The Gift – 20 anos de paixão

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Ao ouvir a música Changes, uma das minhas preferidas, e que o Spotify teve a fineza de colocar no topo da reprodução aleatória, percebo que os The Gift sobreviveram ao teste do tempo, no que ao meu gosto musical diz respeito. Explicando: oiço hoje o fenomenal Vinyl com a mesma pica que ouvia quando saiu nos idos 1997, quando me apaixonei por uma menina de covinhas nas bochechas e um vozeirão que me impressionou tanto como trovão quanto como veludo. Ainda hoje, quase 20 anos depois do primeiro OK! continua a tocar em recantos do meu sistema límbico como muito poucas coisas tocaram. Os sacanas. Aquelas musicas, a maioria pelo menos, entram-me pelos ouvidos e enchem-me tanto o peito que quase nem respiro. Há umas em que não respiro mesmo com medo até de perder qualquer acorde ou palavra. Levam-me de volta a um certo e determinado concerto no Teatro Garcia Resende em Évora, aquando da digressão do soberbo Film, em que não conseguindo suster aquilo com que Sónia Tavares e companhia me enchiam a alma fui impelido sabedeusporquefeitiçaria a subir ao palco. Sentei-me de pernas cruzadas em frente ao suporte do microfone e vi o resto do concerto dali, embevecido, dançando platonicamente nas palavras da Sónia enquanto cantava “and it feels good, and it’s so warm having those eyes playing with me, myself and I“. Sim, ela cantou isto a olhar para mim, legitimando portanto em qualquer parte do mundo e em qualquer cultura a minha paixoneta. Daí para frente cada vez que a oiço, a ela e aos divinais macambúzios que lhe dão música, a minha alma fica assim, de perna cruzada, embevecida, de peito cheio de qualquer coisa que nem sei bem o que é. Mas é muito bom. Muito bom mesmo.

Obrigado Sónia, Nuno, John e Miguel, por 20 anos disto. Parabéns também. Um grande bem-hajam.

Um dia difuso com música definida

É clicar na focinheira do animal e rodar o botão do volume para o limite máximo do ouvido humano e das colunas em causa.

A vila acordou hoje debaixo de um nevoeiro resiliente. Às quatro da tarde, hora continental, ainda não despegou e nem é de crer que o faça tão depressa. Deixa tudo com um ar muito estranho, onírico talvez, de vila piscatória talvez também, refrescante de certeza. Parece que acordei no meio do Triângulo das Bermudas e vou tropeçar a qualquer momento num D. Sebastião aos gritos de espada desembainhada. As poucas pessoas na rua arrastam-se sem sombra pela calçada e é nessa altura que começo a ouvir ao longe os harmónicos debitados por Manzarek, anunciando a voz profunda de Morrison “Awake/Shake dreams from your hair/my pretty child, my sweet one“. Um cenário bem longe da “vast radiant beach and cooled jeweled moon“, mas foi no órgao do Ray e nos slaps de guitarra do Robbie que a minha enfezada cabecinha encontrou a sonoplastia ideal.

Um casal forasteiro com cria e pau de cabeleira pavoneiam os coiros citadinos enquanto uma das fêmeas diz plena de desdém “isto é que é o sítio mais bonito daqui?pffffff!“. O que eu não respondi, por vias de um senso mal cristalizado de sociedade civilizada e respeitadora de gostos alheios, foi “desculpe, minha senhora, pelo facto de não termos aqui nenhum centro comercial de plástico e brilhantinas, nem o atravancamento lá da sua Pontinha ou do seu Sacavém, com as casinhas todas descoloridas de um arco-iris pintado há 40 anos e tapado da fuligem dos autocarros; desculpe, minha senhora, por gostarmos de espaços abertos e arejados, de paredes brancas e relvados bem verdes; desculpe, minha senhora, por preferirmos o granito ao alcatrão; desculpe, minha senhora, aqueles tapumes de construção civil, mas na verdade só estão ali há um mês, portanto deixemos os homens acabar aquilo a ver no que dá; mas também minha senhora, olhando bem para a sua fronha mal encavada de nariz empinado, digo-lhe que mulheres assim já temos aqui aos pontapés e nem elas nem você nos fazem assim tanta falta. Por favor não volte tão depressa, mas se voltar traga lá fotografias do sítio onde mora a ver se será assim tão melhor que este, sim?”.

“Oh great creator of being
Grant us one more hour,
To perform our art
And perfect our lives”

Morrer cedo para dar um cadáver bonito

No caso de Amy Winehouse isto não será uma verdade absoluta, que a tipa era feia que se fartava. Já a sua morte é dificilmente, mesmo muito dificilmente, surpreendente. Sabe-se como vivia e sabe-se como morreu. Dois albúns de estúdio, Frank e Black to Black, mostram que a sua influência foi muito além do número de composições: não sendo prolífica, Amy, deu à música a alma, a tragédia, o negro veludo com que se criam as grandes canções e as grandes lendas. E deu mesmo, não emprestou. No fim ficou só ela, sem nada.

Diz-se que pertencerá ao panteão dos 27, onde jazem já Morrison, Cobain, Joplin e Hendrix. Veremos. Daqui a 20 ou 30 anos veremos onde está a memória de Winehouse e se falaremos dela com o misto de reverência e confiança bacoca que falamos – ou falo, vá – hoje do Jim, do Kurt, da Janis ou do Jimi.

Que festarola devem estar eles a dar lá onde quer que estejam.

Morrison declama versos avulsos em cima da mesa da sala, de garrafa de Jack Daniels na mão, enquanto Janis atravessa a parede no seu Mercedes de ’70 e ri que nem uma lunática. Cobain gira o tambor do revolver e, encostando-o à têmpora, aposta com Hendrix que esvazia a pistola mais depressa do que o outro inala aquele metro de coca. Nisto entra Amy, a tímida Amy: “Olá malta. Alguém quer cavalo? Tenho que chege para todos.”

Do Roquenrole como Antidepressivo

Trouxe-o da Fnac na última visita à nobre instituição, juntamente com um besteofe de uma banda nova engraçadíssima chamada Guns N’ Roses (uma terrível falha na prateleira assim colmatada) e um Live de outra banda sopimpa que se dá pelo nome de AC/DC (neste momento em paragens desconhecidas; raismaparta mais a minha memória de peixe dourado).

Isto tudo para dizer que o primeiro dos Kings of Leon é uma valente malha; daquelas que nos faz bater os pés e abanar a cabeça involuntariamente. Como estou a conhecer (só) agora os ditos cabrõezitos, é justo dizer que me deixaram com fé na saúde do roquenrole (fode-te, Manson!). Pode ser que me engane, mas este Youth and Young Manhood já ninguém mo tira.

É clicar na fronha dos guedelhudos para verem se tenho ou não razão.