Benvindo ao deserto da televisão

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Ao que parece ontem foi o Dia Mundial da Televisão. Como se não bastasse haver um dia mundial para cada coisa com mais ou menos valor conhecida pelo Homem, ainda há um dia mundial do artefacto eletrónico que mais contribui para a deseducação dos portugueses.

Cresci com a televisão, como qualquer pessoa da minha idade. Não valerá a pena desfilar aqui as séries preferidas, desde Alf a Duarte e Companhia, vale a pena sim afirmar que se tivesse um filho com idade para ver televisão sozinho eu não o deixaria. Excetuando, obviamente os canais “de cabo”, mas esses não fazem parte da televisão como entidade, e sim de uma classe temática própria. Cresci com a televisão, dizia, e ao que parece acabei um individuo perfeitamente normal (por enquanto). Temo que não aconteça o mesmo às gerações que estão a crescer com a televisão neste momento.

Hoje em dia a televisão é pobre. Mostra-nos muita pele e pouca cabecinha, muito drama e pouco conteúdo. Muita parra para tão pouca uva. A julgar pelos programas das tardes de fim de semana parece que as únicas pessoas em frente à televisão são reformados, ou campesinos, ou gente com uma índole a roçar a patologia psicomotora; a julgar pelos programas das manhãs de semana também. Não quero com isto aferir que só as pessoas de um certo nível cultural gostam desses programas, mas o que é facto é que, para quem não tem nenhum serviço por cabo, não há alternativas. Já não há filmes, nem para crianças nem para adultos, não há documentários, nem sequer programas que elevem um bocadinho mais a cultura geral em vez do conhecimento sobre o último abanar de ancas da Rosinha ou a última tatuagem daquele fulano todo jeitoso a cantar em pleibéque mas que afinal é trolha.

Há a grande exceção, obviamente. A 2. Ou RTP2 ou lá como se chama nos dias que correm. Em tempos quiseram acabar com ela e graças a todos os santos falharam no intento. Deus no-la guarde assim mesmo, com desporto nacional a rodos (ultrapassando em serviço o que a própria Sportv oferece) e com séries e filmes que ninguém mais veria em lado nenhum, mas caramba, dêem-me todas as produções independentes da Galiza aos Urais que eu troco sem ver por qualquer programa de domingo dos outros canais.

O grande problema de facto é a falta de variedade na televisão nacional. Por vezes chego a pensar que o diretor de programas é o mesmo já que a programação e o seu teor pouco difere. Porra, até os intervalos de cada telejornal parece que estão sincronizados. Se calhar estão mesmo, em favor dos diretores-sombra dos canais, as agências de publicidade, mas não queria chegar a tanto.

O que importa mesmo reter no meio disto tudo é que o Dia Mundial da Televisão foi ontem. E como o outro, quando a acenderam fui para o quarto ler um livro. Já o aparelho em si é deveras elegante.

Imagem: Will Sillin, The Rum Desert, Wadi Um Ishrin, 2010

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Simpatizo com as cenas da Caitlin Hackett

Mitológico-decadente-febril, seria assim que classificava o que sai da cabecinha de Caitlin Hackett. Simpatizo com a arte da miúda porque sim; porque olho para qualquer obra dela e não consigo conter um sorriso – puramente mental -, e dizer cá para mim “grande maluquinha, olha-me lá bem para isto”; e são esses grandes maluquinhos que normalmente criam coisas que gosto e que tenho para mim como génios. Há alguns processos criativos com os quais me identifico e onde dou uns toques (leves, muito leves), mas este tipo de coisas fascina-me. Não só me fascina como me agrada bastante a arte aqui desta fulaninha de pé descalço. Provavelmente haveria muita coisa a dizer sobre a orgânica conceptual das obras e da semiótica do raioqueoparta, mas sendo eu o crítico de arte mais binário de sempre (gosto/não gosto) essas merdas intelectuais não me interessam nada. Pés descalços em cima de obras-primas, por exemplo, são muito mais interessantes.

Visite o site da rapariga que há mais fruta desta mas com boa qualidade. Isto foi o que o Google conseguiu arranjar assim em cima da hora. Link.

Publicidade Institucionalíssima

No caso de haver dúvidas a Galeria Lobo Mau tem uma coisinha a dizer “Arte Contemporânea” à porta, o que pelos vistos quer dizer exactamente o mesmo em linguagem arraiolense; fica ao lado da Pastelaria Reis – quero que se foda a publicidade, ao menos tem o nome à porta e uns pastéis de nata brutais – que fica ao lado do Cine-Teatro – que não tem nome à porta nem filmes lá dentro, nem dos brutais nem dos outros.

Ide e vêde, meus ígnaros, ide e vêde.

Ah, e antes que me esqueça, vamos ao trabalho, foda-se!

Dá-se prioridade a trabalhos sobre nús femininos especialmente em fotografia ou vídeo. Eu pelo menos dou.

Warhol é uma cena que a mim me assiste

Andy Warhol e o seu fiel companheiro Pietro Psaier em exibição no Fórum Eugénio de Almeida, Évora, Portugal, Europa, Sistema Solar, Via Láctea. Até uma das conhecidas latas de sopa Campbell lá está. É a de ervilhas, mas não é mázinha de todo. Há também a cadeira eléctrica onde se diz que Roman Polanski, no sentido literal do termo, grelhou umas febras e meia dúzia de entremeadas. Ide e vêde. Contemplai a pop-art em todo o seu esplendor.

Até 13 de Novembro.

Sol firme e céu azul

O cognome do TED, Ideas Worth Spreading, ou para monolíngues, Ideias Que Vale a Pena Espalhar, não podia estar mais correcto. Nunca nutri apreço especial por este fulaninho Pedro Ribeiro – ou por causa do exacerbado benfiquismo ou por a Rádio Comercial ser uma cena que a mim não me assiste – mas caralhosmafodam se o gajo não fala bem.

Percam vinte minutinhos da vossa vida e ouçam-no.

Nota de rodapé: Pulga alarvemente catada ao Cão. Até o título rapinei.

Steampunk: o poder ilimitado do vapor

Desde pequenito e enfezadito petiz que nutro um fascínio desmesurado por estas coisas. Passava horas a apreciar velhos e enferrujados mecanismos – relógios e outras geringonças de inominável nomenclatura. Tudo o que tinha tubos de cobre e manómetros insondáveis prendia a minha atenção e soltava a minha imaginação de formas que até ter lido as 20.000 Léguas Submarinas do amigo Jules Verne – para mim serás sempre Jules e nunca jamé Júlio ou Juju – nunca tinha compreendido. Depois veio o cinema com  Wild Wild West e A Máquina do Tempo de H. G. Wells (o livro só o li há uns meses) e a internet pôs finalmente um nome a esse meu fascínio por metal acobreado, manómetros e vapor sibilante: steampunk.

Assentando as suas bases na época vitoriana e na sua revolução industrial, com a invenção da mecânica e da hidráulica do vapor, a corrente artística Steampunk é o eco e a perfeita cristalização de uma altura em que talvez tudo fosse possível e nem sequer o céu era um limite aceitável. Misturando um pouquinho de fantasia depressa o “talvez” da frase anterior desaparece e o “fosse” é substituído por “era”.

Uma pesquisa rápida no Google mostra que o Steampunk está cada vez mais vivo, pelo menos numa vertente escultórica e pictórica. Playstations e computadores pessoais transformados em máquinas do século XIX; pequenos insectos inertes de cobre e aço quase nos fazem crer que na realidade se movem e são assistentes de um qualquer cientista ou mecânico meio ou completamente lunático; máscaras, como a que vemos encimando este post atiram-me, a mim pelo menos, para um Universo paralelo de onde aquele distinto senhor sai periodicamente afim de visitar outros Mundos como o nosso e outros ainda mais loucos e desinteressantes, utilizando talvez uma maquineta enorme cheia de termomanómetros e vacuómetros e vapores diversos a sair de diversos tubos de cobre reluzente, com um cadeirão de cabedal ao centro e uma data de alavancas com punhos sumptuosamente decorados por madrepérola, malaquites polidas e demais semipreciosidades, dependendo da sua função.

Vê o que eu digo com “soltar a minha imaginação”?

Ora, e sobre o Steampunk não tenho muito mais a dizer que não tenha sido dito já por mim ou por outréns. É do tipo de coisa que só vista. Posso é referenciar algumas coisas de tele-cultura relacionadas com esta corrente, como o anime Full-Metal Alchemist, a série Warehouse 13 e alguns episódios de Dr. Who. Em literatura tem aos já referidos e sempiternos Jules Verne e H.G. Wells, bem como Mary Shelley e até Lovecraft. No cinema há também muita fruta, como As Aventuras de Barão Munchausen, Brazil, Van Helsing, Hellboy, A Bússula Dourada e Vidocq. Clicando aqui a lista fica bem mais completa, o que referi são as obras que vi e mais me humedeceram a genitália criativa.

Agora, e para concluir aqui o bitaite, só falta dizer que o dia 9 de Abril ainda vem longe mas pode começar a juntar dinheiro porque eu gostava mesmo muito de receber uma coisa destas nesse dia. Gostava gostava. Até lhe agradecia e tudo.

E mais um Link, desta sobre a máscara.