto gráfico se situar bem perto do de um bordel internáutico dos anos 80, acredito que tenha muito movimento, não só pelas constantes actualizações, mas também pelas peças mineralógicas que lá aparecem. Ora bem, hoje andei a vasculhar as salas de um novo leilão cujo título é Exceptional Rooms, onde supostamente estão representados os melhores especimens disponíveis. Foi, naturalmente, com algum espanto que tropecei nesta “maravilha”:

Tucson2009-350climaxrhodochrosite3

Chama-se Rodocrosite, é tão tímida que raramente se encontra em qualquer lugar que seja, tem uma dureza de 3.5 a 4 na escala de Mohs e, apesar de possuir algum manganésio na sua estrutura, não serve para grande coisa, coitada. Este exemplar em particular nem sequer é muito bonito, quando comparado com coisas destas, e vem de uma mina parcialmente abandonada na cidade de Climax no Colorado. Diga-se de passagem que não é um local muito simpático para os manganésios, uma vez que os molibdénios têm em Climax uma das suas maiores colónias e toda a gente sabe o que acontece quando um invade o território do outro, todos vemos o telejornal, certo? Segundo o  próprio Kevin Ward “demorei doze anos a encontrar o Santo Graal das rodocrosites: uma peça grande, com cristais grandes, completos e com uma cor profunda“. Talvez seja essa a razão principal por que custa 95.000 dólares. Leu bem: noventa e cinco mil dólares. A raridade tem um preço e nunca é baixo. Além desta Rodocrosite milionária, só uma outra peça batia os 95 quilodólares: uma árvore de prata nativa norueguesa. Porém, esta sim, só de olhar para ela quase vale a pena pagar o que ela vale.